FOCO – Cada passo que se dá é em uma poça de sangue*

FOCO – Cada passo que se dá é em uma poça de sangue*

Valeska G. Silva analisa "Gente da Sicília", de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub, e "Fúria do Desejo", de King Vidor.

Estado da Arte

07 Setembro 2018 | 17h15

por Valeska G. Silva

uma parceria com a Foco – Revista de Cinema

 

“Um dia, nascemos, um dia, morremos, no mesmo dia, no mesmo instante dão a luz do útero para o túmulo, o dia brilha por um instante, volta a escurecer.” Palavras de Pozzo em Esperando Godot, de Samuel Beckett. Hamlet: “A vida de um homem não dura mais que dizer Um.” Medeia matou seus filhos num gesto de vingança; Ruby, a Medeia de King Vidor, transformou em pântano a plantação do homem que amava, aniquilando com um gesto o sonho de duas gerações. Tragédias habitualmente se encerram com algum restabelecimento da normalidade social, mas não sem a supressão do que é mais caro à personagem, quando não da sua própria vida. Se o sofrimento vem seguido de resignação, a ruína de reestruturação e o sacrifício de expiação, para todas as formas de tragédia uma regra parece valer: partir de onde se está – como desejo ou um feito inevitável, com mudança física ou uma viagem para dentro de si – é ainda uma forma de se aprisionar no passado.

Jennifer Jones em Fúria do Desejo, 1952, de King Vidor

Gianni Buscarino em Gente da Sicília, 1999, de Danièle Huillet e Jean-Marie Straub

 

Gente da Sicília

Silvestro ocupa um dos assentos em uma cabine do vagão do trem. Talvez, por constatar que há mais lugares vagos, não tenha fechado a porta da cabine ao entrar. O passageiro à sua frente, contrariado, levanta-se para fazê-lo, indagando em seguida se Silvestro não se incomodava com o mau cheiro que exalava do corredor. Atinado, Silvestro se faz de desentendido (“Che puzza?!”), e continua: “Não há outro lugar no mundo em que eles” – fazendo referência aos dois homens que conversam em pé na janela no corredor –, “sejam mais mal vistos que na Sicília, e, no entanto, são sicilianos”.

 

Disse-me isto tudo e não fala italiano,

mas serve-se, pausado, do dialecto que, como as pedras

deste mesmo monte, é tão áspero

que vinte anos de línguas e oceanos diversos

lho não arranharam.

Cesare Pavese, Os Mares do Sul

 

“Tumbém não servia pra nada, nem sabia falar.” Com essa justificativa Sinhá Vitória consola a si e a família, que olha o papagaio de estimação no fogareiro improvisado. Comunicar-se como Seu Tomás era para a família de Fabiano tão importante quanto a fuga da escassez de água. Conversa na Sicília, obra escrita no mesmo ano de 1937 de Vidas Secas, também tem como tema a questão da fuga, da comunicação e da discriminação social.

Silvestro está de costas observando a rotina do porto e, como se estivesse se comunicando com aquele lugar, vangloria-se: “Não há queijo como o nosso!” Um vendedor de laranjas, que o observa, lhe devolve: “Mas você não é um siciliano; um siciliano nunca come pela manhã”, e continua: “Você voltou da América porque lá não se enriquece? O que importa? Pode-se estar bem sem enriquecer, e até melhor. Nem sempre é o desemprego que tira o sossego”.

Quando escreveu Conversa na Sicília, Elio Vittorini foi preso por Benito Mussolini devido ao seu conteúdo de engajamento político. Huillet e Straub conseguiram extrair das palavras de Vittorini os gestos e dos gestos a poesia. Gente da Sicília é repleto de silêncios sem pausas. Há a coragem de se manter um silêncio entre absolutamente tudo, o qual confere uma espécie de unidade às ações (dos olhares fixos às falas e às paisagens) e conserva uma forma primitiva, no melhor sentido: as palavras são encadeadas uma a uma fazendo referências a um universo diferente daquele a que observamos, e é através delas que deciframos tudo, passado e presente das personagens, e ganhamos intimidade com o que nos é mostrado. Fala-se de um mundo ideal, da consciência das personagens, das insatisfações, lembranças e enganos, ficamos a par do que elas acreditam ser verdadeiro e justo, e o ambiente reage num embate com o mundo cognoscível. Os cortes e a movimentação de câmera, muito pontuais, são fundamentais para que este choque, ou a adequação entre o que é dito, o que é visto e o que conhecemos, possa acontecer: o vagão do trem de repente se torna um precipício, a cozinha da mãe se torna um lugar absolutamente estranho – “corte o melão”, ela comanda, como se o gesto familiar pudesse talvez sanar toda estranheza, trazendo algum conforto. A paisagem que passa na frente de nossos olhos é insistente e corajosa, da forma mais despojada, sem nenhuma vontade de ser vista como paisagem– bela ou feia. Somos, muitas vezes, levados a ocupar o mesmo ponto de vista das personagens, sem, no entanto, sermos convidados a deixar de ser nós mesmos (e isso é importante). Não olhamos com os olhos das personagens, olhamos com os olhos dos cineastas, e a paisagem fala menos dela mesma que de todo o resto, pois sem receber a interferência do nosso olhar somos arremessados à reflexão, sem chance de fuga de qualquer espécie.

 

O modo como Stroheim reconstruiu toda Monte Carlo no estúdio, assim é como se deveria reconstruir tudo no romance de Kafka. Quando você não quer fazer isso, e não tem os meios para fazê-lo porque não é mais possível, histórica ou tecnicamente, então você faz justamente o oposto. E então até o ar tem que existir!

Danièle Huillet

Gente da Sicília é um anti-romance. Huillet e Straub fazem um cinema da razão e da lógica, que por isso pode parecer desinteressado em contar uma história, mas isso é um engano. O casal de cineastas franceses prescinde das metáforas, não blefa, e com isso se dedica às analogias, num jogo equilibrado entre semelhanças e diferenças, fazendo com que metafisicamente a imagem cinematográfica exista por si mesma – “ela é sua própria entidade”, não descreve nada. Para o espectador entrar nesse universo é necessário um esforço; não falo de esforço como algo simplesmente espinhoso, mas sim um ânimo com o qual não estamos acostumados frente às imagens audiovisuais.

Nada é minimalista como pode aparentar em Gente da Sicília, mas monumental: nasce de uma argila pequena para um esculpir de coisas novas no mundo.

 

Não espere pela forma antes do pensamento.

Straub

 A forma aparecerá ao mesmo tempo.

 Huillet

Fúria do Desejo

 Tudo o que tínhamos em Gente da Sicília aqui é modificado. Agora o que importa é o que a personagem vê, como ela vê, e a maneira como o mundo a vê. King Vidor quis mostrar o ponto de vista de Ruby, o que ela olha, o que ela sente, e isso é tudo. E não é tudo, porque apesar da atitude ou do pressentimento de um universo cego, onde permanecemos no centro da batalha, onde as reações humanas reinam em importância, a conjectura frontal é de que nem a personagem, e nem mesmo nós estamos preparados para participar da comunidade humana. Ambos os filmes concluem que não se deve ofender o mundo (a discriminação social torna uma moça do pântano de Braddock na Carolina do Norte na irmã de camponeses sicilianos e de retirantes da seca nordestina brasileira), algo explicitado no diálogo com o amolador ao fim de Gente da Sicília e demonstrado na sequência final de Fúria do Desejo, quando Ruby perde a última pessoa importante de sua vida no mesmo pântano em que ela se criou. Ambos são filmes políticos, porque independente do grau da tragédia, se ela culmina em resignação, reestruturação ou expiação, a separação entre o herói e a sociedade sempre é imposta, o que pressupõe um inconformismo em relação ao meio ou consigo mesmo.

Se a questão de Gente da Sicília é o resgate de um passado, em Fúria do Desejo trata-se da fuga de um passado. O passado de Silvestro está ocultado e é revelado apenas parcialmente, através de um presente que nos é apresentado como um espelho retrovisor. O passado de Ruby é contado em detalhes e justifica a sua situação enquanto capitã solitária de um barco, mas só podemos imaginar como seria esse presente, uma vez que ele não é mostrado, não mais que um olhar para o horizonte marítimo. Apesar das manobras serem diferentes, os resultados não o são, e embora a cronologia de um não seja linear como a do outro, ambos conseguem através do jogo entre passado e presente expor tudo o que precisamos saber sobre as personagens, ainda que um lide mais com a intuição do espectador e o outro com a sua disposição.  Enxergar mais com a imaginação do que com os olhos é possível, e o valor das obras é entregue assim à disposição da recepção.

É sob a água que os sons não chegam. O fundo do mar onde são jogadas as laranjas tem as mesmas águas que engolem a plantação do amante de Ruby, e como o fundo do pântano onde a vida do homem se perde, representam o inferno sem som que São Tomás de Aquino descreveu. A guerra que exila o homem, ou a separação da e pela sociedade; o fastio do irmão fanático religioso; a discriminação social no vagão do trem; a aproximação simétrica sentimental com o público, ou o afastamento; terra e água. Os elementos não são estáticos, e através de uma análise combinatória entre as diferenças das duas obras detectamos uma coerência diante do que tomamos como tradição, e que mais até do que o cinema, diz respeito à própria arte dramática.

Um dado de congruência que é importante destacar ao colocar as duas obras lado a lado: ambos os cineastas não se colocam acima do assunto, ou das personagens, ou da narrativa, ou mesmo do público.

 

Os nossos filmes deixam as pessoas completamente livres, por consequência, livres de abandonar a sala; não amarram ninguém com cordas às cadeiras, não fazem o papel de putas respeitosas, não praticam a sedução e não tratam as pessoas como porcos que pagam bilhete, mas como cidadãos.

Huillet

Eurípides, Shakespeare, Ford, Mizoguchi, Kurosawa, Vittorini, Kafka, Straub, Huillet, Graciliano, Vidor. Ah, e oh! Ih! Uh! Eh!

 

* O título escolhido para este texto é uma frase de Jean-Marie Straub sobre o preço pago pelo progresso que está por trás da aparência do mundo.

 

Valeska G. Silva é crítica de cinema e editora da Foco – Revista de Cinema.