Entre o sangue da Direita e o sangue da Esquerda, a criatividade está no centro

Entre o sangue da Direita e o sangue da Esquerda, a criatividade está no centro

O que será melhor: viver em uma sociedade com alta desigualdade, mas rica, ou em outra mais igualitária, porém pobre?

Estado da Arte

15 Janeiro 2018 | 11h54

por Vinícius Müller

E lá se foram 35 anos do lançamento da obra The Rise and Decline of Nations (Yale University Press, 1982), na qual Mancur Olson ampliou sua tese sobre a lógica da ação coletiva e explicitou os limites do crescimento e da própria sobrevivência de sociedades tomadas pelo o que chamava de esclerose institucional. Nessa situação, os grupos organizados de uma sociedade disputam entre si a atenção do Estado, pressionando-o em nome de seus interesses. E, além disso, tornam tal disputa motivo da esclerose, já que em algum momento impedem quaisquer tomadas de decisão pelo poder que isoladamente têm para brecá-las caso não se sintam premiados na mesma medida que supõem que outro grupo será. Assim, há um equilíbrio de forças entre os grupos que, ao contrário de ser justo, impede a sociedade de avançar a partir de decisões coletivas. Olson, quando escreveu sobre isso, olhava para a falência do Estado do bem-estar social europeu, característico dos países do continente após a Segunda Grande Guerra (1939-1945) e foi visto como patrocinador da parte sociológica da crítica que, na Economia, era encabeçada pelos economistas de Chicago sob a batuta de Milton Friedman.

Isso porque, ainda segundo Olson, havia uma combinação explosiva, que se amplificou no pós-Guerra, de três fatores: a ampliação do papel e da importância do Estado; a desproporção de poder de grupos ante ao que realmente representavam; e a sobrevalorização de algumas lideranças. Ou seja, quanto mais o Estado aumentava, mais os grupos buscavam influenciá-lo. E, para isso, mais identificavam suas origens e trajetórias como fator de legitimidade – assim como mais barulho faziam em torno de seus respectivos líderes. Quatro consequências, então, foram verificadas. A primeira era a excessiva burocratização do Estado, que precisava inchar seus quadros para absorver as demandas de grupos cada vez maiores e mais organizados. A segunda, em consequência da anterior, era a inviabilidade fiscal desse Estado. A terceira era a falsa sensação de representação que alguns grupos conseguiam reproduzir. Um sindicato, por exemplo, que no século anterior havia sido muito representativo e que, ao longo da história, transformou tamanha representação em outros aparatos sociais (como partidos políticos, clubes, associações, escolas e jornais), poderia usar a seu favor essa trajetória, mesmo que representasse muito menos do que décadas antes. E, por fim, uma quarta consequência, que foi a busca, pelos grupos organizados, de lideranças que poderiam, por meio de carisma ou qualquer outro atributo, aparentar representar mais pessoas do que realmente representavam.

Muitos identificaram na obra e na impecável lógica de Olson a justificativa para a diminuição do poder do Estado, conjugada à diminuição do poder dos grupos organizados, como sindicatos, por exemplo. Margareth Thatcher, então primeira ministra britânica, estava entre os que, simbioticamente, foram influenciados e usaram Olson como justificativa aos seus projetos e ações políticas. Contudo, havia mais do que isso. Lá pelas tantas, Olson insinua que essa esclerose institucional, comum nos países europeus e mesmo nos EUA, afetou em menor escala os dois países derrotados na Segunda Guerra, ou seja, Alemanha e Japão. Assim, muitos não só justificaram suas decisões políticas, mas também entenderam que, às vezes, a melhor maneira de resolver essa armadilha da esclerose institucional é participando de uma guerra,  mesmo que seu país seja derrotado, para, a partir daí, recomeçar, de uma suposta posição zero, a estruturação de suas instituições, evitando ou, ao menos adiando, a previsível esclerose, mesmo que os custos dessa solução sejam altíssimos.

(Foto: Pixabay, Crative Commons)

Três décadas e meia depois, uma nova obra nos possibilita uma análise similar. Walter Scheidel, austríaco e professor da Universidade de Stanford, em seu mais novo e refinado livro (The Great Leveller: Violence and the History of Inequality from the Stone Age to the Twenty-First Century, 2017) nos brinda com uma apurada análise e coleta de dados sobre a desigualdade, e narra como ela se reproduziu ao longo da História. Na esteira da retomada do tema após o sucesso da obra de Piketty (O Capital no século XXI, 2014), Scheidel aponta para uma persistência histórica da desigualdade desde o surgimento da agricultura, na passagem para o período Neolítico (por volta do século X a.C.), até os nossos dias. Tal persistência ocorreria, ainda segundo Scheidel, mesmo em períodos de crescimento, assim como sob governos e/ou políticas abertamente voltados à redução da desigualdade.

Não que tais governos e políticas não tenham resultados favoráveis à redução da desigualdade. Contudo, não os garantem em prazos mais alongados. A tendência, então, é o retorno aos padrões anteriores de desigualdade. Mesmo que acompanhados de crescimento econômico. Nesse caso, a obra tangencia, acabando por inverter, o debate que norteou as últimas décadas da economia política. Ou seja, o que é melhor: viver em uma sociedade com alta desigualdade, mas rica, ou em outra mais igualitária, porém pobre? É famosa a metáfora que diz que quando a água sobe, tanto o grande navio quanto o barquinho também sobem. O que o historiador austríaco revela é que, mesmo assim, o grande ganha mais do que o pequeno e, desse modo, mantém e às vezes amplia a desigualdade até um ponto em que a sociedade se vê próxima da ruptura. Complemento dizendo que, mesmo sendo melhor viver em uma sociedade mais rica, porém mais desigual, do que em uma mais pobre e mais igualitária, em determinado ponto a desigualdade pode se tornar tão grande que atrapalha a criação de riqueza. Portanto, anula a possibilidade de escolha anterior.

Scheidel, entretanto, aponta para situações nas quais, de fato, a desigualdade diminuiu. Segundo ele, as causas foram rupturas, revoluções, guerras, catástrofes naturais, epidemias e afins, logo seguidas por uma reorganização social cujas bases e resultados garantiram uma redução da desigualdade. Ainda assim, os custos de tais transições históricas (imaginem o custo social, financeiro, humano etc. da Segunda Guerra Mundial ou da Peste Negra ou das Revoluções francesa e russa) foram muito altos.

E aqui as ideias de Olson e Scheidel (ou certas correntes interpretativas que possibilitam suas obras) convergem. E assim o fazem de modo no mínimo perigoso. Ao identificar na esclerose institucional o problema do Estado do bem-estar social da segunda metade do século vinte, Olson estava certo, mas justificou, no modo menos radical, a política de desmonte dos grupos organizados na Inglaterra de Thatcher, mesmo sob um custo muito alto. E, no modo mais radical, deu esperança àqueles que se apegaram à sua proposição sobre o crescimento de Alemanha e Japão no pós-Guerra. Serviu à justificativa de ruptura e desmonte das estruturas sindicais e de grupos que viviam próximos ao Estado, assim como à própria diminuição do Estado, para o horror de certa esquerda ideológica. Já Scheidel, mesmo correto em sua análise histórica sobre a desigualdade, pode insuflar aqueles que, em nome da justiça social e econômica – ou seja, daquilo que chamam de Igualdade –, pensam que a única saída é a ruptura, a guerra, a revolução, mesmo com um altíssimo custo, para o horror de certa direita ideológica.

Nem um, nem outro. Os dois estão corretos no modo em que reconstroem a História. Mas, isso não significa que o bom diagnóstico acarrete necessariamente um bom remédio, ou que a História, que nos serve primordialmente para levantar os problemas certos, nos sirva como única fonte para apresentarmos respostas aos mesmos problemas. À direita e à esquerda, as reconstruções históricas são pertinentes e muitas vezes corretas. Mas, não servem necessariamente para resolver nossos dilemas. Entre o sangue da direita e o sangue da esquerda, a História não cumpre todo o seu potencial. A criatividade que devemos ter para responder aos nossos problemas e a inspiração que podemos extrair da História está no centro. Para o horror de certa direita e de certa esquerda ideológicas.

Vinícius Müller  é doutor em História Econômica pela USP e professor do Insper.

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