Ele não, ou ele(s) não?

Ele não, ou ele(s) não?

A falsa “guerra dos sexos” e a disputa ideológica de fundo na campanha presidencial brasileira.

Estado da Arte

22 Setembro 2018 | 12h58

 

por Isabelle Anchieta

Elas são a maioria da população brasileira: 52%, mais precisamente. E, se entrassem em um acordo tácito, poderiam definir os rumos do país. São uma força política inegável. Mas para além da obviedade numérica, há uma complexidade sociológica − e ideológica − quando falamos de gênero no Brasil. Há contradições (muitas). Para começar, as mulheres que se definem como feministas e se unem em uma campanha contra “ele” não sinalizam que o voto será para “ela”, mas em favor de um homem branco e heterossexual, também conhecido por depoimentos e posições infelizes em se tratando de mulheres. Mas por que, então, votam “neste”?  Ao que tudo indica, porque o machismo de esquerda é justificado como ‘viril’, ou uma ‘brincadeira infeliz’, e o de direita é taxado de misógino.

Ainda que eu defenda que o gênero deva ser um critério neutro, no sentido de considerarmos mais a trajetória, as ações, as escolhas e as capacidades do que o sexo em si (que nada diz do caráter individual), assombra-me, por outro, essa incoerência das feministas brasileiras. Há um indicativo de que antes do gênero está a preferência ideológico-partidária. Uma espécie de hierarquia velada, segundo a qual ser uma “mulher digna de respeito” signifique, antes de mais nada, aderir a uma ideologia política invariável. Tanto é assim que, na eleição de 2014, quando a então candidata à reeleição Dilma Rousseff desferiu uma série de ataques a Marina Silva, pouca solidariedade feminina foi a ela dedicada. Muito pelo contrário, houve um coro de aceitação ou reiteração dessa desqualificação, sem que o debate da misoginia entre mulheres fosse colocado.

Vincula-se, arbitrariamente, o feminismo às tendências de esquerda, o comunismo e variantes estando entre essas tendências. Digo arbitrariamente porque, ao contrário do entendimento de senso comum, a história é reveladora de que o florescimento dos direitos femininos está associado ao avanço do capitalismo e das democracias, e não o contrário.

Tal conclusão é demonstrada na obra Camaradas: Uma História do Comunismo Mundial do professor de História da Universidade de Oxford, Robert Service, quando questiona se o comunismo é inerentemente despótico ou tem potencial libertador. Ao esquadrinhar a história dos países que adotaram o regime, afirma: “a história de governos comunistas foi universalmente associada a ditaduras, terrorismo policialesco e grosseiras violações dos direitos humanos”. Para criar uma imagem contrária, tais países adotaram o bloqueio à livre circulação de informação e, assim, tentavam fazer crer que “o comunismo superava a capacidade do capitalismo de proporcionar liberdade política, oportunidade de desenvolvimento cultural e bem-estar social e material” [1].

Em minha pesquisa de doutorado, dedicada a remontar a gênese moderna da ampliação do reconhecimento da individualidade humana, especialmente a da mulher, pude constatar claramente isso. O processo de individuação se fundamenta (e se confunde) com a própria concepção da cultura ocidental moderna. Um processo que continua em curso e ganha propulsão com a mudança do estatuto e da imagem da mulher nas sociedades modernas e mesmo da necessidade de sua inserção como força produtiva. Elas passam, desse modo, a ter o direito de eleger o projeto biográfico como valor supremo, o que não significa imediatamente que se tenham emancipado[2]ou se autonomizado − na medida em que a “individualização revela-se como a forma mais avançada de socialização dependente do mercado, do direito e da educação” [3].

Em outras palavras, ainda que a ideia utópica de emancipação feminina e humana não tenha se concretizado plenamente no capitalismo, seria equivocado, por outro lado, tentar dissociar os avanços de direitos individuais e mesmo as margens de poder das mulheres desse sistema econômico que melhor se adapta à democracia.

Por isso, tenho defendido que o caminho mais coerente é ter como objetivo um respeito universalista. Ele, por si, seria suficiente para atravessar o debate de gênero. Um debate que é, ao fim, um beco sem saída, visto que a reiteração da ideia de mulher mais agrava as tensões sociais do que as fazem avançar.  Uma contradição insolúvel em que as feministas acabam por “reforçar o tipo de pensamento que elas queriam combater”. Em minha concepção, o objetivo pleno do feminismo só se realizará na dissolução da ideia da mulher como critério político e econômico em prol da ideia do ser humano.

Mesmo a sub-representação[4]feminina poderia avançar caso adotássemos uma perspectiva mais neutra, orientada para o fato de que ser homem não seria um critério em si positivo ou negativo na escolha de um candidato.  As mulheres se veriam mais encorajadas a se candidatarem ao perceberem que a política não é uma função exclusivamente deles. É necessário, sim, um nivelamento, um critério de igualdade da sociedade na esfera da representação, mas acredito que o caminho não é aquele da defesa de grupos em identidades fechadas.

As mulheres que querem entrar verdadeiramente na política não podem advogar exclusivamente para as mulheres, mas podem pensar de forma ampliada a vida pública. “Isso é fazer política e ultrapassar as barreiras de gênero. Em outras palavras, a correta tradução do feminismo deveria ser o humanismo. Nesse sentido, o ‘pós-gênero’ (ou a crise dos estudos de gênero) é igualmente produtivo ao debate em questão, na medida em que comprove que, para deslegitimar classificações e estereótipos sociais, é preciso ampliar o frame e não retornar dissimuladamente ao mesmo lugar pelo avesso.

Ser mulher, ou homem, ‘não é tudo o que esse alguém é’. O indivíduo está aquém e além do seu sexo. Assim, mais do que municiar uma guerra sem fim e sem vencedores, o importante é compor um novo lugar de identificação fora desse sistema binário em prol de um frame ampliado, a fim de unir, igualar e pacificar sem homogeneizar. A humanidade composta de indivíduos: o individumano. Enfim, uma condição com a qual possamos nos engajar na vida em comum para além das estereotipias que nos separam”[5].

Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP, jornalista, mestre em Comunicação Social pela UFMG. Recebeu prêmio como Jovem Socióloga brasileira pela Associação Internacional de Sociologia com apoio da UNESCO.

[1]Robert Service, Camaradas: Uma História do Comunismo Mundial, Rio de Janeiro, Difel, 2015, p.20.

[2]“Muitos associam individualização com individuação (formação da personalidade, emancipação). Isto pode ser correto. Mas talvez também o seu contrário seja” (BECK, 2010, p. 191).

[3]Ulrich Beck, Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade,2010, p. 194.

[4]O Brasil tem apenas 9% de representação feminina na Câmara e 13% no Senado. Para se ter uma ideia, o Brasil tem menos mulheres deputadas e senadoras do que o Oriente Médio, ficando com a vergonhosa posição 116 no ranking com 190 países.

[5]Isabelle Anchieta, Por que ser mulher na política é (e não é) um fator importante, Estado de São Paulo, 17 maio, 2016, Disponível em: https://www.estadao.com.br/noticias/geral,analise—porque-ser-mulher-na-politica-e-e-nao-e-um-fator-importante,10000051893