Estar ou não estar nas redes sociais: é uma questão?

Estar ou não estar nas redes sociais: é uma questão?

A reflexão sobre a participação nas redes sociais pode revelar os verdadeiros objetivos por trás da exposição virtual.

Estado da Arte

16 de agosto de 2019 | 08h00

por Isabelle Anchieta

Você já indagou o quanto sua vida se tornou (ou não) mais significativa ao entrar nas redes sociais? O tempo que elas absorvem? O que te acrescenta acompanhar os conteúdos alheios ou mesmo participar da polarização política do país? Mais do que isso: você já se perguntou, honestamente, se os seus próprios conteúdos contribuem para a vida ou reflexão de outras pessoas? E quais são os seus verdadeiros objetivos ao se expor visual ou textualmente?  

Se, sim, sigamos. Mas não pense que este será um texto de uma nota só. Confesso que estou cansada de uma leitura moralista e pouco sofisticada sobre as redes sociais e o seu papel em nossas vidas. O argumento central dessas teses é o de que estamos demasiado dependentes do olhar alheio, ou mais pedestremente falando, das curtidas alheias. Mas sinto informar aos humildes e supostos autônomos de plantão que historicamente sempre buscamos o olhar dos outros e isso não começou com as redes sociais. Em minha pesquisa sobre as “Imagens da Mulher no Ocidente Moderno”¹ percebi o quanto a estima pública é um elemento imutável de nossa natureza social. Nas belas palavras de Rousseau “não há felicidade sem os outros”. Tal necessidade de “fazer-se ver”² caminha, assim, na mesma direção da existência e das dependências recíprocas. Trata-se de uma interdependência humana, que atrela nosso sentimento de satisfação, felicidade e valor ao outro. Nossa condição humana coincide com o olhar alheio – queiramos ou não. Seja esse outro o seu parceiro afetivo, os seus amigos reais, familiares, os seus colegas de trabalho ou de um público mais amplo. No sentido mesmo de entender que a teia social é uma condição que nos enreda, ela não é uma opção. Sair de uma rede social virtual não significa que você saiu da “rede social”. Fechando o assunto não se pode escapar das interações humanas e das mesquinharias, interesses, vaidades e virtudes que a atravessam (inclusive as nossas). Por isso, esse debate me parece uma falsa questão e não vou por esse caminho, fique tranquilo. 

Minha oscilação mais imediata, em estar (ou não) nas redes virtuais, é sobretudo acompanhada por uma avaliação também oscilante sobre a sua relevância e qualidade do que ela produz. Nela uma série de rostos repete-se, usando a mudança de cenário para mais uma exposição se si. O excesso dessa estratégia pode, por vezes, desgastar a nossa relação com os outros e mesmo conosco. Tanto que por vezes prefiro retratar minha sombra, meus livros, a paisagem. Mas me pergunto se não seria essa só uma outra face do selfie? Podemos escapar a ele, visual e filosoficamente falando? Se por um lado creio que não, por outro devemos apenas não tornar essa relação patológica e tola. Por isso, vi com otimismo o teste temporário de retirar as curtidas do Instagram. Uma tentativa saudável de recompor uma interação humana tão necessária que se superficializou em uma competição sem substância e sem sentido. No Instagram as mulheres vendem roupas e produtos de beleza e, por conseguirem fazer com que outras as consumam, se intitulam “influencers”. Nada contra as vendedoras de roupas nas redes e a vaidade. Esse é um aspecto lúdico, estético e necessário da nossa existência. Como bem diz uma amiga “só a vaidade nos salvará” em tom profético e irônico. Mas uma coisa é fazer a imagem estar a nosso serviço, outra bem diferente é estar a serviço da imagem.     

Mas é nessa mesma rede em que as pessoas se exibem narcisicamente e vendem produtos, o lugar em que outras se unem para ajudar alguém que precisa de um tratamento médico, uma adolescente a concluir seus estudos, que casais se formam, que exemplos de superação nos emocionam e nos motivam e que os movimentos sociais que estão mudando o rumo do país distribuem informações e se organizam. É nessa mesma rede que também encontro semipornografia, conteúdos de humor vazio, sem graça e, em contrapartida, uma infinidade de belas imagens de fotógrafos amadores e mesmo profissionais e textos sofisticados de colegas do Estado da Arte. Sim, há vida inteligente na rede. Há gente que merece ser “seguida” e que, até então, não tinha um meio de expressão para se manifestar. Muitas vezes prefiro escutar essas opiniões do que a de jornalistas consagrados. Essas pessoas estão mais arejadas, com pontos de vistas inusitados, sem muitos filtros e compromissos editoriais. Por isso, cada vez menos assisto TV. Há muito conteúdo interessante fora dela. 

No entanto, nem sempre somos nerds 24 horas. Depois de um dia de leituras e escrita, confesso que relaxo vendo e curtindo imagens de viagens, paisagens e mesmo estilos de vida alheios aos meus. Um trecho bonito que li recentemente da biografia de Simone de Beauvoir bem poderia traduzir esse olhar voyeurista, que inveja sem querer possuir. Diz: “quando em viagem, passo por casas muito bonitas, sinto nostalgia, queria sentar-me nesse jardim, debruçar-me nessa varanda e estar nessa casa – mas absolutamente não quero. Essas delícias sonhadas, em definitivo não as desejo. É isso que me seduz nas viagens: a vida sonhada fica mais importante que a vida vivida”. ³ 

Acabo, com isso, de me lembrar de outro argumento usado na crítica das redes sociais, o da dualidade: falso x verdadeiro, especialmente sobre as viagens. Então quer dizer que uma pessoa que posta uma experiência de sua viagem está falsificando a sua vida? Se ela está mesmo ali, alegre e desejando registrar (orgulhosamente) a sua presença no lugar? Há algo de ressentimento nessa censura? Em outras palavras: a felicidade alheia e o seu registro público devem ser penalizados? Trocamos pelo quê? Pessoas lamentando-se de suas mazelas diárias? E olha que elas também estão na rede! Não vejo só alegrias por lá. Há gente registrando sua luta diária contra o câncer, sua perna quebrada, o roubo e as agressões sofridas. Há uma vida não tão glamorosa sendo relatada, sim. As pessoas sentem hoje necessidade de desabafar, denunciar, de expor sua vida – em todos os ângulos. E, claro, nos arrumamos para tirar uma foto. E que mal há? No limite alguns até utilizam filtros e recursos de edição. Assim como o pintor renascentista minimizava os defeitos dos nobres retratados. É uma afronta ou falsificação oferecer a nossa melhor face ao olhar alheio? O selfie é o novo pecado contemporâneo? Se Frida Kahlo estivesse viva seria a primeira a ir para fogueira das vaidades. Fez de seu rosto o tema serial de sua obra. Junto a ela seguiriam, certamente, Rembrandt, Paul Cezánne, Picasso, Salvador Dalí, Andy Warhol, só para citar alguns narcisistas insaciáveis, caso a lista restrinja-se às artes plásticas. Pois é bom lembrar que há outras formas de registrar o rosto como na literatura, na arquitetura, na medicina. Em outro dizer, o homem está sempre tentando imprimir em suas obras algo de si. Quer que sua memória dure e me parece redutor reduzir esse gesto de preservação como um gesto narcísico condenável. 

Por isso, para além da querela narcísica, confesso que o que me interessa ao tratar das redes sociais é compreender o que essas imagens dizem sobre o nosso tempo. Pois, se toda imagem é testemunha e agente da história, o que a “sociedade de rostos” nos diz ou nos dirá sobre nós? Discuti o tema em um artigo com esse título e o detalho mais demoradamente na minha coleção de livros “Imagens da Mulher no Ocidente”. Por aqui posso antecipar que essas imagens são sintoma de uma sociedade em que as pessoas deixam de cultuar uma imagem alheia idealizada e passam a cultuar, sem culpa, a sua própria imagem e a dos iguais. Um narcisismo antirreligioso e antitotalitário, onde uma infinidade de rostos toma lugar do culto de um só.

E, por mais que as redes sociais, por vezes, nos incomodem pelo excesso de autopromoção, não tenho receio em dizer que ela é muitas vezes preferível a outras configurações sociais onde as pessoas cultuavam um terceiro: religioso, político ou mesmo uma celebridade.  

A rede social legitima os projetos autobiográficos como um valor supremo, incentivando e horizontalizando as disputas por visibilidade e reconhecimento que podem nos conduzir a um nível de integração social sem precedentes históricos: o individumanismo. Na medida em que tem acelerado a disputa dos indivíduos e grupos por autoconfiança, autorrespeito e autoestima. Sentimentos que só podem ser gerados nas relações intersubjetivas mediadas pelas lutas de afeto, direitos e estima social, como bem sistematizou o sociólogo da nova Escola de Frankfurt, Axel Honneth.

É nesse sentido que a rede de rostos humanos expressa, nessa forma, a imagem de uma conquista de nossa liberdade de expressão individual-grupal e ela é, a despeito de toda a mesquinhez que também a compõe, uma imagem humana da nossa História Social.  

Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP, mestre em Comunicação pela UFMG, premiada como Jovem Socióloga pela ISA/UNESCO.

Notas:

¹ A tese será publicada, na forma de uma coleção de livros pela EDUSP.  

² Fazer-se ver: não no sentido de aparecer, mas nos variados sentidos de desenvolver qualidades sensitivas fundadas na percepção do olhar, na sensibilidade do ver, do transformar-se além do sujeito-em-visão, do mudar-se em ver, em coisa que se vê. Tornar-se olhar, fazer-se olho, fazer-se” (CANEVACCI, 2009, p. 26). 

³ Simone de Beauvouir, Balanço Final, p. 233.

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