Falando de Música: A semana na Osesp e um papo com Bela Pulfer

Falando de Música: A semana na Osesp e um papo com Bela Pulfer

São Paulo tem obras de Wagner, Brahms e Bártok na agenda da semana e programa novo para difundir a música clássica.

Estado da Arte

06 de junho de 2019 | 08h00

por Leandro Oliveira

Dirigido pelo romeno Cristian Măcelaru, a Orquestra Sinfônica do estado de São Paulo apresenta neste final de semana obras de Wagner, Brahms e Bártok – um programa em muitos termos ortodoxos, com obras do grande repertório, desenhado para agradar qualquer amante da música clássica. O Terceiro Concerto, de Béla Bartók, será defendido por Simon Trpčeski, logo após o Prelúdio, da ópera Parsifal, antecedendo a Segunda Sinfonia, de Johannes Brahms.

Sobre Wagner e Brahms, o leitor há de conhecer algumas boas histórias. A disputa em que ambos se envolvem, sobre a primazia da música alemã, são de vasta literatura e não pequenos elementos de crônica. Minha passagem preferida diz respeito a uma das poucas trocas de palavras que tiveram. Brahms tinha 58 anos e Wagner era exatamente 20 anos mais velho.

A história começa mais de dez anos antes, quando o pianista Carl Tausig, conhecendo o fascínio de Brahms por documentos autografados, deu como um presente pessoal ao compositor o manuscrito da música de Venusberg, da ópera Tannhäuser – uma partitura autografada que Wagner adaptara para uma performance em Paris. Agora, após a morte de Tausig, Wagner exigiu a Brahms devolução dos manuscritos. “Foi, sem dúvida, em erro de Tausig declarar que a partitura era de sua propriedade”, escreveu Wagner em uma carta severa para Brahms. “Presumivelmente, é absolutamente desnecessário para mim lembrar-lhes dessas circunstâncias, e nenhuma discussão adicional será necessária para induzi-lo a ser bom e gentil a ponto de devolver este manuscrito, que você só pode valorizar como curiosidade, enquanto meu filho pode preservá-lo como uma verdadeira lembrança”.

Brahms respondeu, com não menos diplomacia e severidade: “Dado o grande número de seus trabalhos, a posse dessa cena dificilmente pode ser tão valiosa para o seu filho quanto para mim, que, sem ser na verdade um colecionador, gosta de ter autógrafos das músicas que valorizo. Não coleciono ‘curiosidades’”. Brahms considera a devolução, claro, não sem antes argumentar que “retirar de minha coleção tal tesouro” seria justificado caso lhe houvesse algo em troca. “Me agradaria muito se você enriquecesse minha biblioteca com algo mais seu, como o Meistersinger”.

O resultado? Uma primeira edição de Rheingold com estampa dourada, e uma inscrição: “A Herr Johannes Brahms, substituto bem condicionado de um manuscrito desleixado.” E a participação de Wagner, junto com Cosima, da estreia do terceiro quarteto de piano de Brahms no Musikverein – um esforço de reconciliação sobre a disputa entre os dois soberanos da música de seu tempo.

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Nas semana que passou, esta coluna falou com Bela Pulfer, radialista e ex-assessora artística da Osesp. Há cerca de um mês, Bela lançou um website com conteúdo transmitido em diferentes plataformas digitais  – como YouTube e Spotify – para falar de maneira leve e descomplicada sobre música clássica.

Com objetivo de atrair novos públicos, ela realiza uma produção onde temas como Os signos dos grandes nomes da música erudita, Regras para assistir a um concerto e aproveitar o máximo possível ou Obras sinfônicas para não gritar Bravo! logo no final juntam-se a agenda resumida com os destaques das atrações semanais de São Paulo. Para o Estado da Arte, ela teve o seguinte papo.

Como tem sido a resposta ao projeto?

Muito positiva! O que me deixa entusiasmada porque há demanda de conteúdo de música clássica nesse formato, ou seja, em plataformas digitais e de uma maneira menos formal. Os comentários nos vídeos e o retorno em geral tem me animada bastante a seguir com a proposta.

Como você estruturou a pauta?

São dois vídeos semanais, aos domingos pautas variadas, como por exemplo, indicações de gravações de Mozart, terceira fase de Beethoven e até brincadeiras com os signos de grandes compositores. Aqui também há um espaço para sugestões e eventuais dúvidas do público. E às quintas, a agenda de São Paulo, principais concertos que acontecem por aqui, que não fica nada atrás das atrações de qualquer grande cidade no mundo. E também é a chance de  dar espaço e prestígio para os nosso grupos sinfônicos ou de câmara que cortam um dobrado para se manterem ativos. Importante lembrar que os vídeos são sempre vinculados com playlists no Spotify, uma maneira também de ampliar esse conteúdo em várias plataformas.

Qual sua perspectiva para o futuro?  

Primeiramente, nesse formato que venho fazendo, eu apresentando pautas variadas e agenda. Em um segundo momento, gostaria de receber convidados, pra falar de musica brasileira de concerto, música contemporânea ou o que for. Importante ressaltar que é a ideia de falar de música clássica de maneira leve e brincalhona, mas não necessariamente somente eu falando assim, quero em breve convidar amigos da área para também participarem. Tenho vários amigos que discutem ópera, fases de Beethoven no bar ou levam biografia de compositor pra ler numa viagem de férias. Quero mostrar que isso é possível e divertido, não quero que seja um projeto personalista, porque tem um coro grande de gente que também pensa dessa forma, sem espartilhos na música clássica. Esse é um próximo passo, depois gostaria de fazer entrevistas com alguns músicos, pessoas que trabalham nos bastidores da música clássica e num terceiro momento, fazer pequenas reportagens em festivais aqui no país e fora também.

Leandro Oliveira é compositor e regente de orquestra, doutorando em “Educação, Arte e História da Cultura” pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e anfitrião do projeto “Falando de Música” da Osesp.

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