Falando de música – “O ruído do tempo” de Julian Barnes

Falando de música – “O ruído do tempo” de Julian Barnes

Estado da Arte

27 Abril 2017 | 02h35

Por Leandro Oliveira

Nas páginas finais de seu mais recente livro, Julian Barnes comenta que “entre as pessoas que me ajudaram neste livro, Elizabeth Wilson foi de fundamental importância. (…) Mas este é o meu livro, não o dela; e se você não gostou do meu, então leia o dela.”

“O Ruído do Tempo” foi traduzido para o português no mesmo ano de seu lançamento internacional. Saudado como “a obra-prima de Julian Barnes”, o livro toma por protagonista o compositor Dmitri Shostakovich, certamente um dos mais relevantes criadores do século XX. Além de seu imenso catálogo musical, Shostakovich notabiliza-se na história da música pelo pano de fundo político a partir do qual compõe – trata-se de um dos mais ativos agentes culturais da União Soviética, alguém que convive sob os radares não apenas dos burocratas do regime mas do próprio Stalin.

Como não poderia deixar de ser, é este pano de fundo tenso o elemento central da narrativa de Barnes. É ele que permite ao autor descrever não apenas algumas referências kafkaescas do universo e cultura do lado de lá da cortina de ferro, como compartilhar parte do anedotário acerca do compositor e suas agruras pessoais e públicas.

Mas o comentário que encerra o livro é, neste sentido, significativo. Explicita a seu modo o eventual mal-estar que se pode ter ao longo de toda a leitura: afinal, Elizabeth Wilson é autora de “Shostakovich: a Life Remembered” (1995, edição revista em 2006). E eis o mal-estar: estamos a lidar com uma biografia ou uma ficção biográfica? Nenhum ou ambos, pode ser a resposta mais desagradável.

Dmitri Dmitriyevich Shostakovich

Os limites entre os gêneros acabam por ser discussão para especialistas, mas deve-se ressaltar que mesmo para o leitor leigo há de ficar evidente que os solilóquios do autor, suas reflexões íntimas ou mesmo a parte mais detalhada de seu convívio familiar – coerente, talvez realista, mas não necessariamente documentado – compõem parte do elemento criativo da trama e da composição do romance.

Abundam muitas outras referências, e estas são históricas. O que de algum modo impressiona é que o personagem histórico que hoje traçamos de Shostakovich é infinitamente mais interessante que aquele inventado por Barnes. O narrador de “O Ruído do Tempo” não reconhece a complexidade psicológica de seu personagem e, assumindo-o como mero cordeiro para imolação em um sistema inequivocamente perverso, não nos permite entender os termos mais sofisticados com os quais modernamente se discute vida e obra do compositor.

A musicologia hoje sabe menos de Shostakovich que seus prosélitos. O caso é que Wilson acaba por ser, ao lado Isaak Glikman e Solomon Volkov (outras referências de Barnes), o responsável pela visão mais recorrente – e não necessariamente a mais complexa – da personalidade de Shostakovich. Respeitando suas fontes, o compositor é para Julian Barnes um mártir. E como um mártir da música é tratado ao longo de todo o texto de “O Ruído do Tempo”.

Como o livro fica deliberadamente entre a narrativa histórica e reflexões pessoais fictícias, devemos lê-lo com cuidado; este é um jogo inteligente que pode acabar muito mal (usando as palavras do editorial do Pravda que condena o compositor em 1936). E para quem pode acabar mal? Para a própria recepção do compositor.

Sugiro que leiamos “O Ruído do Tempo” com o mesmo cuidado com que vemos “Amadeus” de Milos Forman (ou a peça homônima que lhe dá origem, de Peter Schaffer). Não podemos deixar de imaginar que haja uma influência destas obras ficcionais na nossa compreensão de quem são e como agiram os grandes artistas que ouvimos.

Mozart é tratado como o sujeito absurdo e  em uma trama de inveja e paixão de um mundo inteligente e real demais. Shostakovich era um sujeito inteligente e real demais preso em um universo absurdo que poucos ficcionistas poderiam ter imaginado. Mas não necessariamente era um santo. Talvez possamos encontrar em “O Ruído do Tempo” as mesmas qualidades explicitadas por Richard Taruskin quando da discussão de parte da fortuna crítica que Barnes tem por referência:

“O esforço para resolver todas as contradições e eliminar todas as ambiguidades inevitavelmente produz inconsistências e contradições próprias. E o preço da certeza é sempre redução – redução não apenas no significado, mas no interesse e valor. (…) Cristaliza num microcosmo as dificuldades e o fascínio que sempre assombraram a experiência das obras musicais de Shostakovich – músicas cujos textos são vastamente problemáticos em si e em nossa relação com eles.”

O grande romance sobre o homem Dmitri Shostakovich ainda está por ser escrito. E não o encontraremos em Julian Barnes ou em Elizabeth Wilson.

Leandro Oliveira é compositor e regente de orquestra, e anfitrião do projeto “Falando de Música” da Osesp