“Danton, o Processo da Revolução”: A tentação do bem no cinema de Wajda

“Danton, o Processo da Revolução”: A tentação do bem no cinema de Wajda

Para Wajda, começa aí a sua desilusão com a revolução, porque não há possibilidade de criação artística sem liberdade. O cinema de Wajda é a defesa intransigente da arte de exprimir a própria liberdade de expressão.

Estado da Arte

22 de setembro de 2017 | 12h36

Gerard Dépardieu como Danton no filme de Wajda: “a revolução devora seus filhos”.

Por Jeffis Carvalho

Qualquer artista, como indivíduo sensível que é, e em virtude de sua experiência, vê-se quase sempre na urgência de ser anti-establishment. Afinal, o establishment fala em termos de poder, é pompa e circunstância,  não tem ideologia – capitalista, de esquerda ou de outra forma.  Torna-se imperativo  que um ser criativo seja cerceado em sua liberdade de expressão quando está sob as ordens do Estado, simplesmente porque o Estado quer uma versão da verdade que se adapte à sua própria finalidade.  É essa a fonte do cinema de Andrzej Wajda. As experiências pessoais da Segunda Guerra Mundial, e a vivência sob a tirania nazista,  deixam Wajda desiludido com a guerra. Como os grandes mestres, os filmes de Wajda não têm heróis no molde dos opulentos filmes ocidentais de Hollywood. Para Wajda, não há glórias individuais na guerra, apenas uma tristeza coletiva para qualquer lado em que você esteja.  Finda a guerra, Wajda e sua Polônia natal vivem a revolução comunista e, então, a arte fica sujeita aos interesses do Estado. Para o cineasta começa aí a sua desilusão com a revolução, porque não há possibilidade de criação artística sem liberdade. O cinema de Wajda é a defesa intransigente da arte de exprimir a própria liberdade de expressão.

É sob o signo dessa defesa que Andrzej Wajda cria Danton, O Processo da Revolução, de 1983. No original francês,  o filme chama-se apenas Danton, o sobrenome de um dos mais emblemáticos líderes da Revolução Francesa. Mas num raro caso de feliz batismo em português, o subtítulo “o processo da revolução”  funciona de forma exemplar para sintetizar a proposta de Wajda. Menos um painel histórico sobre os eventos revolucionários que mudaram a França e fundaram a política moderna, o filme é antes uma profunda reflexão sobre um processo que ambiciona regenerar o ser humano. Em outras palavras, Wajda põe foco naquelas dias do Terror com os olhos de quem vive, então,  sob a opressão totalitária da geração de uma nova sociedade, de um novo homem e tudo que essa ideia traz de terrível.

Estamos em 1794, Ano II da República. É primavera e o processo da revolução vive o Terror de Robespierre. Retorna a Paris o outro grande líder que se afastara: Danton. O filme busca a sua síntese no embate – de ideias, de visões, de comportamentos e de desejos – desses dois personagens.  Baseado na peça da dramaturga polonesa  Stanislawa Przybyszewska, o filme tem roteiro de Jean Claude Carrière. Nas ruas de Paris e nos interiores históricos, o texto de 1931 assume a vida e a verdade. No papel de Danton está  Gerard Depardieu, no auge de sua aparência rústica, proletária, e quase insuperável em papéis “em que as emoções de alta voltagem  precisam de algum tipo de aterramento”, como destacou o crítico Roger Ebert, que acrescenta; “ele faz seus discursos de voz rouca e idealista ao senado como um treinador de futebol no meio tempo”. O grande ator polonês Wojciech Pszoniak interpreta Robespierre e lhe confere uma humanidade – um asceta hipocondríaco, perfeccionista com mania de ordem, limpeza e controle – o que o torna ainda mais monstruoso. O olhar de Wajda sobre o  personagem lhe confere, assim, o que o filósofo espanhol Juan Antonio Rivera, em seus ensaios sobre filosofia e cinema, conclui sobre a devoção estética que acomete o perfeccionista. Diz ele, que “essa pressão estética ocorre também com os criadores de utopias coletivas: essa pessoas não somente sentem um afã moral por alcançar um mundo melhor, mas também um entusiasmo puramente estético por criar uma sociedade bela. E está claro que essa  paixão estética se harmoniza mal com as convenções, com a renúncia ou mera  resignação a se conformar com conquistas interiores. A  busca implacável e obsessiva da beleza moral, seja no campo individual ou no coletivo, é um sonho da razão que acaba na maioria das vezes criando monstros e monstruosidades. É o perigo da tentação do bem”.

Já Danton, na visão de Wajda, é o oposto, e Depardieu compreende isso muito bem. Ele  é volumoso, descuidado, bombástico e corrupto – um homem que adora comer, beber e viver em luxo. Ele já apoiou a execução dos Girondinos moderados, mas temperou suas posições políticas e agora quer proporcionar uma vida normal para as pessoas. Ele afirma: “Prefiro ser executado do que ser um executor”. Um tanto anárquico, no filme, Danton quer colocar freios no terror porque sabe que a luta é mesmo por melhores condições de vida para os franceses, muto mais do que implantar uma nova concepção de mundo. Nesse sentido ele é pragmático e Robespierre idealista. Um quer a vida possível; o outro deseja a vida idealizada, pensada… totalitária. A relação com a Polônia de Wajda no início da década de 1980 não terá, então, sido mera coincidência. Wajda não esquematiza Danton como Lech Walesa e nem Robespierre como o general Jaruzelski, como muita gente criticou prematuramente quando o filme foi lançado. Seu olhar sobre aqueles dias da Revolução Francesa é muito mais sofisticado. O que lhe interessa são pontos de similaridade conceitual dos processos totalitários e não caricaturas políticas, mesmo ele sendo obrigado a filmar na França porque seu país está sob Lei Marcial desde dezembro de 1981.

Esteticamente, esse olhar contemporâneo sobre o final  do século XVIII – e suas possíveis similaridades –, se dá principalmente por recursos que vão além do tratamento visual da narrativa. Wajda concebe Danton  de forma realista, com pouca estilização ou virtuosismo de câmera ou da montagem. Pode-se argumentar que o cineasta trabalhou com limitações de orçamento, mas o realismo é resultado da decisão de Wajda em criar um drama mais íntímo para falar de questões políticas que afetam o coletivo. Nesse sentido, optou por falar do particular ambicionando atingir o geral, e obteve sucesso. Afinal, o que faz a história, mais do que processos, são as pessoas, razão e consequência. O olhar do século XX sobre a primavera de 1794 se dá por meio da música. A trilha sonora do compositor francês Jean Prodromides não guarda nenhuma relação com a música daquele período. Pelo contrário, parece ter saído diretamente da obra do polonês Witold Lutoslawski (1913-1994), um dos grandes nomes da música do século XX.

Volto a Roger Ebert: “A câmera de Wajda se move através do Paris do século XVIII com completa familiaridade. Ele enche a cidade com os pobres, com pessoas da rua, com criminosos e prostitutas e chatas inflamadas, e sempre há a sensação de que essas multidões pressionam de fora para ecoar no Senado. E,  então,  ele mostra Danton e Robespierre, cada um perfeitamente consciente dos motivos do outro e da possibilidade constante da guilhotina, conduzindo um duelo intelectual.” A música de Prodromides acentua, comenta, pontua e embala o embate – tanto nas curtas cenas de rua, como nas longas jornadas entre quatro paredes. Diz Ebert, “ a cena do grande confronto entre os dois é tão bem roteirizada e conduzida  que, pela primeira vez em qualquer filme sobre a Revolução Francesa, senti que estava ouvindo pessoas e não discursos”.

Ciente da tentação do bem, como artista e cidadão, Wajda nos mostra como a idealização de um novo homem, de uma nova sociedade radicalizada em sua proposta de pureza e bondade, pode nos conduzir ao totalitarismo. Ao olhar os emblemas de 1789, lembra o professor emérito da City University of New York, Leonard Quart,  “Wajda assume  o tom profético de como os governos totalitários governam, incluindo o uso que Robespierre faz da polícia secreta e de informantes para intimidar o público com ressentimentos  e prender dissidentes; a extração de confissões por meio de nefastas tramas dos seguidores de Danton; e um julgamento que lembra os processos de Moscou, em que os procedimentos normais são suspensos e Danton é impedido de se defender ou chamar testemunhas. Há também uma sequência impressionante em que Robespierre, envolto nas vestes de César,  posa para um retrato heróico pelo pintor Jacques Louis David. A certa altura, Robespierre lhe diz para excluir uma figura, um homem que ele condenou, de uma pintura dos primeiros líderes da Revolução – como Stalin apagando Trotsky da história da Revolução Russa”.

Conclui Quart: “A visão sombria e complexa de Wajda da Revolução Francesa é claramente articulada por Danton durante seu julgamento: ‘Como Saturno, a Revolução está devorando seus filhos’ – a fúria da Revolução desencadeada obliterou seus ideais. Wajda viu o sonho de pós-guerra de transformação política em sua Polônia natal virar cinzas. Em Danton, o herói/anti-herói vencedor pode ir à guilhotina, mas, se há esperança política, está na sua humanidade extremamente falhada, não no imortal idealismo de Robespierre”.

É Andrzej Wajda, mais do que nunca,  a nos dizer dos perigos de ceder à tentação do bem.

 

Jeffis Carvalho é jornalista, roteirista, pesquisador de cinema e consultor de comunicação.

 

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