Diário de um tradutor em São Petersburgo 3: Teatros, Igrejas e Museus

Diário de um tradutor em São Petersburgo 3: Teatros, Igrejas e Museus

8 a 11 de março de 2018.

Estado da Arte

14 Março 2018 | 15h26

por Flavio Quintale

A literatura é levada a sério em São Petersburgo. Há inúmeros museus de escritores. Historicamente, ser escritor na Rússia pode dar cadeia, ostracismo, exílio e até sentença de morte. Incontáveis teatros, sempre lotados, agitam a vida cultural da cidade. Aproveitei para assistir a peça “Três irmãs” de Tchekhov, sob direção de Vladimir Pankov. Uma proposta diferente, usando três outras atrizes mais velhas funcionando como consciência das irmãs. Ficou muito interessante. Não por acaso, creio, encenaram a peça em um oito de março. A busca da felicidade para as três irmãs, cada uma a seu modo, é um fracasso. Jamais a encontram. Devem se resignar à banalidade da vida cotidiana. Típica lição do mestre do teatro russo. Tchekhov está mais associado a Moscou e ao sul da Rússia do que a São Petersburgo. Não há museu para ele aqui. Apenas um restaurante com seu nome, dos mesmos donos do Restaurante Gogol. Pura exploração turística. A memória de Tchekhov vive de modo mais intenso em São Petersburgo. Suas peças estão sempre em cartaz.

Petersburgo é inimaginável sem a Perspectiva Nevsky. “Não há nada melhor que a Perspectiva Nevsky, pelo menos em Petersburgo”, escreve Gogol nos Contos de Petersburgo. A Perspectiva ou Avenida Nevsky é onde tudo acontece. Por onde passa todo mundo. Não há como escapar. Pelo menos uma vez por dia cruzo em algum ponto dela. Comércio, restaurantes, hotéis, cinemas e turistas. No antigo prédio art noveau da Singer funciona a livraria Casa do Livro, Dom Kinigi, paraíso para todos os gostos. Romances, poesia, teatro, filosofia, história, idiomas. Livros para o grande público, mas também para o mais especializado. Arremato as obras completas de Dovlatov em quatro volumes e as correspondências entre Boris Pasternak e Marina Tsvetaeva. Do Café no primeiro andar tem-se um belíssimo panorama da Catedral de Kazan, miniatura da Basílica de São Pedro no Vaticano. Fiéis entram para venerar o ícone de Nossa Senhora de Kazan.

Bem perto da livraria, na rua junto ao canal Griboiedov, vê-se a Igreja do Salvador sob o Sangue Versado, a mais moscovita das igrejas do centro da cidade. É talvez a mais vistosa de todas. As cúpulas coloridas em formato cebola lembram mais bolas de sorvete. O conjunto assemelha-se a um bolo de festa. Todo mundo quer provar um pedaço. Desde a Revolução de Outubro funciona como museu. Ficou fechada entre 1978 e 1998 para restauração. Os mosaicos são a grande atração. Foi construída no local onde ocorreu o assassinato do Czar Alexandre II.

Vizinho à Igreja está o Museu Russo. Certamente o mais russo dos museus da cidade. Diferente do Hermitage, o mais parisiense de São Petersburgo. Abriga séculos de arte russa desde os ícones à arte moderna. Destaca-se a parte destinada as artes de vanguarda. Malevich, em particular. Jan Brokken dedica quase um capítulo inteiro ao autor do Quadrado negro sobre fundo branco, tela sobre a qual já muito se escreveu. Malevich quando indagado sobre o significado do quadro dizia simplesmente não querer dizer “nada”. A resposta é verdadeira, ainda que muita gente não se dê por satisfeita. Um “ícone vazio do nosso tempo”, escreveu em uma carta a um amigo. A ópera futurista Vitória sobre o sol  libreto de Kruchenykh, prólogo de Khlebnikov, música de Mikhaïl Matyujin e cenários de Malevich –  talvez ajude a compreender o significado desse “nada”, ícone do nosso tempo. No lugar dos ícones sagrados da tradição russa, aparece agora no centro do quadro de fundo de branco, um quadrado negro. Ícone do novo tempo, do novo homem. O sol não é mais um círculo dourado, rosácea que espelha toda a criação de um Deus reinante no centro, mas um sol quadrado e negro. Não há reis, nem reinos. Apenas um nada sem sentido. Simplesmente um “nada”. Crepúsculo dos ídolos. Brokken lembra que o quadro “se relaciona em senso mais profundo a uma longa tradição religiosa russa… os bolcheviques o abraçaram; com o quadrado negro ele havia sepultado a arte burguesa”. Há mais coisas no quadrado negro de Malevich do que creem as vãs filosofias.

Interior da Igreja do Salvador sob o Sangue Versado.

Próximo de lá está o museu dedicado a M. Zochtchenko. “Museu” é um exagero. Trata-se de um quarto e uma sala. O apartamento onde viveu o escritor. Talvez o maior autor satírico do período soviético. Traduzo um trecho do Livro Azul:

Vivemos na maravilhosa época que mudou nossa relação com o dinheiro. Vivemos em um estado onde as pessoas recebem dinheiro por seu trabalho, não por outra coisa. E como o dinheiro recebido tem outro significado e outra atribuição mais benevolente –  ele já não compra a honra e a glória.

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Stalin não apreciava suas ironias. Condenou-o ao silêncio e à solidão, sendo mal visto entre os escritores soviéticos alinhados, em particular depois de 1946. Faleceu em 1958.

Zochetchenko, ???????, autor de nome aparentemente impronunciável, é bom para o estudante estrangeiro de russo. Frases com estrutura simples e vocabulário acessível. Isso contribuiu também para sua popularidade na Rússia. A primeira fase do aprendizado do idioma russo é a do alfabeto. Quando assimilado, as letras esquisitas passam a fazer sentido e o que era um amontoado de símbolos torna-se algo legível. Em seguida, vem a assimilação do vocabulário básico e a conjugação dos verbos mais comuns. Quando o estudante acha que vai arrasar chegam os casos e as declinações. Nesse momento, muita gente abandona. A língua russa faz uma impiedosa seleção natural. Depois de árduas batalhas com o genitivo, apenas para não mencionar as lutas mais leves com os outros casos e as declinações do adjetivo e dos pronomes, o estudante imagina que a vitória está próxima. Mas eis que chegam os bombardeios dos aspectos do verbo e a artilharia de prefixos. Na lona, o estudante não tem nada mais a fazer a não ser comprar umas garrafas de vodka. Aprender uma língua é também ingerir sua cultura. Nunca Tolstói fez tanto sentido. Vai-se da guerra à paz.

Flavio Quintale é tradutor literário, bacharel em jornalismo e doutor em Letras pela USP e pela Universidade de Könstanz, Alemanha. Foi professor de Literatura Comparada na Universidade de Aachen, Alemanha

 

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