Elogio da Paranoia

Elogio da Paranoia

Estado da Arte

30 Janeiro 2017 | 14h00

Por Felipe Massao Kuzuhara

Embora as pessoas costumem falar mal de mim – e eu bem sei que meu nome soa mal aos ouvidos dos mais desconfiados -, manterei uma certa calma ao me defender aqui. O ano começou de maneira muito ruim, com a morte do Ministro do STF Teori Zavascki em um acidente aéreo. Foi um grande lembrete de que 2016 foi o ano que terminou mas não acabou. Foi então que eu, Paranoia, apareci neste país cansado. Se não acharem que for o caso de me elogiar, peço ao menos que me escutem.

“O Grito”, de Edvard Munch

A morte do ministro relator da Lava Jato causou comoção com um algo a mais: um surto de paranoia. Qualquer um acompanhando as redes sociais testemunhou isso em alto e bom som. Lá, pôde-se se ver um enxame virtual de pessoas deseperadamente revoltadas, teclando ao mesmo tempo “assassinato”, “coincidência demais nisso tudo”, “quais são as chances de um acidente de avião?”, “a quem isso beneficia?”, “tem gente feliz com isso…”. Até o filho do próprio juiz falecido anotou algo como “tomara que tenha sido só um acidente”. Todas estas mensagens irromperam a partir da perda que Teori nos causou. Como magistrado, ele personificava a garantia de um bom encaminhamento do processo da Lava Jato, além de ajudar a acalmar nossos anseios quanto ao futuro das investigações no STF. Mas sua morte rasgou essa realidade, criando uma ferida por onde passamos a imaginar o que aconteceu. No calor da hora, ficamos sabendo que caberia ao Presidente escolher um juiz substituto, e ao Senado – justo ele! – convenientemente aprovar esse novo nome. Além disso, estávamos a duas semanas de vermos a importante homologação da delação da Odebrecht. Pois bem. Diante de tanta coincidência, foi nessa hora que apareci para bagunçar, com minha irmã Teoria da Conspiração, e minha companheira inseparável, Fantasia.

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O nascimento da psicanálise está diretamente ligado à paranoia. Foi neste estado mental, de seu consultório em uma Viena fin-de-siècle, que Freud escutava assustado ao testemunho de seus pacientes, que relatavam em segredo as seduções sexuais perpretadas pelos seus pais. Disto surgiu sua teoria da sedução, mais tarde refutada e desacreditada, o que levou Freud a renovar seu trabalho clínico e desenvolver o que conhecemos hoje por psicanálise. Em outras palavras, o momento de fundação psicanalítico é calcado em reação ao problema da paranoia pessoal de Freud, sua teoria conspiratória, e o que foi visto como fantasias sexuais de seus pacientes. Além disso, foi plantada naquele mesmo momento a semente para um dos grandes desafios da escuta psicanalítica: lidar com pacientes sem saber ao certo se o que trazem ao consultório é real ou pura conspiração. Diante deste problema complexo e espinhoso, Sandor Ferenczi explorou questões como “será que houve abuso?”, “o que acontece com a mente quando isso occore, de fato?” Já Melanie Klein foi para um lado oposto, ao perseguir a paranoia calcada simplesmente nas fantasias as mais primitivas e incrustadas em nossa mente. Tantas vezes analistas se bateram a partir de suas opiniões distintas e abordagens conflitantes. Afinal de contas, só podemos chamar de paranoia aquilo que excede a realidade, o exagero, e aquilo que ultrapassa a normalidade. Para isso precisamos necessariamente ter sempre um contraponto, ou uma âncora na realidade a nos nortear – o que nem sempre é fácil de se achar.

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Há quem queria falar mal de mim, dizendo que sou uma irresponsável, que trago as pessoas para uma bolha, e que não tenho nada que influenciar os ânimos atualmente. Sim, apareço em momentos de confusão. Mas não me confunda com a minha prima do norte, a paranoia americana em tempos de eleição presidencial. Diferente de lá, aqui mal deu tempo de lançarem informações falsas. Não surfei nehuma onda pois cheguei assim, sem manipulação via notícia inventada. Apenas de repente. Por isso mesmo quero me defender aqui. Tenho em meu favor o que digo a mim mesma neste Brasil tão atormentado: só a paranoia tem a virtude de nos livrar da patrulha do falso bom senso, e fazer nos entregar com maior liberdade a toda sorte de imoderação. Bom, não sou exatamente uma das virtudes cardinais como a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança. Mas acho que não preciso estar certa para ser elogiada. Quando alguém no Brasil hoje tem a pretensão de pedir a volta de uma certa normalidade, a pacificação, ou a espera pela realidade do fatos, digo eu: que normalidade? Que realidade?

Castelo Branco, Juscelino, PC Farias, Celso Daniel, Eduardo Campos, e agora Teori. Posso estar errada, mas logo penso que tem algo estranho quando muita gente começa a morrer a troco de acidente ou crime passional. Até Freud se confundia entre fatos e fantasia. Além disso, alguém acredita que dá para voltar à normalidade quando a polícia do Senado tem muito mais maletas de grampo que a própria Polícia Federal? Coragem, vamos! Deixe-se levar por mim, e pelo menos paramos de achar que voltar à realidade no Brasil seja algo tão positivo assim. Ou alguém acha normal a tentativa de aprovação de leis à meia-noite na câmara dos deputados? E o que dizer do silêncio da oposição e situação quando pipoca qualquer escândalo de corrupção? Por que se calam juntas? Por isso eu digo: que a paranoia é um ato de sanidade; e é por obra da paranoia que regatamos a medida da loucura que é a realidade que querem usar como âncora dos ânimos do país.

Você espera que eu conclua? Não tenho pretensão para tanto. Apenas digo para não aceitar bovinamente essa tal realidade, esse chamamento à responsabilidade. Pelo menos não cegamente. E lembrar de me elogiar de vez em quando, ao invés de me ver apenas negativamente. Sou apenas a filha da dor e da raiva, com uma pitada de medo. Vou agora, pelo visto com as portas sempre abertas para eu voltar. Pelo menos até o dia em que juiz for só juiz, herói só herói, político só político, e bandido só bandido. Até lá, fico às ordens e aqui por perto.

Felipe Massao Kuzuhara é economista e doutorando em Psicologia Social pelo Birkbeck College de Londres.