Escreva, caro leitor, escreva!

Escreva, caro leitor, escreva!

O ato de escrever coloca seu pensamento fisicamente diante de você, permitindo que você o ordene e o avalie (quase) tão bem quanto se fosse o pensamento de um outro.

Estado da Arte

13 Novembro 2018 | 18h10

por Andrea Faggion

Caro leitor, este post é um convite para que você se torne um escritor. Por que você deveria? Eu vou lhe dar algumas razões. Vamos começar refletindo um pouco sobre um dos debates que mais marcou a nossa eleição recente: o fenômeno das fake news. Pense sobre o pano de fundo desse debate. Por que havia uma preocupação com a possibilidade dos eleitores escolherem seus candidatos a partir de crenças baseadas em notícias falsas? Será que as únicas pessoas preocupadas com o fenômeno – que não é novo, diga-se de passagem – eram aquelas que pensavam que a ampla disseminação de notícias falsas favoreceria algum candidato em particular, que calhava de ser um candidato a quem elas próprias se opunham?

Eu fiquei com a impressão de que essa não era a única preocupação. Pareceu-me que, a despeito de qual fosse o voto do eleitor, seria considerado ruim que esse voto fosse baseado em informações inverídicas. Se essa minha impressão for correta, significa que nos preocupamos com a qualidade da justificação do voto, e não apenas com o produto final. Por exemplo, mesmo que o resultado da eleição fosse o mesmo caso todos os eleitores decidissem o seu voto individual jogando cara ou coroa ou refletindo cuidadosamente antes de fazer sua escolha, parece que julgamos mais desejável que as escolhas políticas resultem de deliberações cuidadosas.

Onde eu quero chegar? Eu estou querendo dizer que a racionalidade das nossas escolhas políticas talvez nos importe para além de sua capacidade de alterar o resultado dessas escolhas. Em outras palavras, pode ser que, em uma democracia, a racionalidade de nossa conduta tenha valor por si só.

Creio que eu ainda poderia ampliar a reflexão para além da política. Ainda que tenhamos todo o direito de basear escolhas privadas em simples caprichos, parece que há algum valor em ao menos sabermos que estamos fazendo isso. Não vamos ficar muito satisfeitos se alguém puder nos mostrar que nossas escolhas resultam de raciocínios equivocados, informações falsas ou ilusões decorrentes de auto-engano, e isso mesmo se soubermos que, no final das contas, teríamos escolhido as mesmas coisas caso tivéssemos raciocinado corretamente a partir de premissas verdadeiras.

Essa intuição se coaduna com o pensamento de um filósofo por quem, particularmente, nem nutro a maior das simpatias (e que nem era propriamente um defensor da linguagem escrita). Platão acreditava que ter conhecimento não é a mesma coisa que ter crenças verdadeiras e, mais do que isso, ele acreditava que ter conhecimento tem mais valor do que ter crenças verdadeiras. Na verdade, até hoje, em teoria do conhecimento, a maior parte dos filósofos segue sustentando essa tese segundo a qual conhecimento não é o mesmo que crença verdadeira.

Um exemplo clássico. Você está dirigindo à procura de certa localidade, digamos, de uma igreja. Você resolve parar e pedir informações, mas não percebe o estado de embriaguez de um passante. Ele responde sua pergunta, que ele sequer entendeu, com um gesto completamente aleatório. Você interpreta que ele estava apontando o caminho para a igreja e segue na direção apontada. Por pura coincidência, você encontra a igreja. Você acreditava que a igreja ficaria ali. A sua crença era verdadeira. Mas você sabiaonde ficava a igreja? A maior parte dos teóricos do conhecimento acha que não. Eu pertenço a essa maioria e, adicionalmente, me inclino a pensar que Platão tinha razão ao acreditar que ter conhecimento tem mais valor do que ter crenças acidentalmente verdadeiras.

Pois muito bem, eu comecei lhe convidando a escrever e acabei defendendo o valor de termos crenças bem justificadas. O que uma coisa tem a ver com a outra? O meu ponto é que nunca pensamos tão bem quanto poderíamos quando não escrevemos. Eu tendo a pensar que as pessoas não desenvolvem seu potencial de racionalidade quando se comunicam por meio de gravações audiovisuais, GIFs, “memes”, emojis e afins. A substituição da palavra escrita pela imagem na comunicação me impacta como um recuo da civilização para eras mais primitivas. A palavra escrita, afinal, exige lógica; a imagem convida a associações meramente psicológicas. Por isso, eu ouso sugerir que você, leitor, passe menos tempo em redes sociais (sobretudo, no famigerado WhatsApp) e mais tempo com algum livro. Isso já seria uma grande coisa, mas eu estou lhe propondo ainda mais: não apenas leia, mas escreva.

Escrever é um enorme desafio. Desconfie de quem lhe disser que escrever é fácil, porque é uma tarefa muito árdua. Sabe por que é tão difícil? Exatamente porque pensar logicamente é muito difícil! Nós achamos que nossas ideias estão sempre em ordem, que sabemos muitas coisas. Ledo engano! Experimente produzir um texto com começo, meio e fim, explicando o que você pensa e defendendo suas ideias. Só então você descobrirá o quão lacunoso e confuso é o seu pensamento.

O suplício de escrever existe mesmo para quem sabe gramática e tem um bom vocabulário, porque ele nada mais é do que o suplício de inserir ordem no caos do pensamento. O ato de escrever coloca seu pensamento fisicamente diante de você, permitindo que você o ordene e o avalie (quase) tão bem quanto se fosse o pensamento de um outro. Em comparação, na simples introspeção, ou mesmo na fala, você não contempla suas ideias com a mesma externalidade, de modo que não é possível julgá-las com o mesmo rigor. Em síntese, porque as diferentes partes de uma fala vão se perdendo na sucessão temporal, na fala, passam despercebidos defeitos do pensamento que a escrita, ao existir no espaço, denuncia sem piedade. Por isso, eu me arriscaria a dizer que, se você quiser enrolar alguém, incluindo a si mesmo, é melhor falar do que escrever. Também por isso, eu afirmaria que é com a escrita que você verdadeiramente transcende a sua subjetividade e tem ideias propriamente públicas, ou seja, capazes de serem defendidas para os outros. Daí a importância desse logos para a democracia!

Assim, caro leitor, eu espero que você nunca me venha com aquela frase tão comum: “eu sei, só não sei explicar”. A minha pretensão com este texto é tentar convencê-lo justamente de que, se você não sabe explicar (e explicar por escrito), então você não sabe. O que você sabe e não sabe explicar é andar de bicicleta. Coisas assim.

Existe uma forma de conhecimento que chamamos de “know how”. Ter know how, literalmente, é saber como fazer alguma coisa. Não é aquilo que chamamos de “know that”, literalmente, um saber que algo é verdade; tecnicamente, um saber proposicional. Ninguém “sabe que” alguma coisa se esse alguém não sabe explicar essa coisa que ele sabe. O nome disso em que você acredita, mas não sabe explicar, não é conhecimento, é misticismo!

Ser místico pode até ser legal, mas só até certo ponto e em determinados contextos. Se, assim como eu, você é um ocidental que descende de Platão (ironicamente para mim, um excelente escritor, mas defensor da tradição oral), você dá valor ao logos, ou seja, ao pensamento organizado que pode ser publicamente compartilhado. Nesse caso, meu querido leitor, eu lhe faço um convite. Junte-se a nós: escreva!

Andrea Faggion é doutora em Filosofia pela Unicamp e professora de Filosofia da Universidade Estadual de Londrina (UEL)