Deus não existe, e nem tudo é permitido: Leopardi e uma ética sem Deus

Deus não existe, e nem tudo é permitido: Leopardi e uma ética sem Deus

A ideia de um dever de todos para com todos radica na crença de que Deus nos criou iguais. O poema "A giesta" aponta também para um igualitarismo constitutivo de todos, mas de outra maneira: somos iguais no nosso não-sentido.

Estado da Arte

10 Março 2018 | 11h00

por Rodrigo de Lemos

Giacomo Leopardi em seu leito de morte (Nápoles, 1837).

A descoberta fortuita de Pompeia em 1748 contribuiu a suscitar a moda neoclássica e o gosto pelas ruínas característicos do fim do século XVIII. Mais tarde, no auge do Romantismo, Pompeia inspiraria ao grande enfermo que foi Giacomo Leopardi pensamentos bem mais graves, expressos no magnífico poema “A giesta, ou a flor do deserto” (1836). Estamos aí de pleno no sublime kantiano: contemplando a silhueta gigantesca e intimidante do Vesúvio a lançar sombras sobre a baía de Nápoles, o poeta lembra o antigo desastre de Pompeia e de Herculano, avassaladas pela sanha do vulcão “exterminador” e “formidável”, e reflete sobre a fragilidade da criatura humana, sobre a vaidade de suas pretensões. A imensidão e a selvageria da natureza se fazem reflexos de um sentimento moral e revelam, à mente cultivada, um aspecto da realidade humana. A giesta (la ginestra) evocada no título é a “flor gentil” que nasce nos terrenos cobertos de lava em redor do Vesúvio (il deserto). Ela abre o poema, disparando por associação a recordação da tragédia de Pompeia e propiciando a longa meditação de Leopardi. Ela fecha o poema, como exemplo de uma humildade quanto à morte, de uma sabedoria do nada que os homens não raro cultivam.

Sic transit gloria mundi; a sorte de Pompeia e Herculano ilustra a transitoriedade das grandezas humanas, de que o exemplo maior, na literatura ocidental, é Roma. O que desperta em Leopardi a memória de suas glórias passadas são menos os campos de batalha onde se selou a grandeza do império entre os impérios do que o campo em que seu poderio nada pôde contra a força brutal da natureza e em que o gênero humano se curvou a um destino imutável. Onde ora cresce a giesta já se encontraram outrora “jardins e palácios/ ao ócio dos poderosos/ ameno asilo; e houve egrégias cidades”.

Leopardi lança um convite amargo: que vá àquelas plagas o otimista do seu tempo, o que “de exaltar com laudas/ o nosso estado tem o hábito”. Ele contemplará no que se torna “o gênero nosso sob os cuidados/ da natureza amante”. A natureza é a “dura ama” que com um “leve movimento” (e o que foi a erupção do Vesúvio na temporalidade geológica se não um leve movimento?) destrói sem perdão uma rica cidade como Pompeia, que aniquila o mundo humano com seus “jardins e palácios” aparentemente os mais sólidos. Com a mesma indiferença, a natureza soterra um formigueiro, “das formigas um doce albergue”, pela insignificante queda de um “pequeno fruto” de um galho e ceifa vidas humanas aos milhares por “uma onda do mar agitado” ou um “um desmoronamento subterrâneo”. Que vão ao deserto habitado pela giesta os crentes na “magnífica fortuna e progressiva” dos homens; espera-os uma lição de nosso nada inexorável.

Esse convite é também uma declaração de inimizade. Leopardi tem seu tempo de certeza romântica no progresso por um “século estúpido e insensato”, pelo qual ele cultiva um “desprezo tanto quanto se possa aberto”. A estupidez do século é a estupidez da má-fé. Desgosta aos seus contemporâneos “a verdade/ da áspera sina e do lugar rebaixado/ que a natureza nos deu”. A reação dos homens do progresso é a de “dar as costas” à luz que os faz ver tais coisas, difamando aqueles que as lembram e louvando somente quem “eleva a condição dos mortais sobre as estrelas”. A fraqueza de não ver o que se vê, de não assumir o que a consciência revela; isso é o que infla o otimismo do progressismo romântico a um “fétido orgulho”, à certeza falsa que leva aquele que “nasceu para morrer” a dizer: “Fui feito para o gozo”. Como Leopardi explica famosamente no seu Zibaldone:

O homem (e como todos os outros animais) não nasce para gozar a vida, mas somente para perpetuar a vida, para comunicá-la aos outros que o sucedem, para conservá-la. . . . O verdadeiro e único fim da natureza é a conservação da espécie e não a conservação da felicidade dos indivíduos.

Sob esse naturalismo pessimista e algo esquemático, está uma crítica acerba àquela ética da felicidade que caracterizou parte do pensamento das Luzes no século anterior e que o progressismo dos anos 1830 sonhou erigir em projeto coletivo.

Há os que tornam as costas, e há os que buscam sustentar a visão insustentável do que somos. Esses são como um pobre de compleição medíocre que não esconde a sua débil condição ostentando falsa riqueza ou galhardia, mas “nomeia abertamente” seus males. São as “nobres naturezas” que vislumbram “a sina comum” que é a nossa insignificância diante do mundo. Eles “com franca língua/ nada ao ver traindo/ confessam o mal que nos foi dado em lote/ e o estado baixo e frágil”. Ao nomear nossa miséria, elas permitem no mesmo gesto nomear nosso opositor: a natureza, nossa “inimiga”.

Depois da crise que o fez deixar o palacete natal em que se dedicava aos estudos clássicos, sabemos que Leopardi livrou-se à leitura dos autores modernos, dentre os quais Pascal. Ouvimos em “A giesta” o eco do silêncio eterno dos espaços infinitos que aterrorizava o autor francês: Leopardi eleva o olhar aos céus e só vê uma infinitude glacial, em que a terra “onde o homem é nada” e em que mesmo o sol e os planetas que temos por imensos são para outras estrelas como a névoa que elas mesmas parecem ser para nós. Nada, no entanto, é mais diverso de Leopardi do que aquele chamado desesperado à crença que levou ao autor dos Pensamentos a lamentar a miséria do homem sem Deus (título de um dos seus capítulos). A “social cadeia” que liga a todos contra a inimiga universal que é a natureza (eco de Rousseau?) funda uma ética. Livre das ilusões do progressismo, pode se desenvolver o pensamento, “única coisa pela qual ressurgimos/ em parte da barbárie, e somente pela qual/ se cresce em civilidade” Estamos na época em que a Itália aspira a seu ressurgimento como Estado unificado, e a palavra civilidade remete à retomada de uma vida cívica, de uma vida na cidade segundo o modelo da Antiguidade, mas sobretudo à reforma de um ser homem entre os homens. Como?

Mais que tudo, a designação do inimigo comum na natureza permite uma nova irmandade entre os homens – uma irmandade dos desesperados, se poderia dizer, um abraço de afogados que não salva a nenhum da submersão, mas que evita ao menos a luta bárbara em que todos se afogam mutuamente na ânsia de salvar-se somente a si. O homem consciente do seu nada e da indiferença da natureza “nem os ódios e nem as iras/ fraternas, ainda mais graves/ que qualquer outro dano, acresce/ às suas misérias, culpando os homens/ pela sua dor, mas dá culpa àquela/ que é realmente ré, que dos mortais/ mãe é pelo parto e no querer é madrinha”. Na “guerra comum” contra a madrinha Natura, somos todos “guerreiros” que não devem “espalhar a fuga” entre os nossos companheiros de hoste nem os “golpear com o gládio”. Não ajuntar aos males inerentes à minha condição e à dos outros ainda outros males da minha própria feitura, eis toda uma ética para uma nova vida cívica e civilizada que desejam os italianos daquele tempo, em que o “conversar citadino” será fundado “em parte no verdadeiro saber” e em que “a justiça e a piedade outras raízes/ terão que não delírios soberbos”.

O que seriam esses delírios soberbos? Já vimos que eles correspondem em parte à religião do progresso. Por certo, eles também podem remeter à religião tout court – à crença de que, de alguma forma ou por alguma vontade transcendente, somos privilegiados em meio ao cenário hostil que nos cerca, que nosso nada é redimido por uma intenção presidindo à nossa criação e ao nosso salvamento. Deus é o grande ausente da meditação de Leopardi – e, por isso mesmo, Ele é o grande acusado. O romantismo progressista não teria apenas transcrito na imanência da História as certezas otimistas (e insensatas?) quanto ao destino humano que o cristianismo projetava para fora dela?

Bem entendido, a ausência de Deus em “A giesta” não é tão-somente seu ato de acusação por Leopardi; ela significa, também, sua obsolescência moral. A ideia de um dever de todos para com todos radica tradicionalmente na crença de que Deus nos criou iguais. Todos seríamos portadores de um mesmo sentido a Seu respeito. Leopardi aponta também para um igualitarismo constitutivo de todos os homens, mas de outra maneira: somos todos iguais no nosso não-sentido. E é exatamente dessa igualdade no absurdo que pode surgir um senso de dever recíproco e mesmo de uma (sempre precária) felicidade pública. Nossa fraternidade viria de não provirmos de Pai algum, mas de nos dirigirmos a um mesmo destino e de termos as mesmas forças hostis e indiferentes contra nós. Opondo-se aos mesmos profetas do progresso denunciados pelo italiano, Dostoievski escreverá, algumas décadas mais tarde, uma frase que se tornaria adágio do conservadorismo cristão ao postular que a inexistência de Deus permitiria qualquer descalabro. Talvez Leopardi respondesse que os delírios soberbos feitos em Seu nome não redundaram em descalabros menores, e que há margens para discutir um Bem a partir da constatação da sua ausência. As misérias do homem sem Deus são inegáveis. Mas elas são comuns, e quem sabe a base possível de alguma possível comunidade.

Rodrigo de Lemos é professor na UFCSPA (RS) e doutor em Literatura pela UFRGS.

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