Evangelho apócrifo do vendilhão do templo

Evangelho apócrifo do vendilhão do templo

Estado da Arte

15 de junho de 2017 | 08h00

Por Tiago Pavinatto

(À memória de Moacyr Scliar)

Leitura de perícope do décimo quarto manuscrito encontrado em dezembro de 1945 nas redondezas de Nag Hammadi no Alto Egito, separado dos demais pela simples camponesa de nobre coração que fugiu com o documento histórico dos demais camponeses e de autoria de um homem que se apresenta apenas como “Vendilhão do Templo”:

Jovem teve testa tatuada por dupla que o acusa de roubar bicicleta de homem sem perna.

Naquele tempo, aquele homem rebelde, de violência cega e comportamento, no mínimo, inexplicável, para não dizer ultrajante, capaz de humilhar em público um homem velho, um trabalhador honesto diante de todos os seus pares, os outros vendilhões, bem como de seu próprio filho e aprendiz, causando-lhe não somente perdas pecuniárias em seu significado mais amplo, de “pecus”, “pecusculum”, bens “peculiaris” até “pecunia”,  perdas estas de dificílima e improvável reparação, mas também danos morais irreparáveis e incompensáveis, foi para o monte das Oliveiras com os seus treze comparsas.

Ao amanhecer, ele voltou ao Templo e todo o povo, entre místicos – estes já totalmente superados – e infelizes, como cordeirinhos, ou melhor, como as vaquinhas das histórias contadas sobre seu nascimento em Belém, província romana da Judeia, ia ao seu encontro para ouvir aquela pregação fanática e incoerente… incoerente pelo menos para mim que ainda podia ouvir, em meus pensamentos, seus gritos de desaforos e o barulho estrondoso das mesas sendo brutalmente viradas por ele num acesso de fúria bestial, bem como sentia a ardência do seu maldito chicote improvisado de cordas.

De repente, não mais que de repente, depois dos gritos de “Oh, Glória!”, das palmas frenéticas, dos cânticos em louvor ao seu pai e dos choros incontidos frente à expulsão de um encosto, das histórias das suas batalhas contra o diabo, do ressuscitamento de um tal de Lázaro e de seguidas curas milagrosas – de uma orelha, de um cego, de dez leprosos, de um mudo, de uma mulher com sangramento e de um homem com hidroplasia –, chegaram os doutores da Lei e os fariseus trazendo junto deles uma mulher, que, alegavam, tinha sido pega cometendo adultério. Empurraram a coitada entre ele e o seu público de crentes e lhe disseram:

“Mestre, essa mulher foi pega em flagrante dando a César o que é de outro e, como bem sabes, a Lei de Moisés manda que mulheres poliamorosas devem ser apedrejadas. Essa onda que tu tira qual é?”

Sabedor de que essa pergunta era, em verdade, uma pegadinha feita por um doutor malandro, ele chamou para junto de si um de seus discípulos de nome Isukuri, vindo de Shingo, na província japonesa de Aomori, e que chegara nesta terra prometida não se sabe ainda para quem após inimaginável peregrinação com a ajuda de grupos de godos e de nômades – Citas, Hunos, Avares ou Magiares talvez –, e, estendendo o braço direito em direção a esses doutores da lei e fariseus, apontando-lhes a palma da sua mão com o polegar, indicador e dedo médio em riste e fazendo movimentos circulares em sentido anti-horário, repetiu sete vezes:

“Dormido, bem dormido!”

Os mesmos doutores da lei e fariseus caíram em sono profundo.

Isukuri, a despeito da pouca bagagem material, trouxera de sua terra natal uma arte de dez mil anos denominada Irezumi. Com suas hastes de marfim e suas tintas preparadas com plantas, pedras e água, o apóstolo Isukuri era capaz de marcar qualquer parte do corpo de qualquer pessoa de maneira indelével. Essa arte, todavia, era também uma penalidade em sua terra de origem, usada que era para marcar criminosos a fim de serem facilmente identificados e sempre sentirem vergonha do crime cometido.

Dessa maneira, tendo Isukuri a seu lado e desfalecidos seus detratores, ele caminhou com seu assecla entre os hipnotizados e, em cada parada, cochichou ao pé do ouvido do artista algumas palavras que, de pronto, eram escritas na testa de cada um deles respectivamente.

Ao final, percorridos cada um dos doutores da lei e dos fariseus, ele bateu três palmas acordando-os e, antes que eles insistissem na pergunta sobre a mulher, ele fez com que se entreolhassem e disse:

“Atire a primeira pedra, ai, ai, ai, aquele que nunca, na vida, pecou.”

Perplexos com o escrito na testa dos seus pares e tateando as próprias, eles foram saindo um a um, começando pelos mais velhos. Sobraram, frente à mesma plateia que vibrava, aplaudia, ria, urrava e assoviava, ele, seus seguidores e a mulher. Ele, então, virou-se para a mulher e perguntou:

“Mulher, onde estão os outros? Ninguém condenou você?”

Ela, respondeu:

“Ninguém, Senhor.”

Então, ele se voltou para Isukuri e sussurrou a palavra “adúltera”.

Socorremo-nos, finda a leitura, da arguta e inconteste consideração de Fernando Pessoa possuído por Alberto Caeiro: Por que razão que se perceba, não há de ser essa passagem mais verdadeira que tudo quanto os filósofos pensam e tudo quanto as religiões ensinam?

Até pode ser… temos por certo, no entanto, que os versículos transcritos acima não se referem a Domini Vostri Iesu Christi, da mesma maneira que é, para nós e para qualquer ser humano dito civilizado, impensável que um povo que comungue ou, ao menos, diga observar os valores cristãos e que pugne pelo respeito aos próprios direitos fundamentais possa compactuar, comemorar ou vibrar com uma barbaridade dessas. Ocorresse, seria um povo de bárbaros, no qual as vítimas também seriam criminosas e onde os próximos jamais se respeitariam, mas só e macabramente se entretemeriam.

No Japão, a tatuagem como pena foi abolida por volta de 1870. Na sociedade ocidental, ocorreu em época bastante aproximada o início do declínio do teatro do suplício. Ainda bem que vivemos em tempos livres de cretinos que acreditam e que comemoram essa falsa “justiça”, “justiça” com as próprias mãos, essa “justiça” que você pega, esfrega, nega, mas não lava; tempos que comprovam que a teoria da evolução, ao menos a mental, não é uma completa quimera.

Tiago Pavinatto é graduado, pós-graduado, mestre e doutorando pela Faculdade de Direito da USP do Largo São Francisco; escreve, quinzenalmente, para o Estado da Arte – Estadão. pavinatto@usp.br

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