‘Dark like souls in want’: as teodiceias de Cormac McCarthy (Parte 2)

‘Dark like souls in want’: as teodiceias de Cormac McCarthy (Parte 2)

Acompanhando os irmãos ao longo de paisagens calcinadas e territórios chamuscados pela ira humana que se expande catarticamente em linchamentos e crimes de ódio, McCarthy constrói um universo que não apenas é refratário ao domínio do homem, mas que também, fechando-se sobre si mesmo, conspira contra cada avanço, ainda que mínimo, do homem.

Estado da Arte

30 de julho de 2017 | 00h33

Por Fabrício Tavares de Moraes

O escritor americano Cormac McCarthy

Em seu romance Outer Dark [Nas Trevas Exteriores] (1967), Cormac McCarthy tece uma de suas narrativas mais brutais, sombrias e avessas a toda perspectiva de redenção. Já nas primeiras linhas da obra, os dois irmãos, Rinthy e Culla Holme, são aterrorizados com as trevas que engolfam a casa onde se abrigam e, conforme se nota ao longo da história, também com a escuridão que assedia todas as ações e eventos humanos.

Incestuosos, os irmãos geram uma criança pálida, frágil, que logo após o parto é abandonada pelo pai, Culla, sob uma árvore num bosque, numa imitação terrível de um sacrifício primevo. A esta transgressão, ele acrescenta ainda a mentira, quando diz à irmã que a criança morrera. Todavia, quando Rinthy, pressionando o irmão, descobre a verdade, ambos partem, numa espécie de bifurcação espiritual, em jornadas distintas em busca da criança, que havia sido levada por um estranho mascate.

Transcorrendo em fins do século passado, em meio aos Apalaches, a narrativa apresenta as agruras desse casal maldito, vivendo e enfrentando uma terra desolada – uma inversão sombria de um Éden, do qual são expulsos, condenados à perambulação ao leste do paraíso. De fato, Culla não somente é uma espécie denegrida de Abraão, que leva até o fim a imolação de seu filho, mas também de Caim, marcado por um crime contra sua própria carne e sangue, vagando sob o signo da violência.

Deparamo-nos, assim, com um dos pontos nevrálgicos da obra de McCarthy: somos criaturas da violência, fundando nossos gestos e atos numa maldade irredimível. Em sua obra, temos a concreção da intuição de James G. Williams: “o sinal de Caim é o sinal da civilização. É o sinal do assassino protegido por Deus”.

Porém, o romance é precedido e emoldurado por um substrato metafísico: a jornada de três entes ferozes e sádicos, aparentemente sobrenaturais, que trazem destruição e morte até o momento final em que julgam o ato de Culla. Essa trindade espúria, à medida que a narrativa prossegue, manipulam os eventos hostis, os cenários inóspitos e as paisagens calcinadas que o casal, cada um isoladamente, atravessa e vivencia.

Esses três homens silenciosos, sombrios e quase onipresentes, trazendo à memória tanto as bruxas de Macbeth que trazem o infortúnio para o herói quanto as Parcas que selam o destino dos homens e deuses, açulam multidões que perseguem Culla por um capricho ou por pura malvadez, e ao mesmo tempo aniquilam inescrupulosamente esses mesmos perseguidores. Essa versão tenebrosa de Eaco, Radamanto e Minos, embora, como já dito, sentenciem o crime de Culla, não apresentam, todavia, parâmetro algum de justiça senão a própria malvadez.

Acompanhando os irmãos ao longo de paisagens calcinadas e territórios chamuscados pela ira humana que se expande catarticamente em linchamentos e crimes de ódio, McCarthy constrói um universo que não apenas é refratário ao domínio do homem, mas que também, fechando-se sobre si mesmo, conspira contra cada avanço, ainda que mínimo, do homem.

Assim, o romance é, em essência, apocalíptico. Em primeiro lugar porque é o juízo sobre uma geração maldita, da qual Culla e sua irmã são a encarnação, uma metonímia da condenação humana, embora despida de toda civilidade e carisma. Em segundo lugar, porque, conforme a etimologia grega da palavra, é uma paródia sombria de revelação.

É por isso talvez que alguns críticos afirmem que estamos perante uma alegoria, que fala a todas as sociedades, qualquer que seja a época. Contudo, se partirmos de uma definição primária da alegoria como a transposição de conceitos em imagens, perceberemos que Outer Dark nada deve a esse tropo. Na verdade, poderíamos dizer que o romance é a sombra de uma alegoria efetiva, nomeadamente, o clássico Pilgrim’s Progress; como a própria caminhada de Culla é um gracejo simiesco de sua involução espiritual: “E perante si, sob o sol de alto pino da tarde, sua sombra deambulava numa paródia negra de seu progresso”.

Se na obra de Bunyan, o protagonista Cristão, após intempéries, obstáculos e encontros fortuitos com demônios, alcança por fim a terra prometida, em Outer Dark, por seu turno, Culla, como término literal de seu trajeto, e após seu julgamento, chega a um pântano: “E eis tudo. Perante ele estendia-se uma desolação espectral da qual erguiam-se apenas árvores desnudas em poses de agonia e figuras semelhantes a hominídeos turvados num cenário de condenados”. Como em outras partes da obra de McCarthy, estamos também perante uma descrição obscura: trata-se de um fim do mundo, geográfico e escatológico, ou da manifestação efetiva do inferno?

Numa das passagens mais terríveis e belas do romance, temos uma recriação imanente do juízo de Cristo sobre Legião, na terra dos gerasenos, quando enviou a manada de porcos ao “despenhadeiro, para dentro do mar, onde se afogaram”, como relatado nos Evangelhos. No romance, contudo, alguns porqueiros, com aparência de “discípulos das trevas”, trazem em sua manada uma espécie de porco com patas de mula, contrariando assim, segundo eles, a lei levítica de que os animais com unha fendida são impuros. É, pois, um ente impuro e insurreto da criação. Esses homens “pareciam fugir, juntos com os porcos, de algum ato de Deus, fogo ou dilúvio, cismas na crosta da terra”. E subitamente, num pandemônio, todos os porcos se lançam no despenhadeiro, num ato de juízo ambíguo.

Ironicamente, esse mundo impenetrável à salvação é sempre descrito com o vigor da linguagem bíblica, com a precisão de um dogma. Essa tensão é evidente já no sonho de Culla descrito nas páginas iniciais, no qual um profeta, embora prometendo cura a uma “delegação de ruínas humanas”, permanece em seguida impassível perante o esgarçamento coletivo do protagonista.

Portanto, nesse universo irredimível, o que resta ao leitor e, mais amplamente, ao homem? Trevas exteriores, onde há pranto e ranger de dentes, entidades obscuras cruzando e sitiando as sendas dos seres humanos, e calamidades que se espreitam por detrás de cada uma de suas atitudes, mesmo as triviais.

Fabrício Tavares de Moraes é tradutor e doutor em Literatura (UFJF/Queen Mary University London)

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