Felipe Cohen: do modernismo brasileiro à pintura italiana – Parte 1

Felipe Cohen: do modernismo brasileiro à pintura italiana – Parte 1

Estado da Arte

14 Dezembro 2016 | 09h30

Na Primeira das três Partes de seu ensaio sobre a exposição Ocidente de Felipe Cohen, o psicanalista e doutor em filosofia Alberto Rocha Barros explora as influências do cânone pictórico na estética de nosso tempo.     

A arte contemporânea vive um momento singular de sua trajetória? Duas tendências sugerem que sim. Primeiro, o rompimento com o passado, sobretudo com os mestres canônicos da tradição, fez com que a arte clássica, medieval ou renascentista, deixasse de ser referência ou inspiração aos artistas. Além disso, a busca pelo “belo” não é mais o elemento norteador para muitos artistas visuais: mais urgentes são batalhas conceituais, pautas sócio-políticas ou o estímulo de efeitos específicos no espectador. Nelas mesmas, essas tendências não merecem aplauso ou repúdio, pois assim como nunca teríamos aprendido apreciar formas artísticas variadas sem as vanguardas, é inegável que o coro “abaixo o cânone!”, quando em uníssono, é empobrecedor.

Alguns pintores paulistas contemporâneos têm navegado bem as turbulentas águas em que inovação e tradição se encontram. Dentre eles, figura Felipe Cohen, cuja exposição, “Ocidente”, está  em cartaz na Galeria Millan até o dia 20 de dezembro deste ano.

Preciso alertar o leitor que sou amigo íntimo de Felipe Cohen, acompanhando seu trabalho há anos, o que delimita meu texto a um ensaio de associações e impressões pessoais sem maiores juízos críticos. O que vou propor aqui é um “passeio” dividido em três partes pela exposição de Cohen, assinalando três temas que considero caros a seus esforços:  o vínculo com a tradição canônica, a dívida de todo artista com o Belo e o legado do modernismo brasileiro. A exposição “Ocidente” corporifica algumas de suas tentativas de pensar esses problemas artisticamente.

 

A Tradição do Cânone

Em 1948, o pintor americano Willem de Kooning deu uma aula inaugural no Black Mountain College que tinha por tema “Cézanne e as cores de Veronese”. A reação da plateia é descrita no magistral De Kooning: An American Master (Stevens e Swan): os espectadores, tomados por um espírito de “abaixo os museus!”, como descreve uma das testemunhas, ficaram perplexos. As coisas só pioraram quando de Kooning organizou um curso inteiro em torno da recriação de uma única e solitária natureza morta de composição detalhista e clássica. Ele estava, é claro, insistindo tanto na importância do domínio da técnica quanto na importância da história da arte. Graças aos caprichos do acaso, as cores de Veronese foram reativadas por Cézanne e revividas por de Kooning. Do século XVI ao século XX, de Veneza ao Novo Mundo. Valeria a pena desdenhar de tal linhagem?

A primeira peça que vemos na exposição de Felipe Cohen (todas pinturas em madeira) é a seguinte:

“Sem Título”, Felipe Cohen, 2016.

O quadro sublinha, visualmente, o título da exposição. Cohen associa “Ocidente” a duas ideias: poente e morte. E é sobre a morte que trata esse quadro, tendo por inspiração a sepultura aberta que aparece em várias pinturas a respeito da ressureição de Cristo durante o período medieval e renascentista, como nesta de Fra Angélico, utilizada por Cohen como modelo:

“A Ressurreição de Cristo e as Mulheres na Tumba” (1440-41)

Cohen preserva e até aprofunda a ilusão de “vazio” do túmulo, mas drena o quadro de suas cores e personagens, criando uma atmosfera modernizante que remete àquelas paisagens ermas e severamente geométricas de outro pintor italiano, Giorgio de Chirico. Ou às composições estilizadas de Giorgio Morandi. É um quadro extremamente minimalista, o que convida o expectador à reflexão.

Tendo a morte por tema, a opção não é descabida e, ao reduzir o Fra Angélico ao essencial – o túmulo vazio do Cristo renascido –, Cohen alude também a uma de suas obsessões visuais: o interesse recorrente pelos “fundos de quadro”, algo muito presente em toda a exposição, e que acaba por dominar essa tela. Afinal, não sobra nela outra coisa a não ser túmulo e fundo.

“Ocidente” para Cohen também remete a pôr-do-sol, e a sepultura que vemos em suas pinturas é inspirada na tópica da ressureição. O sol mergulha no horizonte para renascer; Cristo morre para reviver. Logo, trata-se de uma morte impregnada da esperança de um retorno glorioso. A hora mais escura da densa noite é vencida pelos magníficos raios púrpuros e rosáceos da aurora. Se a cor foi tragada do quadro e nada de humano está presente, é porque esses elementos precisam ser completados pelo expectador, num gesto de transcendência – uma palavra que se aplica aqui em função de outra característica formal da peça de Cohen. Ela é composta por triângulos colados sobre uma superfície, preservando o tom natural da madeira: ela tremula e cintila com a incidência da luz natural (solar), recriando de maneira análoga, embora mais contida, os efeitos reflexivos das folhas-de-ouro usadas nos fundos de certas pinturas medievais e que representavam a natureza mística e transcendente de Cristo.

Acredito que a relação tênue entre representação e abstração seja uma das características visuais no cerne dos trabalhos de Cohen: tudo sempre está em um esforço por configurar a imagem nítida de algo do plano do real, mas logo desmancha-se em jogos lineares e geométricos. Podemos ver isso nitidamente em um trabalho que aprecio como o par natural da sepultura. Agora “Ocidente” não remete mais ao par “morte/ressureição”, mas à díade “poente/aurora”. Trata-se da escultura intitulada “Ocaso”.

“Ocaso #3”, Felipe Cohen, 2016.

O que vemos é um sol se pondo no mar. Há um reflexo na água, criado por um jogo natural de luz e sombra. Novamente, as cores e tonalidades são brandas e contidas, e o espaço narrativo é límpido e abstrato. Não é um sol fulgurante e reluzente, mas uma criação geométrica.

As duas peças que considero mais representativas do título e do tema da exposição estão ambas ancoradas numa tradição imagético-metafísica longeva. Sobrevive no nosso meio artístico paulista, não apenas em Felipe Cohen, como também em muitos outros, uma forma de criar artisticamente onde a arte presente tem como interlocutor primeiro e principal, a arte do passado.

(*Não perca amanhã, dia 15, a segunda parte deste ensaio.)

Alberto Rocha Barros é bacharel e doutor em Filosofia pela USP e psicanalista membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

Leia no Grande Teatro do Mundo o ensaio de Leonardo da Vinci sobre “A composição na Pintura”.