É preciso saber muito para não saber

É preciso saber muito para não saber

Desidério Murcho analisa uma das mais famosas afirmações da história da filosofia: "Só sei que nada sei". Será que Sócrates poderia afirmar isso mesmo?

Estado da Arte

07 Agosto 2018 | 08h00

“A Morte de Sócrates”, de Jacques-Louis David (1787).

por Desidério Murcho

Em 399 a.C. vivia-se na Grécia um período de inovação científica e cultural. Heródoto (c. 484-420 a.C.) introduzira na Europa, havia menos de um século, a história científica — isto é, o relato e explicação de acontecimentos do passado recorrendo a documentos e fontes fidedignas, procurando separar o mito do facto. O teatro, a escultura e a arquitectura atingem grande sofisticação e originalidade. Um século mais tarde, ocorrerá um dos maiores feitos intelectuais dos muitos que marcaram a Grécia Antiga: a sistematização científica da geometria levada a cabo por Euclides, por volta de 300 a.C. Claro que alguns conhecimentos práticos de geometria eram desde há muito usados pelos egípcios — de quem os gregos receberam a disciplina, segundo Heródoto — mas esta não fora objecto de uma sistematização com o grau de generalidade e precisão presentes no trabalho de Euclides. Poucas décadas depois, com base na geometria e muito engenho, Eratóstenes (c. 276-194) calculou a dimensão da Terra, com surpreendente precisão.

Infelizmente, nem tudo era um mar de rosas. A mentalidade grega era imperialista e guerreira, o que deu origem a guerras constantes com os seus vizinhos — os bárbaros, cujo termo grego original significa literalmente “que balbucia”, ou seja, que não fala grego. Como os norte-americanos, muitos séculos depois, a arrogância grega levou a aventuras militares desastrosas. Mesmo depois de se tornarem uma mera província do império romano, persistia a arrogância grega, a que os romanos achavam graça, como talvez os chineses um dia acharão graça à arrogância norte-americana.

Além disso, a vida dos intelectuais não era isenta de perigos. Sócrates foi acusado de impiedade e de corromper os jovens, sendo condenado à morte em 399 a.C., com setenta anos, por uma maioria não muito significativa dos 501 concidadãos que o julgaram. Este género de perseguição não foi a primeira, nem haveria de ser a última: reinava uma predisposição popular para crer que os filósofos eram ateus. Na comédia As Nuvens (423 a.C.), publicada vinte e quatro anos antes da condenação de Sócrates, Aristófanes retratou-o como um ateu que ofende os deuses perscrutando os segredos dos corpos celestes. Cerca de cinquenta anos antes da condenação de Sócrates, Anaxágoras (c. 500-428 a.C.) fora acusado de ateísmo, sendo obrigado a fugir de Atenas, em grande parte por ter ousado declarar que o Sol — o deus Hélio, na religião grega — era uma massa de metal incandescente um tudo-nada maior do que a região do Peloponeso.

Ilustração de Atenas, palco principal do chamado “milagre grego”.

Quando uma sacerdotisa do templo de Delfos declarou que nenhum ateniense era mais sábio que Sócrates, este ficou perplexo, pois não defendia teoria alguma, pelo menos explicitamente, ao contrário de muitos outros filósofos. Não tinha uma teoria sobre a natureza última da realidade, como Heraclito (c. 500 a.C.), Parménides (c. 515-445 a.C.) ou os atomistas Leucipo (c. 450-420 a.C.) e Demócrito (c. 460-371 a.C.). Não desenvolveu a geometria nem a matemática, que no seu tempo não se distinguia da filosofia. De modo que Sócrates partiu em busca de outros homens (não lhe ocorreu procurar mulheres!) que fossem mais sábios que ele, para poder apresentá-los à sacerdotisa como refutação da sua estranha afirmação. Mas não encontra senão homens que se julgam sábios quando, afinal, não o são. Sócrates faz, então, a seguinte reflexão, depois de conversar com um deles:

Sou, sem dúvida, mais sábio que este homem. É muito possível que nenhum de nós saiba algo de belo ou de bom; mas ele julga que sabe alguma coisa, embora não saiba, ao passo que eu nem sei nem julgo saber. Parece-me, pois, que sou algo mais sábio que ele, na precisa medida em que não julgo saber aquilo que ignoro. (Apologia, 21d)

É desta passagem da Apologia que chegou até hoje a famosa expressão “só sei que nada sei”. No entanto, Sócrates não diz exactamente o que lendariamente lhe é atribuído. Ainda que possa tê-lo dito, não há disso qualquer prova documental; o que mais se aproxima da lenda são estas palavras da Apologia. Acresce que esta obra é da autoria de Platão (427-347 a.C.), que tinha vinte e oito anos quando Sócrates morreu, e não se sabe até que ponto reproduz aproximadamente o discurso de defesa de Sócrates, aquando da condenação à morte por envenenamento. Platão escreveu inúmeras obras filosóficas, sob a forma de diálogo, nas quais Sócrates surge como personagem e muitas vezes protagonista. Dessas obras, e de outros relatos, incluindo os de Xenofonte (c. 430-354 a.C.) e de Aristóteles (384-322 a.C.), que nasceu quinze anos depois da morte de Sócrates, consegue-se ter uma ideia, ainda que não muito precisa, do género de conversas que Sócrates mantinha com os seus concidadãos e também de algumas das suas ideias. Tanto quanto se sabe hoje, Sócrates abordava na rua as pessoas que professavam saber algo e, fazendo perguntas e levantando dificuldades, fazia-as darem-se conta de que afinal não sabiam o que julgavam saber. Mais de dois mil anos depois, ao colocar todas as convicções em causa com a ajuda do seu génio maligno, Descartes não fará algo incomum em filosofia. Colocar convicções em causa é recorrente, em filosofia, precisamente porque se quer descobrir a sua justificação última — ou descobrir que não há tal coisa.

Quem defende que as nossas convicções — em qualquer área ou apenas em algumas — não têm justificação adequada, tem a designação de “céptico”. Este termo é infelizmente ambíguo, hoje em dia. Originalmente, o termo grego que é a sua raiz significava apenas “investigador”, o que está em harmonia com as ideias defendidas por Pirro (c. 360-272 a.C.), natural da cidade de Élis, o fundador da tradição céptica grega. Não há hoje qualquer obra de Pirro; conhece-se as suas supostas ideias pela obra de Sexto Empírico (c. 150-225), que escreveu quase quatrocentos anos depois. Ora, nos textos deste último, surge muitas vezes a ideia de que os cépticos, ao contrário dos filósofos que julgam ter já encontrado a verdade, estão ainda procurando, investigando. Daí o significado do termo grego original. Contudo, o termo “cepticismo” passou depois a ser usado não no sentido de alguém que investiga, mas antes de alguém que paralisa a investigação precisamente na medida em que põe tudo em causa — quer numa dada área apenas, quer em todas. O termo “cepticismo” passou assim, em filosofia, a significar a paralisia da investigação, e não a atitude de investigar.

Não se sabe bem até que ponto Sócrates era um céptico. Platão não parece tê-lo sido, e Aristóteles certamente não o era. Mas a escola de filosofia fundada por Platão, conhecida como “Academia” — daí o termo ainda hoje usado para falar de universidades — acabou por adoptar o cepticismo, para melhor reflectir a suposta atitude original de Sócrates. De modo que “académico” foi, durante muito tempo, sinónimo de “céptico” — significado que voltou a perder mais tarde. O livro Contra os Académicos, do filósofo e teólogo númida Agostinho de Hipona (354-430), é precisamente uma discussão do cepticismo; e o filósofo e historiador escocês David Hume (1711-1776) deu à Secção XII da sua Investigação sobre o Entendimento Humano o título “Da Filosofia Académica ou Céptica”, indicando a palavra “ou” duas designações alternativas da mesma coisa. Em contraste com este uso, o termo “céptico” é por vezes usado, nomeadamente por cientistas como Carl Sagan, no sentido grego original de alguém que está investigando, procurando provas e rejeitando ideias inadequadamente justificadas ou sem justificação. Isto provoca alguma confusão porque, em filosofia, desde há séculos que se usa o termo no sentido de alguém que paralisa a investigação e rejeita o empreendimento humano da teorização cuidadosa e sistemática.

Há pelo menos duas perguntas cruciais a fazer perante alguém que afirme só saber que nada sabe. A primeira diz respeito à sua coerência. Não será incoerente afirmar que sabe que nada sabe? Afinal, sabe algo ou não? A segunda diz respeito não à sua coerência mas à sua possibilidade. Será possível alguém saber apenas que nada sabe? Claro que se for incoerente saber que nada se sabe, será também impossível saber apenas que nada se sabe. Mas mesmo que seja coerente afirmar tal coisa, poderá ser impossível saber apenas que nada se sabe.

É uma boa ideia começar por clarificar o conceito de conhecimento, ou saber. Quem o fez pela primeira vez foi, precisamente, Platão, na obra Teeteto. É razoável defender que há três condições necessárias para que algo seja conhecimento. Contudo, naquela obra, Platão rejeita que estas sejam também condições suficientes, defendendo que há casos em que as três condições se verificam mas não há conhecimento. Em todo o caso, mesmo que as três condições seguintes não sejam suficientes para que haja conhecimento, é razoável pensar que são necessárias. Essas condições são as seguintes: se algo for conhecimento, então 1) é uma crença (ou seja, uma representação verdadeira ou falsa que alguém tem de algo), 2) essa crença é verdadeira, e 3) essa crença verdadeira está justificada. Mas o que quer isto dizer?

Considere-se a crença de que Sócrates era ateniense. Esta crença será verdadeira ou falsa. Imagine-se que é falsa. Nesse caso, Sócrates não era ateniense e, por isso mesmo, ninguém sabe que ele era ateniense — pode-se é crer erradamente que se sabe. Imagine-se agora que a crença é verdadeira. Nesse caso, Sócrates era realmente ateniense. Mas isso não basta para que alguém o saiba; pois se a crença for verdadeira por mero acaso, como quem acerta na lotaria, não é razoável dizer que se sabe genuinamente que Sócrates era ateniense: apenas se tinha essa convicção, algo à toa, e por sorte acertou-se na verdade. Assim, para que a crença de que Sócrates era ateniense constitua conhecimento é preciso que, além de ser verdadeira, esteja justificada. Neste caso, a justificação é que se lê isso nos livros de história, por exemplo. Certamente que esta justificação não é última — depende de outras justificações — mas é razoável.

Afirmar que só sei que nada sei seria obviamente incoerente se a ideia fosse, literalmente, que nada sei — afirmando de seguida que o sei. Isso seria como afirmar que toda a gente é loura, mas eu não: se toda a gente, literalmente, é loura, eu também o sou. Mas esta não é uma boa interpretação da afirmação. Ao invés, a ideia é que há uma e uma só coisa que sei: que nada sei, excepto isto mesmo. Interpretada assim, esta afirmação parece captar o que o céptico pensa. Ele põe em causa as teorizações acerca da natureza da realidade; põe em causa as convicções morais e as nossas memórias. E ao fazê-lo não é incoerente, porque não afirma nada saber, mas antes que sabe uma e uma só coisa: que não se sabe tudo o resto que se julga saber.

A primeira dificuldade desta posição é um mero pormenor — mas na teorização os pormenores são muito importantes, podendo fazer a diferença entre uma boa e uma má teoria. A dificuldade é esta: como se conta conhecimentos? Esta pergunta é estranha, mas considere-se o seguinte: há coisas que se contam, e há coisas que não se contam. Tecnicamente, diz-se que as primeiras são discretas ou contáveis e as segundas contínuas ou não-contáveis. Por exemplo, as maçãs são contáveis, porque cada maçã é uma unidade. Uma dada quantidade de maçãs é composta por várias unidades, que se contam. Já a manteiga não é contável, porque não é composta por unidades. O que conta são porções de manteiga, o que contrasta com as maçãs, que se contam directamente, sem formar primeiro porções de maçãs. Este pormenor é importante porque o céptico afirma que só sabe uma coisa, o que pressupõe que os conhecimentos podem ser contados, como as maçãs. Mas se os conhecimentos podem ser contados, então o céptico não sabe só uma coisa, ao contrário do que afirma. Afinal, para cada crença que alguém tenha, o céptico assevera saber que não há justificação adequada para ela. Portanto, em rigor, o céptico sabe pelo menos tantas coisas quantas as que se crê que se sabe: sempre que alguém afirma saber algo, o céptico afirma saber que não há justificação adequada para essa crença.

Esta dificuldade não é muito significativa, mas sugere outra que o é — constituindo, aliás, uma ilusão cognitiva recorrente. Se o céptico não souber que é preciso haver justificação adequada para que haja conhecimento, nenhum dos seus raciocínios tem qualquer relevância. Os raciocínios cépticos põem em causa as justificações que se invoca a favor de qualquer crença. Mas isto só é relevante caso se aceite que sem justificação adequada não há conhecimento. Portanto, o céptico tem de aceitar esta tese filosófica quanto à relação entre a justificação e o conhecimento — não pode saber apenas que nada sabe. Para saber que nada sabe tem de saber, além disso, que sem justificações adequadas nada se sabe. Mas mesmo isto não basta. Se o céptico soubesse apenas que nada sabe e que sem justificação adequada nada se sabe, não saberia que os seus raciocínios são cogentes. Ora, se o céptico não souber que os seus raciocínios são cogentes, não saberá também que os outros não sabem o que julgam saber — pois isso é o que ele conclui com os seus raciocínios.

O cético pirrônico Sexto Empírico.

Em conclusão, o céptico professa saber apenas que nada sabe, mas isso é logicamente impossível. Isto porque ou o céptico sabe que sem justificação adequada não há conhecimento e que os seus raciocínios são cogentes, ou não o sabe. Se sabe qualquer destas coisas, então não sabe apenas que nada sabe. E se não sabe qualquer destas coisas, não sabe que nada sabe. Ora, se não sabe que nada sabe, também não sabe apenas que nada sabe. Logo, em qualquer caso, o céptico não sabe apenas que nada sabe.

Do mesmo modo que não se consegue escrever uma gramática da língua portuguesa sem usar uma qualquer língua — portuguesa ou outra qualquer — também não se consegue suspender de uma vez só todas as crenças para pô-las em causa, sem professar quaisquer crenças. A ilusão de que se consegue fazê-lo resulta do hábito de aceitar inúmeras crenças, sem reparar nelas, ao pôr outras crenças em causa. Por isso, não se repara que o céptico faz precisamente o mesmo: aceita inúmeras crenças ao pôr outras em causa. Foi isso que viu Bertrand Russell (1872-1970):

É claro que é possível que todas ou qualquer uma das nossas crenças possa estar errada, e consequentemente todas devem ser adoptadas com pelo menos um ligeiro elemento de dúvida. Mas não podemos ter razão para rejeitar uma crença excepto com base noutra crença qualquer. (Os Problemas da Filosofia, p. 87)

Assim, apesar de a lenda atribuir a Sócrates uma afirmação memorável, há fortes razões para pensar que nem ele nem ninguém pode saber apenas que nada sabe. Talvez devido a críticas deste género, o referido Sexto Empírico insistia em distinguir o cepticismo académico do seu próprio cepticismo, chamado pirrónico. Segundo Sexto, são os primeiros que caem na armadilha de afirmar algo — nomeadamente, que nada sabem. E são por isso vulneráveis a algo como a argumentação aqui apresentada contra eles. Sexto esforçou-se por explicar que não sabia que nada sabia; apenas lhe parecia, perante cada afirmação de hipotético conhecimento, que não era conhecimento genuíno. Deste modo, Sexto não afirmava nada saber, mas apenas que lhe parecia nada saber. Será que esta diferença bloqueia realmente o género de argumentação aqui apresentada contra o céptico? Esta é a pergunta que deixo ao leitor.

Desidério Murcho é filósofo, escritor e professor de Filosofia na Universidade Federal de Ouro Preto.  É autor, entre outros, de Filosofia Diretamente O Lugar da Lógica na FilosofiaEdita o site Crítica na Rede.

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