Falando de Música: o “problema Bruckner”

Falando de Música: o “problema Bruckner”

A OSESP toca Bruckner, e Leandro Oliveira analisa o compositor no "Falando de Música".

Estado da Arte

29 Novembro 2018 | 15h41

por Leandro Oliveira

Mesmo levando em consideração que o pequeno artigo “O problema Bruckner simplificado”, de Deryck Cooke (1975), tenha se desdobrado em quarenta anos de análises, refutações e críticas, o fato é que a publicação segue sendo o escrito mais acessível sobre a barafunda da catalogação das “Sinfonias” de Anton Bruckner (1824 – 1896).  E claro, a barafunda complica a organização da discoteca de todo ouvinte dedicado. Agora, aproveitando o final de semana em que a Osesp apresenta a “Sétima Sinfonia” do compositor austríaco, talvez seja relevante resgatar o artigo e com ele um pequeno resumo do que a musicologia gosta de chamar de “O Problema Bruckner”.

Segundo Cooke, poderíamos organizar as “Sinfonias” de Bruckner em ordem cronológica do seguinte modo: N. 1 (1866), N. 2 (1872), N. 3 (1877), N. 4 (1880), N. 5 (1876), N. 6 (1881), N. 7 (1883), N. 8 (1887) e N. 9 (inacabada em 1896). Este seria o quadro caso Bruckner “possuísse a auto-confiança normal de grandes compositores (…) como Beethoven ou Dvorak”. Mas ainda em vida, o compositor foi convencido por amigos a revisar muitas de suas composições – Johann Herbeck depois da estréia da N. 2 (já para segunda performance em 1876), Joseph Schalk e Ferdinando Löwe a de N. 7 (em 1883), Hermann Levi a de N. 8 (em 1886). O mesmo Bruckner começou por conta própria maiores ou menores ajustes nas Sinfonias N. 4 (em 1886), Ns. 1 e 3 (entre 1888 e 1891).

Ainda mais grave: algumas alterações foram realizadas nas primeiras edições, muitas delas provavelmente realizadas pelos editores ou a partir da revisão de intérpretes da época, sem a necessária permissão do compositor. Assim, em 1890, a N. 4 é publicada com cortes e alterações na instrumentação e indicações de andamento — o mesmo destino da N. 5, em 1896 e, desde então, com a morte do compositor, em praticamente todas as outras Sinfonias do compositor. Assim, em 1903, existiam nada menos que 25 diferentes versões das nove Sinfonias, e as dez publicações editadas não representavam as intenções originais de Bruckner:

N. 1 – completada em 1866, recomposta por Bruckner 1890-1; 1a edição (espúria) de 1893.

N. 2 – completada em 1872, revisada em 1876; 1a edição espúria em 1878.

N. 3 – completada em 1877; 1a edição espúria em 1878; recomposta em 1888-9; 1a edição espúria em 1890.

N. 4 – completada em 1880, revisada em 1886; 1a edição espúria em 1890.

N. 5 – completada em 1876, nunca revisada; 1a edição espúria em 1896.

N. 6 – completada em 1881, nunca revisada; 1a edição espúria em 1899

N. 7 – completada em 1883, orquestração revisada em 1883, 1a edição espúria em 1885.

N. 8 – completada em 1887, revisada em 1888-90; 1a edição espúria em 1892.

N. 9 – incompleta em 1896, com a morte do compositor; 1a edição espúria em 1903.

Como bem sugere Cooke, foi para retificar esta celeuma que a International Bruckner Society foi fundada em 1927 e acabou por apresentar, entre 1934 e 1950, nove publicações – editadas pelo musicólogo Robert Haas a partir da primeira versão original (com uma curiosa organização da Sinfonia N. 8, com trechos da original e sua revisão). Restariam agora, 26 versões das Sinfonias – com o evidente avanço de termos uma publicação revisada do texto original.

Em 1945, por conta de sua associação com o nazismo, Haas foi deposto. Seu substituto, Leopold Nowak, trouxe à luz entre 1951 e 1973 uma nova coleção para as Sinfonias. Com retoques nas de Ns. 2, 3, 4, 7 e 8, além da versão original oitava; além disso, sua coleção continha pequenas divergências daquela de seu antecessor, Haas, nas Sinfonias de N. 1, 5, 6 e 9 (o que, na prática, fazem delas novas edições).

O resultado são 34 partituras diferentes! Como resume Cooke, “o ‘Problema Bruckner’ tornou-se um enorme purgatório para o músico não-especialista ou para o melômano que simplesmente quer desfrutar suas sinfonias de Bruckner. E isto se torna assim apenas por que, realmente, é um paraíso para os scholars dedicados ao compositor, que podem deleitar-se com as muitas versões para comparar, contrastar e classificar”.

Cooke propõe uma solução para simplificação destas tantas versões: desconsiderar algumas entre as primeiras edições publicadas em vida. Por outro lado, Benjamin Korstvedt, em recente publicação na Journal of Musicological Research, analisa a questão por outro ângulo: há um pouco do fetiche da “versão original” em toda esta controvérsia, algo típico da nossa atual postura frente a música clássica e que, talvez possa ser melhor matizado.

A preocupação com o “problema de Bruckner” foi um dos elementos mais importantes na recepção acadêmica e popular das sinfonias de Bruckner na segunda metade do século XX. A posição convencional de aceitar apenas as “versões originais” publicadas pelos editores modernos, descartava como corruptas as versões publicadas durante a vida do compositor. Essa visão das versões de Bruckner foi forjada por estudiosos de língua alemã na década de 1930 e cultivada por acadêmicos e críticos de língua inglesa no pós-guerra. Até agora, o processo crucial pelo qual essa visão veio a ser adotada foi amplamente ignorado, mas merece ser examinado para mostrar como ela moldou a apreciação das sinfonias de Bruckner (…).

De fato, este processo merece uma investigação. Mas por ora, resta saber ainda que, além destas 34 edições, há duas Sinfonias – as de N. 0 e outra, dita N. 00 – ainda não computadas nesta celeuma, e que têm, elas também, sua história. Mas isso é melhor deixar para outra ocasião.

A Sinfonia N. 7 de Anton Bruckner será apresentada pela Osesp sob a regência de Giancarlo Guerrero nos dias 29, 30 de novembro e 01 de dezembro, na Sala São Paulo. Em qual versão? Para saber isso, você precisa vir ao Falando de Música, uma hora antes do concerto – às 19h30 na quinta e na sexta, e às 15h30 no sábado.

Leandro Oliveira é compositor e regente de orquestra, e anfitrião do projeto “Falando de Música” da Osesp