Diário de um Pároco de Aldeia: o escândalo da santidade

Diário de um Pároco de Aldeia: o escândalo da santidade

No segundo artigo do especial "Bernanos e o Cinema", o crítico Fabrício Tavares de Moraes analisa o universo do romance "Diário de um Pároco de Aldeia".

Estado da Arte

11 Agosto 2018 | 20h32

por Fabrício Tavares de Moraes

Hans Urs van Balthasar disse certa feita que a vida de cada santo, por mais esplêndida que seja, é simplesmente uma tentativa de viver-se à altura de um único verso das Escrituras. Alguns equivocadamente tomam isto como hipérbole, porém a frase torna-se perfeitamente razoável quando inserida de fato na moldura do pensamento desse teólogo, para quem Deus, homem e mundo participam todos, e a cada instante, de um drama divino.

E, de fato, as vidas de santos em geral nos são transmitidas (ou deveriam ser) não mediante cartilhas morais, mas por meio de narrativas que, a despeito de nossa aceitação ou repulsa, e por seu próprio dinamismo interno, apresentam-se como moldes para as personalidades de seus leitores – por exemplo, o clássico medieval A Legenda Áurea, que formou parte do imaginário medieval, e As Confissões, de Santo Agostinho.

Entretanto, qualquer tratamento acerca da santidade vê-se não só no dilema de que o santo jamais se confessa como tal, pois com isso obviamente incorreria no pecado da imodéstia, mas na dura percepção de que a representação do santo pressupõe também o cortejo das tentações e dos súcubos e íncubos que o atormentam – o que um Flaubert e Buñuel, de modo proposital, fizeram em suas obras As Tentações de Santo Antãoe Simão do Deserto, respectivamente.

À vista disso, Bernanos, em Diário de um Pároco de Aldeia, certamente não se lança a um trabalho hagiográfico, a um relato da santidade em seu aspecto pedagógico. A bem da verdade, diferentemente dos relatos patrísticos das virtudes e forças dos mártires, eremitas e santos – a chamada aretologia–, o escritor francês apresenta-nos um padre de saúde frágil, desconcertado e tímido, que como muitos de seus pares vê sua paróquia sendo corroída pelo tédio, que naquele universo é uma das piores espécies de diabolismo, pois decorre da negação individual, por parte dos habitantes de uma aldeia, de abertura ao propósito divino.

Esse lugarejo simples, ainda profundamente medieval, é afligido internamente pelo rancor de seus moradores, pela lubricidade que encontra terreno fértil na miséria, e que, nos extremos da deformação, leva mesmo crianças – a pequena Serafita – ao coquetismo e à malícia, quase numa antecipação de Mouchette.

Talvez o maior trunfo de Bernanos seja sua composição de um gênero que alguns críticos acertadamente designaram “realismo sobrenatural”, isto é, aquilo que, num primeiro momento, soa semelhante aos romances de costumes burgueses se vê subitamente fecundado por um feixe da transcendência que ilumina o destino até então confuso do homem. Além disso, suas composições, mesmo quando se focam nas circunstâncias aparentemente mais ordinárias, jamais se encerram no imanentismo; a razão para isso é o fato de que, conforme nos diz Edgar Godói da Mata-Machado, “uma leve auréola sobrenatural desprende-se de seus textos, nos quais a graça divina e o satanismo lutam permanentemente pela posse do espírito do homem”.

Portanto, a paróquia de Ambricourt, embora, como já dito, “devorada pelo tédio… como tantas outras paróquias”, é, no entanto, um eixo onde se trava esse conflito, como o próprio pároco percebe logo no início de seu diário: “o bem e o mal devem equilibrar-se numa paróquia, só que o centro de gravidade é colocado embaixo, muito embaixo. Ou, se se prefere, um e outro se sobrepõem, sem misturar-se, como dois líquidos de densidade diferente”.

Ao contrário do que se espera, não há terra santa, impoluta, em toda a narrativa de Bernanos, porque a todo momento o padre é confrontado pela esterilidade das almas, e até mesmo suas preces assemelham-se mais ao estertor do que à súplica. Mais do que o mistério, Bernanos apresenta-nos o escândalo da santidade. Numa das passagens mais relembradas do romance e também da adaptação cinematográfica de Bresson, o pároco indaga, súplice, ao cônego de la Motte Beuvron a razão da perseguição e oposição daquelas que supostamente são suas ovelhas:

 

– Enfim, exclamei, que fiz de mal, de que me censuram?

– De ser o que o senhor é; não há remédio para isso. Que quer, meu filho, essa gente não odeia sua simplicidade; defende-se dela: sua simplicidade é como um fogo que as queima. O senhor passeia pelo mundo, com seu pobre sorriso humilde que pede perdão, carregando uma tocha acesa, que toma, ao que parece, por um cajado de pastor.

A irrupção da graça na vida de um pobre pároco consumido por um câncer e completamente desfigurado pela impotência perante a fealdade das coisas que estão sob seu cuidado vê-se, pois, sitiada por toda sorte de oposição e questões insolúveis: o sofrimento quase atávico dos pobres, que legam a miséria para as futuras gerações; pequenos nobres decadentes porém altivos, que se encerraram em meio às ruínas morais de seu lar; e, permeando tudo isso, a existência insondável do mal.

De fato, esse é um dos leit-motifs da obra de Bernanos como um todo. Ora, se a Teofrasto indagava “de onde vem o mal?”, o escritor francês, especialmente nesta obra e em Sob o Sol de Satã, debruçou-se, por meio das reflexões do diário do padre e nas ações dos personagens, sobre a natureza do próprio mal. E neste ponto deparamo-nos com sua imensa dificuldade de qualquer intelecção, pois o mal “é, será sempre, apenas um esboço, o esboço de uma criação disforme, abortada, no extremo limite do ser”. Esse esforço de apreensão conduz não só o padre, mas a narrativa a uma atmosfera febril, a acessos de interrupção e à mutilação do próprio diário.

Porém, também a graça se mostra tão ou mais inescrutável que o pecado – ambos são estratos da realidade que se opõem em cada um de seus princípios: “O mundo do pecado está perante o mundo da graça, como uma paisagem perante sua própria imagem refletida em uma água negra e profunda. Há uma comunhão dos santos; há também uma comunhão dos pecadores”.

No entanto, essa bipartição, aos poucos erodido, desmorona logo após sua consulta com um jovem médico, quando flagra este dopando-se com morfina para alívio das dores de uma doença também fatal. Ali, perante a face de um moribundo (como ele), ao qual não se viu capaz de dirigir sequer uma palavra de consolo, o pároco percebe como a graça visita e portanto inunda a própria penúria humana. Pois aquele homem, um reflexo sombrio do próprio padre, e um dos poucos que se mostram compassivos para com seu sofrimento, fita-lhe com “uma expressão indefinível de surpresa, de compaixão”.

Repetindo, a seu modo, o périplo das figuras santas e trágicas, o pároco de Ambricourt, como o Quixote, é chamado de “triste figura” pelos garotos da aldeia, em razão de sua aparência enfermiça; e como Jesus Cristo, embora não acusado de glutão, é tachado de “bebedor de vinho” pelos aldeães; e assim o protagonista de Bernanos pouco tem de heroico, como queria Kierkegaard para seu “cavaleiro da fé”.

Isto porque o autor, a seu modo, contorna uma tentação que, conforme assinala em um dos diálogos da obra, sempre aflige os literatos, porque estes, “quando pretendem tocar na santidade, lambuzam-se de sublime, metem o sublime em toda a parte!”. Mas “a santidade não é sublime”.

Fabrício Tavares de Moraes é tradutor e doutor em Literatura (UFJF/Queen Mary University London)