Diário de um tradutor em São Petersburgo 5 – Intermezzo moscovita

Diário de um tradutor em São Petersburgo 5 – Intermezzo moscovita

Moscou, 16 a 18 de março.

Estado da Arte

20 Março 2018 | 12h00

por Flavio Quintale

Subo no trem para Moscou. Estou prestes a realizar a viagem mais comum e mais célebre entre os russos. Petersburgo – Moscou. A mais famosa é a Viagem de Petersburgo a Moscou de Radishchev publicada em 1790, um clássico pelo tema e pela importâcia histórica, mas um tanto enfadonha em alguns trechos para o leitor contemporâneo. A descrição das péssimas condições de vida das populações vivendo entre as duas grandes cidades rendeu-lhe o exílio na Sibéria. Púchkin escreveu a Viagem de Moscou a Petersburgo. Obra inacabada, em que faz comentários sobre o livro de Radishchev. Leitura prazerosa, como é comum nos textos de Púchkin.

A paisagem é monótona. Mais de 600 km de planície coberta de neve. Poucas paradas rápidas em cidades pequenas. Algumas delas parecem esquecidas, pouco cuidadas, como se houvesse um vácuo entre as duas grandes cidades. O trem não passa por Novgorod.

Em Moscou, desembarco na estação de Leningrado. Algumas horas depois, com frio intenso, estou na Praça Vermelha. Entrar pela primeira vez nessa praça, partindo da porta da Ressurreição e avistar pouco a pouco a Catedral de São Basílio com suas cúpulas coloridas ao fundo e os muros e a torre do relógio do Kremlin, é uma das experiêcias mais marcantes que um viajante pode ter na vida. O conjunto é realmente impressionante. Vários estilos em um mesmo lugar. Beleza incomum em meio quilomêtro de praça. Em vídeos de desfiles militares com todos aqueles tanques parece ainda maior do que é realmente. A fila para visitar o mausoléu de Lênin é longa. Um frio imenso. Controla-se os visitantes detalhadamente, como passageiros que vão embarcar no avião. Há policiais por toda parte. Vencida a longa  espera, caminha-se até o mausoléu. Guarda na porta. Guarda no hall. Avisos por todo lado. É proibido fotografar. Desço alguns degraus. Guarda. Viro à direita. Pouca luz. Guarda. Entro na sala onde está Lênin. Guarda. Subo alguns degraus. Olho Lênin. Iluminação em seu rosto. Calvo. Face embranquecida. Barba curta,  perfeitamente aparada. Baixa estatura. Veste terno escuro. Demoro-me. Um guarda se aproxima. Incomodado, ele me pede para avançar. Sigo. Guarda. Vejo Lênin pelo outro lado. Guarda. A fila aumenta atrás de mim. Devo seguir. Olho Lênin mais uma vez. Guarda. Avanço. Não vejo mais Lênin. Guarda. Caminho. Guarda. A memória retém Lênin. Embalsamado. Revolucionário transformado em boneco de cera. Condenado a não descansar em paz. Fizeram a mesma coisa com João XXIII no Vaticano. Destino menos trágico têm os bonecos do Madame Tussauds. Nadezda Krupskaja, mulher de Lênin se opôs. Não queria tal forma de idolatria. Desejava que ele fosse sepultado ao lado da mãe em Petrogardo. Jamais aceitou que seu corpo fosse usado como uma espécie de relíquia laica a ser adorada pelos cidadãos soviéticos. Mas foi voz vencida. Stálin tinha outros planos. Não teria Lênin, todas as noites, puxado-lhe os pés na cama e lhe comido o fígado? Maiakovski, poeta da Revolução,  escreveu um longo poema a Lênin por ocasião de sua morte em 1924. Os versos andam um tanto esquecido hoje em dia. Mas são extremamente interessantes. Emocionado, o poeta canta o valor fundamental de Lênin para a Revolução, mas teme que procissões e mausoléus desegradem a simplicidade de Lênin. O poema é um hino ao mentor da Revolução que se propunha eterna. Não imortal, posto que é chama. Infinita enquanto durou.

Atrás do mausoléu, túmulos. Breshnev. Outros. Por último, Stálin. Há flores bastante vivas sobre a tumba. Frescas. Algum admirador as deixou pouco tempo atrás. Stálin voltou a ser popular na Rússia. Tem-se regastado sua imagem com a ideia de que muitas das coisas que fez, ainda que reprováveis, eram necessárias para a Rússia ser grande. Não por acaso, as livrarias estão repletas de edições, para todos os gostos e bolsos, do Príncipe de Maquiavel. A livraria estatal, Casa do Livro, por exemplo, a maior de São Petersburgo, tem uma prateleira inteira dedicada ao florentino. Os fins justificam os meios. No domingo, o mesmo presidente foi eleito pela quarta vez. Três quartos dos votos. Mas parte dos russos não parece acreditar na seriedade do pleito. Muita gente compareceu para votar fantasiado. Teve de tudo. Um verdadeiro escárnio carnavalesco. Devem ter lido Bakhtin.

A memória do período soviético está muito mais viva em Moscou do que em São Petersburgo. Não apenas pela presença dos túmulos dos líderes bolcheviques. Em quase todas as estações do metrô vê-se uma enxurrada de foices, martelos, estrelas vermelhas, imagens de Lênin, Marx, bustos e estátuas. Há uma rede de restaurantes espalhados pelo centro de Moscou, “??????????”, com decoração, pôsters e objetos do período soviético. Em televisões exibem-se clássicos do cinema do período. As garçonetes vestem-se com uniforme escolar da época. A comida é boa e os preços honestos para Moscou, apesar das porções um tanto escassas para certos estômagos. Vivem lotados. E, em sua maioria, os clientes não são turistas estrangeiros. Volta-se no tempo nostálgica e romanticamente. Na hora de pagar, porém, as pessoas sacam cartões crédito.

Moscou também está repleta de museus de escritores. Herzen, Tolstói, Tchekhov, Biéli, Górki, Maikovski e Bulgakov, entre outros. Além disso, no cemitério do Convento de Novodevichiy estão sepultadas inúmeras personalidades da cultura russa. A lista é extensa e impressionante. Gogol, Tchaikovsky, Tchekhov, Makarenko, Maikovski e tantos mais. Demorei-me mais com Bulgakov. Não escondo. “Mestre e Margarida” é muito provavelmente o maior romance russo do século XX.  Recentemente ganhou nova tradução de Irineu Franco Perpetuo, publicado pela Editora 34. O museu Bulgakov na rua Bolshaya Sadovaya n. 10, além de expor objetos que pertenceram ao escritor, oferece muitas atividades culturais ligadas a Bulgakov. O grande prosador e dramaturgo russo do século XX morreu sem ver sua popularidade. É gigantesca. Seus personagens demoníacos são inesquecíveis. Maliciosos e divertidos. Um passeio pelo Largo do Patriarca é obrigatório para quem conhece o magistral primeiro capítulo de “Mestre e Margarida”. O diabo fala alemão, mas visita Moscou.

Moscou de Vassily Kandinsky (1916).

Talvez a melhor vista da cidade é sobre a plataforma do parque Zariadie construída recentemente sobre o rio Moscou. Imperdível. Avista-se desde a Praça Vermelha, passando pelo Kremlin e as cúpulas de suas igrejas, que valem a pena a visita, até os arranha-céus da Moscou City. Do outro lado, a arquitetura stalinista. Um resumo completo do que foi e do que é Moscou da Idade Média a nossos dias.

Moscou é imensa. Grandiosa. Inesquecível. Gente por toda parte. Fila em todo lugar. Mas é hora de partir quando a vontade e o dever mandam voltar. São Petersburgo. Empatia. Afeição. Jan Brokken não se engana. O esplendor é de São Petersburgo. Esplendorburgo.

Flavio Quintale é tradutor literário, bacharel em jornalismo e doutor em Letras pela USP e pela Universidade de Könstanz, Alemanha. Foi professor de Literatura Comparada na Universidade de Aachen, Alemanha.

Para saber mais:

Mais conteúdo sobre:

MoscouFlavio QuintaleJan Brokken