David Hume: “Da escrita de ensaios”

David Hume: “Da escrita de ensaios”

O Estado da Arte publica a tradução de Bruna Frascolla, doutora em Filosofia pela UFBA e pesquisadora do departamento de Filosofia da Unicamp, para o ensaio do filósofo escocês David Hume (1711-1776), "Da escrita de ensaios".

Estado da Arte

05 Junho 2018 | 17h34

A parte elegante da humanidade, que não está imersa na vida animal e se emprega nas operações da mente, pode ser dividida entre os estudados e os conversadores. Os estudados são os que escolheram para seu quinhão as mais elevadas e difíceis operações da mente, o que requer vagar e solidão, e não se pode levar à perfeição sem longo preparo e trabalho severo. O mundo conversador alia a certa disposição social e a certo gosto pelo prazer uma inclinação pelos mais fáceis e suaves exercícios do entendimento, pelas reflexões óbvias acerca dos assuntos humanos e dos deveres da vida comum, e pela observação das falhas e perfeições dos objetos particulares que o rodeia. Tais objetos de pensamento jamais fornecem emprego suficiente na solidão, senão requerem a companhia e a conversa das nossas criaturas irmãs para torná-los um exercício adequado para a mente: e isto une a humanidade em sociedade, onde cada um expõe os próprios pensamentos e observações da melhor maneira que conseguir, e mutuamente dá e recebe informações, bem como prazer.

A separação dos estudados do mundo conversador parece ter sido o grande defeito da última era[1], e decerto teve influência péssima tanto nos livros como na companhia: pois que possibilidade há de encontrarmos para a conversa tópicos adequados ao entretenimento de criaturas racionais sem ter recurso ora à história, ora à poesia, à política, e ao menos aos princípios mais óbvios de filosofia? Todo o nosso discurso terá de ser um contínuo de fofocas e entretenimentos vãos? A mente nunca se alçará a mais alto do que o perpétuo

 

Stun’d and worn with endless chat

Of Will did this, and Nan said that?[2]

Isto seria transformar o tempo em companhia no que menos entretém, bem como na parte menos aproveitável de nossas vidas.

Por outro lado, os estudos foram os grandes perdedores ao serem encerrados em universidades e celas, e apartados do mundo e da boa companhia. Por meio disto, tudo o que chamamos de belas letras tornou-se inteiramente bárbaro ao ser cultivado por homens sem nenhum gosto pela vida nem modos, e sem aquela liberdade e facilidade de pensamento e expressão que só se podem adquirir através da conversa. Até a filosofia foi a pique com tal método de estudo deprimido e recluso, e tornou-se tão quimérica em suas conclusões que ficou ininteligível no estilo e na maneira de proferir. Mas, de fato, o que poderíamos esperar de homens que nunca consultaram a experiência que só se pode encontrar na vida comum e na conversa?

É com imenso prazer que observo que os homens de letras nesta era perderam, em grande medida, aquela timidez e acanhamento que os mantinham à distância da humanidade; e, ao mesmo tempo, que os homens do mundo estão orgulhosos de tomarem de empréstimo nos livros os seus mais agradáveis tópicos para conversa. É de esperar que esta liga entre o mundo estudado e o conversador, que já começou com tanta felicidade, seja mais aprimorada para a vantagem mútua; e, para este fim, nada conheço de mais vantajoso do que os ensaios, tais como estes com que tento entreter o público. Nessa perspectiva, não posso senão me considerar uma espécie de residente ou embaixador dos domínios dos Estudos para os da Conversa, e terei como dever constante promover uma boa correspondência entre os dois Estados, que têm dependência tão grande um do outro. Hei de dar aos estudados a inteligência do que quer que se passe em companhia, e hei de tentar importar para a companhia quaisquer  mercadorias que eu encontrar em meu país nativo propício ao seu uso e entretenimento. Da balança comercial não precisamos ter ciúmes, tampouco haverá dificuldades em preservá-la em ambos os lados. Os materiais deste comércio têm de ser fornecidos sobretudo pela conversa e pela vida comum; manufaturá-los cabe só aos estudos.

Qual seria negligência imperdoável de um embaixador não saudar o soberano do Estado aonde fora enviado para residir, tal seria de todo imperdoável eu não me dirigir com uma saudação ao belo sexo, que é o soberano no Império da Conversa.[3]Delas me aproximo com reverência; e, não fossem os meus compatriotas, os estudados, uma raça de mortais teimosos e independentes, extremamente enciumados da própria liberdade e desacostumados à sujeição, eu entregaria às suas belas mãos a soberana autoridade sobre a República das Letras. Do jeito que o caso está, minha comissão não vai além de desejar uma liga ofensiva e defensiva contra os nossos inimigos comuns: contra os inimigos da razão e da beleza, gente de cabeça opaca e corações frios. Doravante, persigamo-los com a vingança mais severa. Não deixemos espaço senão para os que têm entendimento são e afecções delicadas – e deve-se presumir que estes caracteres mostrar-se-ão sempre inseparáveis.

Para ser sério, e deixar a metáfora antes que fique batida, sou da opinião de que as mulheres de senso e educação (pois só a tais me endereço) são juízas melhores de todo escrito polido do que homens com o mesmo grau de entendimento; e é bobagem elas temerem o ridículo comum levantado contra damas estudadas a ponto de abandonarem todo tipo de livro e estudo, deixando-os para o nosso sexo. Que o pavor desse ridículo não tenha outro efeito senão o de fazê-las esconder dos tolos o seu conhecimento, pois não são dignos nem delas, nem dele. Os tolos continuarão presunçosos, com o vão título do sexo masculino, a afetar superioridade sobre elas – mas minhas belas leitoras podem ter certeza de que todos os homens de senso, que conhecem o mundo, têm grande deferência por seu juízo dos livros que estejam dentro do alcance do seu conhecimento, e confiam mais na delicadeza de seu gosto, mesmo que não seja guiado por regras, do que nos trabalhos opacos de pedantes e comentadores. Em certa nação avizinhada, igualmente famosa por bom gosto e cavalheirismo, as damas de certo modo são soberanas do mundo estudado, bem como do conversador; e nenhum escritor polido pretende se lançar ao público sem a aprovação dalgumas célebres juízas desse sexo. De fato, às vezes se queixam de seu veredito; e, em particular, noto que os admiradores de Corneille, para salvar a honra do poeta da ascendência que Racine começou a tomar dele, sempre disseram que não se deveria esperar que um homem tão velho pudesse disputar o prêmio ante tais juízas tendo um homem tão jovem como rival. Mas esta observação revelou-se injusta, pois a posteridade parece ter ratificado o veredito daquele tribunal: e Racine, mesmo morto, ainda é o favorito do belo sexo, bem como dos melhores juízes dentre os homens.

Há um único assunto em que tendo a desconfiar dos juízos das mulheres, que é acerca de livros de galanteio e devoção, os quais têm pelos mais altamente elevados; e a maioria delas parece mais deliciada com o calor do que com a justeza da paixão. Menciono galanteio e devoção como o mesmo assunto porque, na verdade, tornam-se o mesmo ao serem tratados dessa maneira, e podemos notar que ambos dependem da mesmíssima compleição. Como o belo sexo tem um grande quinhão da disposição tenra e amorosa, isso perverte seu juízo a este respeito e as faz facilmente afetadas até pelo que não tem propriedade na expressão, nem naturalidade no sentimento. Os elegantes discursos de religião do Sr. Addison não lhes dão nenhum prazer, comparados aos livros de devoção mística; e as tragédias de Otway são preteridas em face dos rompantes de do Sr. Dryden.

Se as damas corrigissem seu falso gosto neste particular! Que se acostumem um pouco mais aos livros de todos os tipos; que encorajem homens de senso e conhecimento a frequentar sua companhia: e, por último, que de coração concorram para aquela união que projetei entre os mundos estudado e conversador. Poderão, talvez, encontrar mais complacência da parte dos seus seguidores usuais do que dos homens de estudo; mas nunca poderão esperar afeição tão sincera – e, espero, jamais cairão em escolha tão errada como sacrificar a substância às sombras.

Tradução: Bruna Frascolla, doutora em Filosofia pela UFBA, atualmente pesquisadora colaboradora da Unicamp, tradutora dos Diálogos sobre a religião natural, de David Hume (Edufba, 2016).

[1]    Hume se refere à era medieval na Europa feudal, além dos Pireneus.

[2]    “Aturdido e exausto com um papo sem fim/ De Will fez isso e Nan disse aquilo?” Estes versos são de autoria não identificada. Segundo o editor Eugene Miller, pares de versos octossílabos, como este, eram típicos de poemas satíricos hudibrásticos, comuns à época.

[3]    Na França iluminista, os salões de damas nobres eram o habitatdos filósofos.

 

Mais conteúdo sobre:

David HumeensaioBruna Frascolla