FOCO: Despedida a Pierre Rissient

FOCO: Despedida a Pierre Rissient

Programador, distribuidor, assessor de imprensa, assistente de direção, roteirista, produtor, diretor e descobridor de cineastas, Pierre Rissient faleceu aos 81 anos.

Estado da Arte

08 Maio 2018 | 08h00

Uma parceria com a Foco – Revista de Cinema

Quando a Foco – Revista de Cinema nasceu, muitas das ideias que Pierre Rissient ajudou a disseminar não apenas estavam lá, como de certa forma nos guiaram através dos anos, o que eventualmente fez com que discutíssemos as obras de alguns dos diretores que ele defendeu.

 Rissient fez pelo cinema, quando foi o responsável pela programação do Mac-Mahon, ou quando foi à Ásia para conhecer novos talentos e trazê-los para o Ocidente, o que ninguém tinha pensado ou executado até então:o conhecimento e a valorização de um cinema atípico, que se tornara clandestino no seio da própria massa indiferenciada da produção comercial. Foi assim com Raoul Walsh e Jacques Tourneur, e foi assim também com Edward Yang e Abbas Kiarostami.

Em 2014, enquanto organizávamos a última edição da Foco, nos correspondemos com Rissient em função de uma homenagem que preparávamos ao seu amigo Marc C. BernardMuito prontamente e gentilmente ele aceitou escrever sobre aquele que fora seu colega no “Círculo do Mac-Mahon”. Seu interesse em valorizar a memória de um amigo que acabara de falecer era idêntico ao entusiasmo que mantinha diante da atualidade do cinema, e suas reminiscências pareciam tão novas e vivas quanto tantas narrativas a que tivemos acesso da fase áurea do seu envolvimento com o Mac-Mahon…

 Pierre Rissient faleceu neste sábado, 6 de maio de 2018. Deixou uma marca indelével no cinema.

 

Bruno Andrade e equipe Foco

PIERRE RISSIENT, 1936-2018

por Bruno Andrade Matheus Cartaxo

Se você começou a gostar de cinema vendo os filmes de Quentin Tarantino, agradeça a ele. Caso a sua jornada tenha iniciado com John Ford, Fritz Lang, Max Ophüls, Nicholas Ray, Anthony Mann, Don Siegel, Josef von Sternberg, Claude Chabrol, saiba que também foi ele o responsável por descobrir ou reabilitar esses nomes. Da mesma forma como, dos anos 1970 para cá, lhe devemos a descoberta de King Hu, Hou Hsiao-hsien, Edward Yang, Lino Brocka, Ann Hui, Francis Ford Coppola, Robert Altman, Abbas Kiarostami, Hong Sang-soo. E, é claro, Clint Eastwood.

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Nos anos 1950, quando um grande movimento de investigação do passado do cinema foi impulsionado pelo trabalho de Henri Langlois na Cinemateca Francesa, Pierre Rissient foi o responsável pela programação do cinema Mac-Mahon, o único em Paris a exibir filmes americanos na sua língua original com legendas em francês.

Foi graças aos esforços de Langlois na Cinemateca Francesa e à tenacidade de Rissient em programar pequenos filmes até então desacreditados pelos distribuidores (e, portanto, completamente desconhecidos pelo público francês) que o trabalho de revisão crítica empreendido pelos “jovens turcos” ligados à revista Cahiers du cinéma– Jean-Luc Godard, Jacques Rivette, François Truffaut – pôde de fato ser levado a cabo.

É em 1953 que Rissient convence Emile Villion, diretor do Mac-Mahon, a programar Amarga Esperança (They Live by Night, Nicholas Ray, 1948), exibido anteriormente no “Festival do Filme Maldito” no ano de 1949 com o aval de Jean Cocteau. Pouco tempo depois, Rissient propõe uma programação composta por filmes como O Rio da Aventura (The Big Sky, Howard Hawks, 1952), Fúria do Desejo (Ruby Gentry, King Vidor, 1952), Na Teia do Destino (The Reckless Moment, Max Ophüls, 1949), O Cúmplice das Sombras (The Prowler, Joseph Losey, 1951) e A Ladra (Whirlpool, Otto Preminger, 1950). As exibições desses filmes obtêm um enorme sucesso e Rissient, então com 18 anos, torna-se o programador oficial do Mac-Mahon em 1954, criando uma tática de promoção que tornou a sala célebre: o nome do diretor era exposto na fachada junto com o título do filme exibido.

Durante os anos em que ficou encarregado da programação do Mac-Mahon, Rissient tornou conhecidos, entre inúmeros outros, os filmes de Joseph Losey (O Fugitivo de Santa Marta e a refilmagem americana de foram exibidos no Mac-Mahon em 1955), Fritz Lang (os trabalhos da sua fase americana, à época completamente desprestigiados), Raoul Walsh e Otto Preminger (cujos filmes eram até então pouco conhecidos pelo público francês). Reconhecendo o mérito do trabalho feito por Rissient, Villion permitiu que se instalasse uma placa com uma “quadra de ases” composta por retratos de Losey, Lang, Preminger e Walsh no hall de entrada da sala de projeção do Mac-Mahon, dando destaque aos diretores que representavam o melhor do cinema mundial de acordo com Rissient e seus colegas, apelidados de “mac-mahonianos”, grupo de que faziam parte o crítico Michel Mourlet, Marc C. Bernard e Alain Archambauld.

Entre o final dos anos 1950 e início dos anos 1960 Rissient, além do trabalho no Mac-Mahon, acumula créditos como assistente de Chabrol (em Os Primos) e Godard (em Acossado, que teve várias cenas rodadas no Mac-Mahon) e trabalha como assessor de imprensa, ocupando-se dos relançamentos de velhos filmes de Fritz Lang (Os Carrascos Também Morrem, 1943), Jean Renoir (A Regra do Jogo, 1939), Leo McCarey (A Cruz dos Anos, 1937), Raoul Walsh (Heróis Esquecidos, 1939; O Ídolo do Público, 1942; Sua Única Saída, 1947), Jacques Tourneur (os filmes de terror produzidos por Val Lewton para a RKO) e das estreias dos novos filmes de Don Siegel (Os Assassinos, 1964), Joseph Losey (O Mundo os Condenou, 1962, e O Criado, 1963) e Samuel Fuller (Paixões Que Alucinam, 1963, e O Beijo Amargo, 1964). Neste momento o alcance do seu trabalho já ultrapassou os muros do Mac-Mahon, e é assim que ele começa a usar a fama de descobridor de cineastas e o seu poder de convencimento para chamar a atenção de críticos, programadores e distribuidores para os primeiros trabalhos de realizadores como Jean Eustache, Dušan Makavejev, Miloš Forman, Éric Rohmer, Werner Herzog, Jerry Schatzberg e Jane Campion.

Pierre Rissient, John Ford e Claude Chabrol, Paris, 1966.

A partir dos anos 1970 Rissient continuou o trabalho de prospecção de diretores fazendo viagens a países da Ásia, onde conheceu e trouxe para exibir em festivais de cinema do Ocidente cineastas como os taiwaneses Edward Yang e Hou Hsiao-hsien, o bengalês Ritwik Ghatak, o sul-coreano Im Kwon-taek e o iraniano Abbas Kiarostami. Em paralelo à apresentação de nomes como esses para um novo público, Rissient costumava reforçar a necessidade de também se escavar o passado, de se conhecer a história pregressa do cinema, de onde se extraem importantes pontos de referência: Albert Capellani, Hanns Schwarz, Gustav Machatý, Urban Gad, Mauritz Stiller, Harry d’Abbadie d’Arrast, Lester James Peries, Mehboob Khan, Li Han-hsiang, Shin Sang-ok, Clarence G. Badger, Gregory La Cava, Joseph H. Lewis, Henry King, Henry Hathaway e John M. Stahl são alguns desses pontos, cuja descoberta ou revalorização se deu pelos esforços de Rissient. Na ausência desse conhecimento, que se dá pela busca desses pontos, a visão dos filmes pode sair prejudicada, fazendo com que, como afirma Rissient em entrevista, muitos críticos, ao invés de enxergarem os filmes “cara a cara”, submetam-se aos modismos e se perguntem o que os outros dirão se falarem bem ou mal de determinada obra.

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Integrante do “Círculo do Mac-Mahon”, reabilitador dos cineastas americanos prejudicados em suas carreiras pela ação do macartismo (Jules Dassin, Abraham Polonsky, John Berry, Cy Endfield), prospector e divulgador incansável do cinema de autor americano, europeu (Marco Ferreri, Theo Angelopoulos e Víctor Erice devem-lhe o reconhecimento antes de obterem renome internacional) e asiático, realizador dos filmes One Night Stand (1977) e Cinq et la peau (de 1982, com um relançamento em cópia restaurada previsto para acontecer nos próximos dias no Festival de Cannes), Rissient desempenhou praticamente todos os ofícios possíveis do cinema, colocando-se sempre a serviço dessa arte, muitas vezes na contramão dos modismos e jargões que tentam relegá-la a um segundo plano. O “Mister Everywhere”, como o apelidou o amigo Clint Eastwood, costumava circular pelos festivais com camisetas e bonés onde se viam estampados nomes de filmes, cineastas ou ideias de sua preferência. Numa delas, lia-se uma que se tornou célebre: “não basta gostar de um filme; é preciso gostar pelos motivos certos”.

 

Bruno Andrade e Matheus Cartaxo co-editam a Foco – Revista de Cinema.