Diário de um tradutor em São Petersburgo 8  – Personagens da história e da literatura

Diário de um tradutor em São Petersburgo 8  – Personagens da história e da literatura

26 a 29 de março de 2018.

Estado da Arte

30 Março 2018 | 12h00

por Flavio Quintale

Da Fortaleza de São Pedro e São Paulo tem-se umas das mais belas vistas de São Petersburgo. Da torre da igreja, Pedro, o Grande, observava as obras de construção da cidade. Ele, Catarina e muitos outros  Czares estão sepultados na igreja. Ivan IV, o Terrível, entre alguns, está na Catedral do Arcanjo, no Kremlin em Moscou. À direita do altar todo em ouro está a tumba de Pedro. Também recentemente foram sepultados lá toda a família de Nicolau II, o último Romanov no poder.

Na fortaleza está também o Bastião Trubestkoy, para onde eram levados os prisioneiros políticos. Durante o século XIX e até 1924 personagens importantes da história russa foram encarcerados no local. Os inúmeros rebeldes e anárquicos das constantes revoltas que marcaram a cidade durante todo o século XIX – entre 1918 e 1924 abrigou também os discidentes e inimigos da revolução bolchevique. Entre os prisioneiros ilustres, estão na lista Kropotin, Górki, Trótsky e Alexandr Ulianóv, irmão de Lênin. Quase todas as biografias de Lênin chamam a atenção sobre como o exemplo de Alexandr despertou no irmão mais novo o espírito revolucionário. Mas ao contrário de uma ação isolada, anárquica, como a de Alexandr, Lênin compreendeu que era preciso uma ação com certa organização e esperar o momento exato em que as circunstâncias favorecessem a revolução.

Fora do centro há ainda diversos lugares de interesse. Um dos eles é Cemitério Tikhvin, onde estão sepultados, entre outros, Kirilov, Karamazin, Rubinstein, Tchaikovsky e Dostoiévski. Todos eles muitos ligados à cidade. Outro local, é a Arena Zenit, estádio que sediará a Copa do Mundo de 2018. O estádio é coberto e aquecido. Oferece muito conforto aos telespectadores. Mas o ambiente de estádio de futebol fica bastante prejudicado. Tem-se a impressão de se assistir uma partida em um ginásio poliesportivo. Nem os quatros gols da vitória da França sobre a Rússia por 3 a 1 pareciam se tratar de gols em um jogo de futebol. O som da vibração do gol russo mais parecia a torcida feliz com uma bela cortada num jogo de vôlei do que a festa do gol, própria do futebol. Um belo estádio, mas o torcedor deve estar atento. O controle para ingressar é bastante longo e rigoroso. Quem planeja acompanhar a Copa na Rússia deve chegar com bastante antecedência ao local do jogo para não perder o início da partida. No caso de São Petersburgo, a estação de metrô mais próxima fica a meia hora do estádio. Meia hora de caminhada em bom ritmo.

“Carnaval Literário” – Na celebração anual do ‘Dia de Dostoiévski’, o autor de ‘Crime e Castigo’ lidera um ‘bloquinho’ pelas ruas de São Petersburgo acompanhado de outros gigantes da literatura russa: Púchkin, Gogol e, logo atrás, Daniil Kharms.

Ao redor da cidade, cerca de pouco mais de trinta minutos do centro, há três grandes palácios. Peterhof, Pavlovsk e Tsarskoe Selo. Todos com belos jardins. No inverno não se vê, claro, toda a beleza. Para o interessado em literatura, o mais importante deles é Tsarskoe Selo. Ao lado do palácio, está o museu do liceu onde estudou Púchkin, Griboiédov e vários decembricistas. O liceu foi fundando por Alexandre I em 1811 para educar os filhos dos nobres, formar a futura elite intelectual do país. Púchkin estudou nesse local entre 1811 e 1817. Visita-se as salas de aula, a biblioteca, os dormitórios dos alunos e demais cômodos. Próximo do liceu, passando pela estátua de Roman Bach em homenagem ao poeta, está a casa de campo, ????, de Púchkin. Funciona também um museu. Outro personagem ligado a Tsarskoe Selo é Akhmátova, que também viveu na cidade e tem poemas inspirados no local. Durante o período soviético Tsarskoe Selo chamava-se Púchkin.

Turguêniev, quando não estava no exterior, vivia em São Petersburgo. No MDT, teatro na rua Rubinstein, frequentado por Dovlátov na época que viveu na cidade, representou-se uma adaptação da novela Mumú de Turguêniev. É uma das histórias do autor, ao lado do romance Pais e Filhos, muito conhecida entre os russos por ser leitura obrigatória nas escolas. O protagonista surdo-mudo, junto com seu cão rebelde, Mumú, são das personagens mais carismásticas criadas por Turguêniev. O animal é capaz de revoltar-se contra a injustiça, dando uma lição de coragem aos humanos que se curvam diante do abuso de poder de seus superiores. Quando o cão, vivo, de carne e osso, entrou em cena causou frisson na platéia. Jan Brokken não aprecia Turguêniev. Mas, garimpando sua obra, encontra-se boas narrativas.

Brokken prefere Ossip Mandelstam. Escreve um dos capítulos mais memoráveis de Esplendor de São Petersburgo, narrando seu encontro com a mulher do poeta, autora de um impressionante livro de memórias. Outro escritor relacionado à cidade é Daniil Kharms. Não existe nenhum museu, mas há uma placa comemorativa dedicada a ele no prédio na esquina das ruas Kovensky e Maiakóvski. Foi onde ele viveu entre 1925 e 1941, quando foi preso por propaganda anti-soviética. Morreu na prisão durante o cerco de Leningrado. Kharms é conhecido por seus escritos absurdos e divertidos. Dovlátov, em suas anotações, diz que Kharms sempre dizia: “Meu número de telefone é muito fácil: 32 08. Trinta e dois dentes e oito dedos”. Kharms foi publicado no Brasil pela editora Kalinka.

O Teatro Alexandrinski, hoje recebe muitas apresentações de balé, direcionadas principalmente para turistas. Nele foi representado pela primeira vez O Revisor ou O Inspetor Geral de Gogol. Existe um museu dentro do teatro rememorando o acontecimento.

Há sempre alguma coisa relacionada a algum artista em São Petersburgo. Mesmo que a gente não saiba de tudo, de repente aprende.

Flavio Quintale é tradutor literário, bacharel em jornalismo e doutor em Letras pela USP e pela Universidade de Könstanz, Alemanha. Foi professor de Literatura Comparada na Universidade de Aachen, Alemanha. Atualmente, prepara a tradução de O esplendor de São Petersburgo de Jan Brokken para a Editora Âyiné.

 

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