Falando de Música – A morte de Milos Forman e “Amadeus”, ou: uma breve nota sobre um filme inverídico

Falando de Música – A morte de Milos Forman e “Amadeus”, ou: uma breve nota sobre um filme inverídico

Estado da Arte

19 Abril 2018 | 20h20

por Leandro Oliveira

A morte do diretor Milos Forman, aos 86 anos, deixou a muitos tristes – e claro, entre estes, vários melômanos que de algum modo formaram muito de sua sensibilidade com seu premiado Amadeus (1984).

Baseado na peça homônima do autor inglês Peter Schaffer, Amadeus é um marco para a filmografia biográfica de grandes compositores – e sem dúvida um dos mais influentes casos daquilo que o ex-prefeito Fernando Haddad chamaria por “fake fiction”. Toda a trama baseia-se em lendas pouco verossímeis que remontam o tempo do próprio W.A. Mozart e tiveram sua primeira versão literária com Mozart e Salieri de Alexander Púchkin (1830), que foi ainda no século XIX adaptada para uma ópera relativamente rara de Nikolay Rimsky-Korsakov (1897).

Se pouco ou nada do que vai em Amadeus tem base factual (esqueça o compositor como um bobo-alegre, esqueça a encomenda do Requiem, esqueça a inveja competitiva de Salieri – são todos elementos refutados por pesquisa documental), é necessário reiterar um lugar comum de todas minhas aulas: a história da arte não deve ser medida apenas pelo valor de face de uma obra, mas também e sobretudo, pelo seu impacto junto ao público. E Amadeus pode lidar com muitos equívocos, mas por seu impacto junto ao grande público é – querendo ou não – parte da história da recepção da vida e  obra do gênio de W. A. Mozart. Por fim, devemos julgar o filme de Forman não como um documentário, algo longe mesmo de uma biografia ficcional; Amadeus é, sim, excelente, mas nos seus próprios termos, quais sejam: narrativa envolvente, primorosa fotografia e direção de arte, cenografia e figurinos extraordinários, e atuações as mais emocionantes de Murray Abraham e Tom Hulce.

A discussão entre objeto e sua representação, história e ficção, é das mais sofisticadas no ambiente da arte de todos os tempos – e arrisco dizer, ainda mais pertinente em um país onde tomou-se por rotina sua confusão. Por isso, sugiro em homenagem a morte deste grande diretor que foi Milos Forman: nesta semana, devemos assistir e amar, uma e outra vez Amadeus – amar, e não acreditar em uma cena sequer. E deleitar-se com isso. Esse é um bom exercício para pessoas cultas.

Leandro Oliveira é compositor e regente de orquestra, doutorando em “Educação, Arte e História da Cultura” pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e anfitrião do projeto “Falando de Música” da Osesp.

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