Falando de Música – Notas sobre o folk

Falando de Música – Notas sobre o folk

Estado da Arte

08 Dezembro 2016 | 10h24

Por Leandro Oliveira

No calor de um artigo sobre as formas das canções do folk, me perguntam sobre o gênero. O que é ele exatamente? É questão técnica. O historiador Richard Taruskin sugere uma taxonomia curiosa quando argumenta sobre a história da música ocidental. Em seu percurso, afirma ter passado menos por estilos diversos como o “clássico” ou o “romântico”, mas por estágios, ou modos de elaboração distintos. Produzida e difundida primeiramente através de práticas orais, há cerca de oitocentos anos a música passa a ser escrita, o que a dá pela primeira vez um tipo de realidade física independente das pessoas que a fazem ou repetem, podendo sobreviver para aqueles que a lembram, ser produzida silenciosamente e transmitida de um compositor a um intérprete, alterando assim sensivelmente a cadeia criativa. Um outro estágio é aquele da imprensa, que no Ocidente remonta quinhentos anos e que faz a reprodução se tornar barata e fácil, dando ao artefato musical a disponibilidade de ser mais importante que seus intérpretes. Um quarto e último estágio foi a gravação.

No século XVIII, escravos negr... afro-americanos, dançam ao som do banjo. (Fonte: Wikicommons)

No século XVIII, escravos negr… afro-americanos, dançam ao som do banjo (Fonte: Wikicommons).

Mais que apoio a uma brevíssima história da música, no entanto, a tecnologia de comunicação atuaria de forma concreta na distinção dos gêneros. O musicólogo Cecil Sharp (1859-1924) sugere em 1907 uma definição para a música folk onde assume como critério básico a oralidade como sua premissa fundamental. A definição “oficial” do International Folk Music Council (IFMC) ainda em 1954, largamente aceita com pequenas nuances até hoje, e baseada nas concepções de Sharp, e diz:

A música folclórica é o produto de uma tradição musical que se desenvolveu através do processo de transmissão oral. Os fatores que moldam a tradição são: (i) continuidade que liga o presente ao passado; (ii) variação que brota do impulso criativo do indivíduo ou do grupo; e (iii) a seleção pela comunidade, que determina a forma ou as formas em que a música sobrevive… O termo pode ser aplicado à música que foi evoluída de começos rudimentares por uma comunidade não influenciada pela música popular e de arte e pode igualmente ser aplicada à música que se originou com um compositor individual e foi subsequentemente absorvida na tradição viva não escrita de uma comunidade… O termo não cobre a música popular composta por uma comunidade a partir de “ready-made”, permanecendo inalterada, pois é a reelaboração e a recriação da música pela comunidade que lhe dá seu caráter folk.

Embora a suficiência da transmissão oral siga sendo questionada nos meios etnomusicológicos, o fato é que sua influência e relevância para caracterização do gênero folk não pode ser superestimada. A definição atenta às relações dinâmicas da tradição viva (“a reelaboração e a recriação da música pela comunidade”) prevê ainda outras distinções importantes, sobretudo quanto à música popular – entendida mais pelas suas características não essenciais (os procedimentos criativos, explícitos no termo “ready-made”, ou sua virtual perenidade, em “inalterada”) do que de fato na sua condição mais idiossincrática, aquela do suporte em outra tecnologia de comunicação que é a gravação.

Para os termos do presente argumento, basta apontar que a definição oficial de música folclórica encontra força exatamente pela descrição da sua absorção e preservação em termos orais – mnemônica, performática. E assim o é por puro contraste com a “tradição escrita”, aquela que faz reconhecermos o gênero da música clássica. Assim, não escapará jamais dos debates o fato de que a tradição oral cultiva determinada sócio-dinâmica objetiva embora, curiosamente, falte por vezes a visão para a qual contribui o presente estudo – de que a tradição folclórica está calcada não só em uma sócio-dinâmica mas sobretudo em uma psicodinâmica específica. Sua distinção para com a música clássica é fundamentalmente essa: sua eventual atualidade com a tensão de seu suporte e perpetuação.

Leandro Oliveira é compositor, maestro, anfitrião do projeto “Falando de Música” da Osesp, e doutorando em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Mackenzie.