Falando de Música – notas breves, e outras notas

Falando de Música – notas breves, e outras notas

Estado da Arte

27 Julho 2017 | 16h02

Entre os dias 14 e 24 a coluna “Falando de Música” acompanhou eventos musicais fora do centro nervoso paulistano.

Pela oportunidade dos 130 anos de Villa-Lobos, a Academia Brasileira de Música realizou o concerto comemorativo da semana Brasilianas, no dia 15 de julho passado. À ocasião, a Medalha Villa-Lobos foi entregue ao professor e fagotista Noel Devos. O programa no Theatro Municipal do Rio de Janeiro contava exclusivamente com obras do nosso compositor maior, e a presença de Nelson Freire e a Orquestra Sinfônica da UFRJ, dirigida pelo maestro Roberto Tibiriça.

Freire, sempre grande, ocupou a primeira parte. A surpresa positiva foi da orquestra da Escola de Música da UFRJ que mostrou qualidades inesperadas – tanto na sonoridade quanto em alguns valores individuais como ficou claro na apresentação do tema para saxofone, na “Bachianas Brasileiras 2”.

Algum virtuosismo no conjunto do naipe das cordas talvez seja o que ainda não permita a inserção da formação na plêiade de apresentações regulares das séries sinfônicas profissionais da combalida cidade maravilhosa. Mas acredito que o trabalho devido para tal ajuste é menos doloroso do que eventualmente pode parecer e a orquestra pode muito bem unir forças às demais formações da cidade.

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Falei de virtuosismo nas cordas – e virtuosismo em geral é o que não falta à Filarmônica de Minas Gerais que, no último dia 21 de julho, na sempre impressionante Sala Minas Gerais, apresentou um programa com obras de Ronaldo Miranda (“Horizontes”, obra de 1992), Chopin (Concerto op. 11, com Leonardo Hilsdorf como solista) e Berlioz (Sinfonia Fantástica, op. 14).

Foi, também ali, uma celebração entre grande músicos clássicos brasileiros. ‘Horizontes’ é uma obra com grande capacidade descritiva que muito oportunamente sobrevive nas salas de concerto brasileiras. Algum estudo há de ser feito para referendar uma impressão, a de reconhecê-la na tradição dos extraordinários poemas sinfônicos de Francisco Braga…

O concerto em mi menor de Chopin, por sua vez, foi sensivelmente defendido por Leonardo Hilsdorf, paulistano residente na Europa, e que a cada nova apresentação demonstra-se um artista mais consciente de seus dotes pianísticos e recursos expressivos. De bis, Leonardo tocou o primeiro movimento da “Sonata ao Luar” de Beethoven (e me fez curioso para ouvir mais do gênio de Bonn nas mãos do jovem pianista).

A regência sempre precisa do maestro Fabio Mechetti encontrou em Berlioz, inequivocamente, seu maior grau de expressividade; faltou talvez, para meu gosto, alguma flexibilidade rítmica. Mas a exuberância de sonoridades da orquestra honrou com uma justa performance a obra maior do revolucionário compositor francês.

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E foi em Inhotim a maior emoção musical da viagem. Pois ali temos a oportunidade de ouvir e ver o impressionante e poderoso “I am not me, the horse is not mine” do sul-africano William Kentridge – oito vídeos com animações, imagens históricas e transcrição de depoimentos, em um sofisticado mosaico a reunir referências das vanguardas artísticas soviéticas, da história política do entre guerras na Russia, ou os julgamentos de Moscou: tudo alinhavado a partir de “O Nariz”, a novela de Gogol que serve de matéria-prima para ópera homônima do compositor Dimitri Shostakovich.

Detalhe de “I am not me, the horse is not mine” de William Kentridge

A obra é um assombro de diversão e pertinência deste que talvez seja – para dizer o mínimo – o mais consequente artista africano de nossa época.

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De volta a São Paulo, preparamo-nos para a Osesp que, sob a regência com Giancarlo Guerrero, fecha a Festival de Campos do Jordão com um programa desafiador.

Na primeira parte do programa, a premiadíssima “Contos de Hemingway” do compositor norte-americano Michael Daugherty conta com o violoncelista Zuill Bailey como solista. A gravação com a obra, sob a regência de Guerrero e com a presença de Bailey, recebeu neste ano de 2017 três Grammy: “Best Classical Compendium”, “Best Contemporary Classical Composition” e “Best Classical Instrumental Solo”.

Além dos “Contos”, a Osesp apresentará a Sinfonia nº 4 Op. 36 de Piotr Ilitch Tchaikovsy. Algumas observações a respeito da obra podem ser ouvidas no pequeno vídeo do programa Minuto Osesp, abaixo.

https://www.youtube.com/watch?v=yI6OEejQ2-g

Os concertos acontecem dias 27, 28 e 30 de julho na Sala São Paulo e dia 29 de julho no Auditório Claudio Santoro. Uma hora antes dos eventos na capital paulista, no Falando de Música, o compositor estará com o público para comentários sobre sua obra.

Leandro Oliveira é compositor e regente de orquestra, doutorando em “Educação, Arte e História da Cultura” pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e anfitrião do projeto “Falando de Música” da Osesp.