Falando de Música – Misérias cariocas II

Falando de Música – Misérias cariocas II

Estado da Arte

11 Março 2017 | 12h41

Por Leandro Oliveira

A coluna “Falando de música” do Estado da Arte teve dois grandes momentos de reverberação ao longo destes quatro meses de operação. Um deles foi o post sobre a história da interpretação dos concertos para piano de Beethoven, à ocasião da performance da integral realizada pela Osesp e o pianista Paul Lewis.

O outro grande sucesso, por assim dizer, foi a publicação do artigo “Falando de Música – Misérias cariocas”, de 2 de março último. Pela quantidade de compartilhamentos no site e nas mídias sociais e a quantidade e qualidade de e-mails que chegaram à minha caixa postal, do Brasil e de fora do país, posso me permitir a fantasia de que o artigo foi de algum modo importante para a recente reviravolta na triste fábula carioca.

Pois o secretário Lazaroni decidiu, já no dia 07 de março, exonerar o ator Milton Gonçalves de seu cargo na presidência. Embora a nota oficial para o recuo tenha invocado suas próprias e independentes razões, restou evidente que a ira da comunidade musical foi “aplacada” com a nomeação de André Heller-Lopes, um nome do ramo, para o cargo de Diretor Artístico do Theatro.

Se foi dispensada, porém, no caso do Theatro Municipal, a defesa do indefensável, o contrário parece ter sido bravamente assumido pela outra parte citada. O Instituto Brasileiro de Museus emitiu nesta quinta-feira dia 09 de março uma nota de esclarecimento sobre seleção para diretor do Museu Villa-Lobos.

Como esperado, as inconsistências no currículo declarado pela candidata na Plataforma Lattes não são comentadas, salvo no caso de uma dissertação que, não existindo na instituição em que teria sido defendida, foi aparecer justo no Centro Nacional de Estudos e Documentação da Museologia em Brasília.

Infelizmente, no entanto, o mérito da questão levantada sobre a composição da comissão de seleção é subvertido na nota: o fato de nenhum de seus integrantes possuir a mais leve experiência profissional no campo da música é apresentado positivamente, como aquilo que teria levado a “uma avaliação mais equânime” – non sequitur evidente, posto que não é jamais a formação e área de atuação de seus integrantes o que determina a retidão de um processo.

Mas deixa estar: se os dois episódios comentados em “Misérias cariocas” serviram para colocar em discussão a forma como a tradição clássica e o legado de Villa-Lobos têm sido cuidados nos espaços que mais deveriam prezar por eles, o trabalho foi feito. Casos concretos, quando comentados desde um ponto de vista cultural mais amplo, trazem lições para além do aqui e agora.

***

Fachada do Museu Villa-Lobos, no Botafogo, Rio de Janeiro

Fachada do Museu Villa-Lobos, no Botafogo, Rio de Janeiro

Uma outra referência do artigo, tangencial, passageira, suscitou resposta do senhor Marcelo Ramalho. Ramalho contatou este colunista para prestar  esclarecimentos sobre a programação do Festival Villa-Lobos, do qual é diretor artístico.

“Tudo começou quando, em 2009, já prevendo sua aposentadoria, o violonista Turíbio Santos – que dirigiu o Museu Villa-Lobos por 24 anos –, procurou a produtora Andrea Alves, da Sarau Agência de Cultura, com o intuito de garantir a sobrevivência do Festival. Coincidentemente, a produtora tinha, naquela época, o desejo de produzir um evento anual que privilegiasse prioritariamente a música instrumental popular brasileira. Ao receber convite do diretor do Museu para captar recursos e produzir o FVL, [Andrea] decidiu aceitá-lo com a condição de juntar ambas propostas num único evento”.

Até aqui, estamos de acordo: acrescenta apenas a informação de que a mudança de perfil foi uma atitude consciente e deliberada já da gestão anterior aquela de Wagner Tiso. Porém para além de referendar o que foi aqui sugerido, Ramalho afirma que a guinada em direção à música instrumental popular brasileira teria possibilitado “um aporte de recursos jamais visto pela instituição”. Argumenta ainda que tal aporte garantiu a viabilização de uma parte da programação mais efetivamente voltada a Villa-Lobos.

Infelizmente, não é o que parece, pois segundo referências de um site público, em muitas ocasiões foi o Museu Villa-Lobos que bancou a MPB, e não o contrário. Ao que pudemos averiguar, a V. HUGO CECATTO – ME, cuja contratação pelo Museu se viu dispensada de licitação, é a produtora dos artistas Dory, Nana e Danilo Caymmi; sob mesmos procedimentos se dá a contratação da VERMELHA PRODUÇÕES ARTÍSTICAS LTDA – ME do extraordinário Francis Hime e da BRASILIANOS PRODUÇÕES LTDA – ME, do queridíssimo Hamilton de Holanda. E assim em outros casos da mesma página.

São todos amigos pessoais, mas não por isso vale menos a ressalva: evidentemente não é do contratado a responsabilidade pela forma jurídica de contratação. Mas ressalte-se que é o Museu que os paga, não uma produtora independente.

Triste discordar de Ramalho quando diz que o Festival Villa-Lobos sobreviveria apenas com uma profunda mudança de seu tipo de programação. É uma justificativa sem qualquer medida da bizarra estratégia que acabou por ter para divulgar e preservar a memória de nosso maior compositor: simplesmente fazendo-o menos relevante.

Por fim, Ramalho pretende justificar a substituição de concertos por shows de música popular na “participação bissexta de grupos orquestrais cariocas que, no passado, tanto contribuíram com o evento e que, há tempos, não mantêm o mesmo interesse de antes”. Para além do aparente impressionismo de suas opiniões – gostaria de saber nomes e motivos pelos quais grupos orquestrais se negariam a participar do festival do amado Villa -, resta dizer: bem vindo, caro senhor, ao mundo como ele é. Pois a tarefa e desafio de todo administrador, gestor ou curador de música clássica, no Brasil e no mundo é, pois não, o de criar de modo inventivo as melhores condições de contratar e entregar um produto de boa qualidade artística. Quando acrescenta o “crescente desinteresse do público e da mídia cariocas em relação à música de concerto”, chegamos às raias da obtusidade.

Culpar a arte, o público e os canais de comunicação, sinceramente, não é coisa de profissionais do ramo. A equação “qualidade-impacto” é hoje parte do be-a-bá de toda cartilha de gestão pública e cultural. Se parece estranha ao curador do Festival Villa-Lobos, talvez nos faça entender toda a sua atual decadência.

Leandro Oliveira é compositor e regente de orquestra, anfitrião do projeto “Falando de Música” da Osesp, e doutorando em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Mackenzie