Cristóvão Tezza, a polarização política e ‘A tirania do amor’

Cristóvão Tezza, a polarização política e ‘A tirania do amor’

Em seu último romance, 'A tirania do Amor', Cristóvão Tezza irrita o Brasil da polarização política com críticas ao alheamento da Universidade, às ilusões da Lava Jato e ao jogo do mercado financeiro.

Estado da Arte

02 Setembro 2018 | 11h54

Foto:PAULO GIANDALIA/ESTADÃO CONTEÚDO

por Idelber Avelar

 

Em uma palestra recente dirigida a professores e estudantes da Universidade Federal de Santa Maria, propus a eles que as fortunas críticas recentes de dois escritores brasileiros, Raduan Nassar e Cristóvão Tezza, seriam emblemáticas da forma como o valor literário – a valoração literária sobretudo, ou seja, o ato de valorar em si – responde a uma lógica caracterizada pelo primado da contingência. No caso de Raduan Nassar, não se tratava somente da insólita combinação entre duas obras herméticas, um silêncio civil de trinta e oito anos e uma intervenção pública tão surpreendente como ideologizada em 2016. No processo de reavaliação pelo qual passa Raduan na sua volta às manchetes nos últimos dois anos, dos protestos contra o impeachment de Rousseff aos atos de campanha de Lula, impõe-se um deslocamento na interlocução do autor, que apesar de ser parte constitutiva de um cânone psicanalítico da literatura brasileira contemporânea, nunca havia sido exatamente um autor caro à crítica de esquerda, de cunho social.

A literatura de Cristóvão Tezza ofereceu-se bem mais que a de Raduan a uma crítica de cunho social. Com seus narradores ironicamente próximos da voz do autor, sua lúdica alternância entre exposição e ocultamento da biografia e sua nítida inspiração nas teorias da polifonia de Mikhail Bakhtin, a narrativa de Tezza com efeito se ofereceu para a exegese da crítica social durante bastante tempo. Artigos e teses foram dedicados à obra de Tezza do ponto de vista da metaficção, do dialogismo, da intertextualidade, dos limites entre a obra e a vida, da condição do sujeito na metrópole moderna e de outros temas caros à crítica de cunho social. Em paralelo com essa plasticidade social da obra de ficção está o labor de cronista de Cristóvão Tezza, a partir de 2008 na Gazeta do Povo,de Curitiba, e depois na Folha de S.Paulo, que ocasionalmente toca na política em sentido estrito.

Talvez um papel de marco organizador da prosa de Tezza nos últimos anos caiba à crônica “A confeitaria do Custódio”, publicada na Folha de S.Paulo em 15 de maio de 2016, contemporânea do texto em que Raduan Nassar protestava “contra o golpe” e apresentando uma tese diametralmente oposta à dele. Temos aqui o curioso acidente de que o escritor mais vanguardista e hermético, Raduan, defenda a tese mais simplista: a de que Dilma foi derrubada por um golpe de inconformados com o que ela fez pelos pobres. Antagonicamente, o escritor mais popular e linear na trama trabalha com a hipótese mais multifacetada e cheia de camadas: Dilma cai por uma combinação entre estelionato eleitoral, perda de apoio no meio político, incapacidade de dialogar, trapalhadas na economia e movimentos de autopreservação da classe política ante a Lava Jato. Em todo caso, a pesada crítica de Tezza à retórica do golpe ocasionou reação em redes sociais e entre acadêmicos de esquerda, e nos dois anos seguintes as crônicas de Tezza não voltaram à política. Mas, como em todo grande escritor, a resposta estava na ficção.

A tirania do amor seria apenas mais um relato de um divórcio de um personagem de meia idade em meio a rivalidades edípicas, se não fosse a forma como o romance se deixa atravessar pelas tensões do Brasil pós-Junho. A narração em indireto livre, em que a voz do narrador de terceira pessoa é tingida pela visão de mundo do protagonista, é essencial para a produção do efeito de A tirania do amor. Otávio Espinhosa, 54 anos, acaba de descobrir uma traição da mulher pela leitura de seus emails e está às vésperas de ser despedido na empresa de mercado financeiro em que trabalha desde o fracasso de sua tese de doutorado, intitulada “Os funcionários da coroa” e dedicada à ideia de que “o estamento do funcionalismo público brasileiro, blindado por fortalezas corporativas que unem do gari municipal ao procurador federal, representa a verdadeira classe dominante do país” (p.13). Previsivelmente, a tese é massacrada e seu orientador lhe confessa não ter lido os dois últimos capítulos antes da reprovação da banca. A ideia, para Otávio clara, cristalina, indiscutível de um “sistemático acesso, desde os tempos arcaicos da Coroa até a instauração também arcaica da Nova República, a todas as pequenas, médias e grandes benesses cotidianas do estado seletivo de bem-estar social, dos generosos quinquênios, adicionais, complementações, auxílios e ganhos judiciais em cascata e retroativos, às aposentadorias especiais mais generosas ainda, num nível de privilégios completamente vedado ao resto da população” é desqualificada como “descontextualização despolitizadora” por um membro da banca. Sem o apoio do orientador e sem vislumbrar um contexto em que sua tese pudesse ser aceita, Otávio abandona a carreira acadêmica.

Filho de mãe falecida logo depois de seu nascimento e de um pai estelionatário, tataraneto do Spinoza real, de quem herda uma forma imanentista e libertária de pensar,  Otávio traz a singularidade do gênio para a matemática, inutilidade expressa no folclórico cálculo de raízes quadradas exibido desde a infância. Agora empregado como analista de conjuntura econômica em uma administradora de fundos de pensão, a Price & Savings, Otávio vê sua tese sobre o estamento estatal continuar atravessando sua vida, por exemplo nos enfrentamentos edipianos com o filho, adepto da teoria do golpe, acompanhante de ocupações do MTST e dependente do dinheiro do pai para o cartão de crédito estourado. Com o discurso levemente caricato, Daniel é o representante do discurso do militantismo anti-golpe e recorre a expressões levemente anacrônicas como “instituição burguesa”. Como é comum nos romances de Tezza, a narração em indireto livre a partir dos olhos do protagonista inclui uma série de flashbacks flashforwards de volta ao presente da narração, em uma atividade constante de memória que se ativa através de gatilhos. Ao redor do protagonista cujos olhos são a lente do narrador, circulam também outros discursos, em itálicos, conversas reais ou imaginárias com Otávio: Rachel (sua mulher), Daniel (o filho), Lucila (a filha), Débora (a colega que ele idealiza romanticamente e com quem termina tendo um encontro amoroso ao final), Teresa (a amante com quem Otávio não tem a firmeza e os projetos que Rachel tem com o seu) e, claro, os emails de Rachel ao amante Augusto, onde Otávio confirma não só a condição de traído mas também de desprezado e talvez odiado pela mulher.

A autorreflexividade hesitante de Otávio contrasta com o tom peremptório da mulher, advogada de sucesso, e com o ressentimento teatralizado do filho, que lhe agride com perguntas do tipo “como você se sente dando a alma para este sistema corrupto?” Em consonância com o esquema edipiano, a relação com a filha flui muito mais, como no diálogo de almoço que se segue às perguntas de Lucila: “pai, você ainda não me disse […] o que acha de eu fazer letras (ou história, você prefere?); dois, por que você não lê romances. Ah, e três, afinal, por que não matar o mandarim?” (p.73). Ali Otávio vislumbra a possibilidade de uma outra vida pós-escombros, pós-divórcio e pós-demissão. Mesmo com a filha, no entanto, que é um oásis entre o conflito edípico político com o filho e o desprezo da esposa, o diálogo de Otávio não é senão o de duas inseguranças que se abraçam (p.73). Curiosamente, é quando Lucila lhe traz uma pergunta de Daniel (sobre assassinar banqueiros), que Otávio encontra seu tom mais paternal e professoral em todo o romance: “aqui no Brasil, na verdade, em qualquer país emergente […] o único efeito de matar banqueiros seria um aumento imediato, talvez brutal, da taxa de juros, a queda também violenta da bolsa, a imediata valorização do ouro como ativo financeiro, e uma imensa especulação com o dólar, talvez com a quebra de alguns fundos hedge. Mas acho que nem isso […] Provavelmente, sob a força dos conselhos administrativos, a reposição imediata dos banqueiros e ação da polícia, tudo voltaria ao normal em poucos dias, com a classe média perdendo economias em fundos de renda fixa e alguns espertos e expertos (com x!) ficando mais ricos. O de sempre. É o dinheiro, não a política, que odeia o vácuo” (p.81). As teses de Otávio, anti-climáticas para o jacobinismo de Daniel, passam a marcar também a entrada de Lucila no limiar da vida adulta.

Condição de possibilidade de A tirania do amor é uma hierarquia discursiva em que Otávio aparece como personagem dotado de autorreflexão e complexidade vedada a Rachel, Daniel ou Lucila. Mas essa sofisticação intelectual não lhe serve de nada, e se expressa em uma formação quebrada em fragmentos, dividida entre a inspiração filosófica espinosiana, a tese liberal fracassada, o trabalho “prático” de análise de mercado e o livro de auto-ajuda que termina escrevendo sob o pseudônimo Kelvin Oliva. Como uma espécie de relojoeiro do trabalho intelectual, Otávio é um analista econômico que já não serve, um antecipador de tendências que já não tem lugar em uma realidade atravessada por um novo elemento: a operação Lava Jato. A Lava Jato surge como elemento novo, na medida em que traz a esfera penal para o mundo do mercado financeiro, mas ela não aparece, nem aos olhos do protagonista nem do narrador, como a desinteressada limpeza da política e do mercado que um certo salvacionismo de procuradores sugeriria. Em todo caso, agora é o discurso de Rachel, advogada contratada para defender Leritta, presidente da Price & Savings, e Sálvio, um dos diretores, que é o discurso autorizado, solicitado, valorizado. Junto com a descoberta da traição, do divórcio e da possível demissão, Otávio deve encarar a pergunta da mulher: “Você está envolvido?” (p.156).

A trama de A tirania do amor descreve um arco que vai da decisão de abdicar da vida sexual, no começo do dia, ao encontro amoroso com Débora, a colega e única mulher com quem parece ter genuína afinidade, à noite. O contato com Débora, que vai se desenhando ao longo do dia enquanto se sucedem os flashbacks, acontece por obra do pseudônimo de Otávio, Kelvin Oliva, o autor de A matemática da vida, auto-ajuda que é o duplo paródico, carnavalizado da seriedade e da sizudez da tese de doutorado sobre os estamentos estatais. O primeiro marido de Débora havia chegado um dia com o livro debaixo do braço – o único livro que Mateus jamais lera!– e Débora passaria à curiosidade por conhecer aquele que havia sido o guru de seu ex.

O gênero da auto-ajuda financeira está atravessado pela galhofa, mas esta também ecoa nas respostas de Otávio – em geral imaginadas, em vez de realmente ditas – às convocações do filho para que se “resista ao fascismo”. Aqui o tom é de sobriedade irônica ante a fé escoteira do jacobinismo adolescente: não há ruptura institucional nenhuma, você não está lutando contra os nazistas na Segunda Grande Guerra, é só o Brasil capenga e de merda de sempre em que tudo se mistura com tudo e o país está quebrado (p.70).

No Brasil da polarização política, A tirania do amor é um livro que irrita: crítico da universidade, que aparece como recinto de culto a fórmulas esclerosadas e em patente contradição com a realidade, cético quanto ao discurso salvacionista da Lava Jato, mordaz em seu retrato do mercado financeiro, o romance de Tezza embaralha as identificações esperadas e introduz uma possibilidade de respiro bem no momento de desmoronamento de seu protagonista. Ela termina sendo a melhor resposta para as simplificações redentoras, de direita e de esquerda.

Idelber Avelar é ensaísta e professor de literatura na Universidade Tulane (Nova Orleans). Seus livros mais recentes são Transculturación en suspenso: Los orígenes de los cánones narrativos colombianos (Caro y cuervo, 2016) e Crônicas do estado de exceção (Azougue, 2015).