Dez Mandamentos do Trabalho Acadêmico

Dez Mandamentos do Trabalho Acadêmico

Estado da Arte

30 Janeiro 2017 | 22h59

Por Heloisa Pait

Através de meu irmão, também colaborador deste blog, soube que sua universidade lançou neste ano os 4 volumes das “Diretrizes para Apresentação de Dissertações e Teses da USP”, totalizando 400 páginas. Encarei isso como desafio: seria possível elaborar as diretrizes na forma sintética inaugurada por Jeová & Moisés, amplamente citada em meios jurídicos e acadêmicos?

Minha sugestão para os Dez Mandamentos do Trabalho Acadêmico vai neste artigo. Não são ordenações positivas, por isso não está incluída a busca da verdade e outras razões da pesquisa, a exemplo dos mandamentos originais que apenas balizam nossa ação, sem determiná-la.

Acredito que as dez dicas abaixo ajudem os futuros cientistas a evitar as armadilhas no caminho do conhecimento. Mas, assim como Moisés, que quebrou as tábuas de lei e voltou para pegar novas no Monte Sinai, pode-se sempre elaborar novas versões ou, como é praxe entre as religiões monoteístas, rearranjar os mandamentos em outra ordem.

Não adorarás falsos mestres.

Não desprezarás a realidade nem desrespeitarás os que estudares.

Escreverás com clareza.

Não dirás coisas sem nexo.

Buscarás o que é novo e relevante.

Reconhecerás a ajuda que te ofertarem.

Não tomarás ideias de outros como tuas.

Não reproduzirás mentiras.

Não esconderás teus achados.

Não usarás o saber a teu favor.

 

O artigo poderia terminar aqui. E talvez devesse. Ofereço hesitante algumas explicações para as escolhas acima.

Uma futura pesquisadora dá seus primeiros passos nos caminhos do saber (Fonte: QuartzMedia)

Uma futura pesquisadora dá seus primeiros passos no labirinto do saber (Fonte: QuartzMedia)

1. Não adorarás falsos mestres.

É uma prática global, no Brasil reforçada por nossa cultura personalista. Flutuando entre a lealdade a Joca Ramiro e a Zé Bebelo, imortalizados por nosso brilhante João Guimarães Rosa, nossos acadêmicos se batem na defesa de um ou outro autor contra os jagunços do outro bando. Lembre sempre que nossos verdadeiros mestres desejam que continuemos sua busca do conhecimento e disso se orgulharão, mas não das batalhas fúteis em nosso sertão intelectual que porventura travemos.

2. Não desprezarás a realidade nem desrespeitarás os que estudares.

Tanto a realidade física quanto a vida das pessoas merece o respeito – e talvez a reverência, a perplexidade – do verdadeiro pesquisador. Que o mundo simplesmente seja o que é deve nos causar admiração e curiosidade; se você não sente isso, um outro trabalho mais apropriado o aguarda. Para capturar a realidade, faça uso da pluralidade de métodos de pesquisa disponíveis. Para respeitar quem você estuda, em primeiro lugar ouça-os, mas siga também os preceitos éticos da pesquisa formalizados em leis.

3. Escreverás com clareza.

A crítica mais brilhante à escrita confusa é, não por coincidência, de um dos grandes críticos do totalitarismo do século XX, George Orwell. A crítica mais engraçada é a de Odorico Paraguassu. Perigosa ou ridícula, a escrita confusa atrapalha principalmente o pesquisador, que não consegue em seu próprio texto encontrar o objeto ou a questão da pesquisa, e menos ainda ele mesmo. Deixe essa prática de lado e sinta o prazer da escrita clara e expressiva.

4. Não dirás coisas sem nexo.

Disseram A; eu verifiquei B; logo C. Muitas teses têm essa estrutura. Explique seu raciocínio para orientadores, colegas, familiares, irmãos mais novos e alunos. Se não fizer sentido, mude a estrutura da tese: sua pesquisa deve responder a uma pergunta e sua conclusão deve vir desta pesquisa. Se sua pesquisa não comprova as teses de Joca Ramiro, apenas diga, sem culpa: as ideias do chefe dos jagunços não se aplicam a esse caso. Lembre que seu compromisso é com a busca da verdade e a lógica é sua escada nessa busca; quanto mais sólida, menos a chance de você se esborrachar.

5. Buscarás o que é novo e relevante.

O que você vai pesquisar, e por que vai fazê-lo, é algo que diz respeito a você e a seu orientador, com seus valores e objetivos. Mas não vale requentar o que outros já fizeram (apenas dê retweet) ou o que simplesmente não tem importância alguma. Pergunte-se: o que se sabe hoje que não se sabia quando comecei essa pesquisa? A clareza a respeito deste hiato o ajudará nas próximas pesquisas.

6. Reconhecerás a ajuda que te ofertarem.

Os sábios que vieram antes de nós – sua tese fica melhor se você, de coração, reconhecer o quanto deve a eles. Aproveite e reconheça também os colegas que o ajudaram, um comentário esclarecedor que ouvir de um entrevistado, experiências variadas que podem ter sido relevantes. A tese é um nó na grande teia do conhecimento. Explique ao leitor, e também a si mesmo, como ela se insere nesta teia, nesse diálogo interminável de idéias. Entendendo isso, fazer as citações e agradecimentos fica fácil.

7. Não tomarás idéias de outros como tuas.

É o plágio. Nem pense. O estrago que isto faz nas relações acadêmicas, baseadas na confiança e na colaboração, é brutal.

8. Não reproduzirás mentiras.

Seguindo a ABNT, você pode reproduzir qualquer coisa. SQN. Você não pode citar como verdadeiras ideias e pesquisas que você acredita estarem erradas ou serem antiéticas, mesmo que estejam publicadas. Há uma quantidade assustadora de artigos que demonizam grupos humanos ou propõem revisionismos históricos ignorando a base factual. Cite como fonte apenas aquilo que você leu e reconhece como legítimo; o resto é só objeto de estudo sobre o esgarçamento da ética na pesquisa e suas consequências.

9. Não esconderás teus achados.

A pesquisa faz sentido se aumentar o conhecimento humano, se potencialmente ajudar a vida humana em seus aspectos práticos ou simbólicos. Quanto do seu tempo você dedicará à divulgação do seu trabalho e de que forma o fará é uma decisão sua; mas não o esconda. Respeitando contratos firmados e privacidade acordada, seja generoso, dando entrevistas e palestras e publicando de forma livre.

10. Não usarás o saber a teu favor.

Não faça do conhecimento uma arma; a vítima pode ser você. Não use seu conhecimento a favor de seu grupo acadêmico, para manter seu prestígio pessoal ou regalias profissionais. Competição e vaidade são naturais, mas trapaças não. Lute por suas ideias na arena pública e se engaje no debate sem rancor. Não use o saber para defender propostas cuja aplicação fará da vida de seus semelhantes um inferno; as palavras têm peso e seus leitores podem levar à sério o que você defendeu. Principalmente, nunca use o conhecimento contra um grupo humano; a experiência dos intelectuais que o fizeram é deprimente.

Heloisa Pait é socióloga e professora da UNESP.

Mais conteúdo sobre:

USPtrabalho acadêmicoEstado da Arte