O fim da “espiral do silêncio” no Brasil

O fim da “espiral do silêncio” no Brasil

Em que medida os embates raivosos são sintoma da emergência de vozes que estavam silenciadas no debate público?

Estado da Arte

05 de abril de 2019 | 19h04

por Isabelle Anchieta

Há uma belicosidade no ar. Nenhuma agressão parece estar mais imune a uma reação de igual (ou maior) intensidade. Despidos, enfim, das roupas da civilidade estão os tupiniquins nus com os dentes à mostra! É o fim da cordialidade nacional? Ou estamos vendo a nossa outra face? Sim, não se pode negar: fomos canibais vingativos e, de certa forma, ainda somos. Mas o que mudou para ativarmos essa outra faceta violenta?

Ao que tudo indica, as pessoas, que até então silenciaram sobre temas delicados, resolveram levantar a voz. Foram quase 13 anos de escuta das pautas tidas como progressistas e a consolidação de um falso consenso nacional. Mas desde que o gigante acordou, em 2013, e se recusa a dormir, estamos percebendo que a aparente paz do país estava assentada em uma falsa premissa de acordo entre os brasileiros. E eles não são uma minoria, ou uma elite. Muito pelo contrário, acabam de eleger, com ampla vitória, um projeto político em curso no país. Com isso, emerge também uma democracia barulhenta e combativa, na medida em que oferece legitimidade aos que até então estavam calados.

As pessoas, que até então silenciaram sobre temas delicados, resolveram levantar a voz

Os temas tabus, como: o aborto, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, os direitos humanos (especialmente os destinados aos criminosos), as religiões, o ensino e mesmo a história nacional estão em xeque. O mais recente embate é sobre a ditadura militar. Tema que parecia ser unanimidade nacional e que é, agora, revisitado criticamente. Se por um lado não se pode negar as atrocidades do período; por outro, questiona-se (com razão), se os supostos defensores da democracia não estavam também defendendo uma ditadura de outra natureza, a do proletariado.  Um dos integrantes da guerrilha brasileira, o jornalista Fernando Gabeira, é categórico ao afirmar que não havia qualquer defesa da democracia naquele período e, sim, o desejo de instaurar uma ditadura de esquerda. Tais embates tornam ainda mais difícil a identificação dos bandidos e dos heróis nacionais e complexificam o nosso passado e o nosso presente. Mas como mantivemos a aparência de já termos fechado essa questão? Cicatrizado essa ferida?

Para explicar esse frágil consenso nacional recorro a cientista social  Noelle Neuman que desenvolveu  uma teoria que denominou de “espiral do silêncio”. Ele é “o resultado de um processo de espiral que incita os indivíduos a perceber as mudanças de opinião pública e segui-las até que uma opinião se estabelece como a atitude prevalecente, enquanto as outras opiniões são rejeitadas ou evitadas por todos, à exceção dos duros de espírito. Propus o termo espiral do silêncio para descrever este mecanismo psicológico”.

Um mecanismo que conta com um dos maiores temores humanos: o medo do isolamento, de não sermos aceitos e bem quistos em um grupo. Assim, para não dissoar e abrir um debate, silenciamos e seguimos o fluxo da maioria. Toqueville dizia algo similar.  Para ele, as pessoas “temem o isolamento, mais do que o erro, e acabam por compartilhar a opinião da maioria”.

Segundo Noelle Neuman, as pessoas são hábeis em perceber o que ela chama de “clima da opinião”. Em outras palavras, as pessoas prestam atenção a qual opinião vigora naquele grupo sobre temas centrais. Um clima que “depende de quem fala e de quem permanece em silêncio”. A opinião é sobretudo a “opinião que se faz pública”. Ou lembrando a máxima de Winston Churchill: “não existe opinião pública, há opinião publicada”.

Essa máxima não tem mais a mesma força nas sociedades das redes sociais. Mesmo a complexa formação social da espiral do silêncio parece ter seu ponto de quebra não só no Brasil, mas no mundo. São fatores visceralmente associados. As redes sociais revelaram que uma opinião dissonante não está isolada. O encontro com grupos de apoio nacionais e internacionais pode ter sido um dos motivadores da quebra do silêncio e da ruptura com o aparente consenso nacional. As pessoas tomaram coragem de expressar o que pensam e até mesmo os seus preconceitos,  já que não se sentem mais isoladas.

Algo mudou profundamente em nosso país. Eu me arriscaria a dizer que há uma mudança de mentalidade com efeitos duradouros em curso. Por isso, é preciso abrir os ouvidos e os olhos para esse canibal tupiniquim que habita em nós e que poderá nos devorar. A agressividade dessa descoberta pode ser transformadora ou destruidora.

Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP, mestre em Comunicação pela UFMG, premiada como Jovem Socióloga pela ISA/UNESCO.

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