Conversando com Camille Paglia: a tradição intelectual norte-americana, liberdade de expressão e educação

Conversando com Camille Paglia: a tradição intelectual norte-americana, liberdade de expressão e educação

A ensaísta e crítica cultural Camille Paglia conversa com o historiador Gunter Axt sobre a tradição intelectual norte-americana, marxismo, pós-estruturalismo, o legado de Simone de Beauvoir e a Teoria Queer.

Estado da Arte

02 Fevereiro 2019 | 19h00

por Gunter Axt

Camille Paglia é Professora de Humanidades e Estudos de Mídia na Universidade das Artes, na Filadélfia, onde leciona desde 1984. Ela se bacharelou na Universidade Estadual de Nova York em Binghamton em 1968 e recebeu seu mestrado e seu doutorado na Universidade de Yale em 1971 e 1974, respectivamente. Publicou diversos livros, como Art and Decadence from Nefertiti to Emily Dickinson (1990); Sex, Art, and American Culture (1992); Vamps & Tramps: New Essays (1994); The Birds, um estudo sobre Alfred Hitchcock publicado em 1998 pelo British Film Institute em sua Film Classics Series; Break, Blow, Burn: Camille Paglia Reads Forty-Three of the World’s Best Poems (2005), Glittering Images:  A Journey through Art from Egypt to Star Wars (2012), and Free Women, Free Men:  Sex, Gender, Feminism (2017). Seu oitavo livro, Provocations: Collected Essays, foi lançado pela Editora Pantheon em outubro de 2018. Paglia foi colaboradora, cofundadora e colunista do site Salon.com, começando com sua edição de estreia em 1995. Ela escreveu vários artigos sobre arte, literatura, cultura popular, feminismo, educação, religião e política para publicações em todo o mundo.

Nesta entrevista, realizada por e-mail entre 14 e 22 de dezembro de 2018, Camille Paglia aborda a tradição intelectual norte-americana e algumas das sus principais referências teóricas, como o teórico de mídia Marshall McLuhan, críticos literários americanos Leslie Fiedler e Norman O. Brown, bem como Northrop Frye e Erving Goffman. Erich Neumann, uma de suas principais influências teóricas, igualmente é comentado. Ela também discute o marxismo, o pós-estruturalismo, o legado de Simone de Beauvoir e de Arnold Hauser. A entrevista ainda aborda a chamada Teoria Queer, o politicamente correto e o movimento do Freedom Speach nas universidades. Ela comentou um encontro com o intelectual canadense Jordan Peterson e as impressões sobre suas ideias. Finalmente, Camille fala sobre suas impressões do recente escândalo acadêmico envolvendo as estudiosas Judith Butler e Avital Ronell, nos Estados Unidos.

 

Gunter Axt – Em uma palestra na Fordham University em 2000, publicada na versão online da revista Interfaces Brasil / Canada em 2012, e agora aparecendo em sua nova coleção de ensaios (Provocations), você defende a existência de uma tradição intelectual norte-americana, estabelecida nas décadas de 1950 e 1960, e a necessidade de retornar a ela. Na sua opinião, o que constitui essa tradição, e por que os autores que a integram não são devidamente valorizados agora?

Camille Paglia – Na minha opinião, a cultura norte-americana sempre foi profundamente enraizada na natureza, desde a época tribal dos índios americanos, mas também depois do contato com a colonização europeia. Tanto os EUA quanto o Canadá cobrem uma enorme distância de milhares de quilômetros, incorporando uma impressionante variedade de características físicas, incluindo cadeias de montanhas imponentes e florestas densas. A maioria dos norte-americanos instintivamente entende o tema do “sublime” no Alto Romantismo – uma visão quase religiosa da enormidade do universo e seu poder inspirador, ofuscando a Humanidade e suas frágeis construções.

O Canadá se estende para o norte até a vasta tundra congelada do Arquipélago Ártico, enquanto os EUA são atingidos anualmente por furacões e terríveis tornados. A força titânica da natureza tem sido um tema norte-americano de Moby-Dick (1851), de Herman Melville, aos épicos filmes de desastre de Hollywood, baseados em eventos históricos reais, como a destruição de Chicago por incêndio (1871) ou São Francisco por um terremoto (1906).

A loucura do pós-estruturalismo, como se incorporou na academia norte-americana desde o final dos anos 1970, é que ele representa uma visão insignificante e contraída da existência humana. O pós-estruturalismo foi produzido pelos europeus francófonos, cuja disputa era com o forte legado racionalista de Descartes, bem como com o neoclássico Racine, ainda persistente em sua língua e cultura. É absurdo que esse argumento provinciano tenha sido transplantado por atacado para a América do Norte, onde é totalmente inútil. Com exceção de uma faixa estreita dos Alpes, os franceses ocupam uma zona permanentemente temperada de poucos extremos climáticos. Além dos ardentes quadros românticos de Delacroix, os franceses raramente experimentaram ou compreenderam a magnitude ou a ferocidade da natureza.

Em The North American Intellectual Tradition, argumentei que o pragmatismo, baseado na observação da realidade física concreta, incluindo as operações brutas da natureza, bem como o comportamento social intrincado, são a essência do pensamento norte-americano. O teórico de mídia canadense Marshall McLuhan e os críticos literários americanos Leslie Fiedler e Norman O. Brown (ambos de abordagem psicanalítica) tinham profundo conhecimento da literatura antiga e moderna e também compreendiam intuitivamente a arte e o processo criativo.

Jacques Lacan, Jacques Derrida e Michel Foucault eram jogadores cínicos, cuja abordagem à arte era manipuladora, mecanicista e destrutiva. Eles estavam travando uma guerra local: para demolir as pretensões arrogantes da cultura francesa de elite. Isso não tem nada a ver conosco na América do Norte ou do Sul! Longe de serem oprimidos por uma alta cultura antiquada que requer desconstrução impiedosa, os jovens estão se afogando em uma cultura popular onipresente, cada vez mais medíocre e derivada. Além disso, eles são atualmente vitimados por um currículo educativo banal e politicamente correto que lhes nega o conhecimento da totalidade da história humana, com sua eterna guerra entre civilização e barbárie. Ao contrário do jargão corrente, o Ocidente não inventou o imperialismo ou a injustiça racial.

Quando terminarão os intermináveis e vazios clichês do pós-estruturalismo?

GA – Quão importante é Marshall McLuhan para entender melhor a cultura de massa da segunda metade do século XX e de agora? Por que McLuhan poderia ser mais útil para essa tarefa do que os autores da Escola de Frankfurt ou pós-estruturalistas franceses? Você acredita que poderia haver alguma influência do meio – especialmente a província de Manitoba e mais tarde a Universidade de Toronto – na formação da personalidade crítica de McLuhan?

CP – Marshall McLuhan tinha uma compreensão instintiva da mídia de massa, que ele interpretou em termos sensoriais como uma extensão do corpo humano. Essa percepção brilhante é uma excelente ilustração do pragmatismo norte-americano, fundamentado no mundo concreto. Ao analisar a mídia, McLuhan usou técnicas de improvisação de aforismo, trocadilho, sátira e colagem. Ele captou o espírito inquieto e mercurial da mídia de massa, que muda de hora em hora como a luz do sol refletida no mar.

Com seus preconceitos marxistas puritanos, a Escola de Frankfurt sempre foi incapaz de responder à energia e à vitalidade da cultura popular, que surgiu como uma expressão direta do gosto popular nos primeiros jornais urbanos do mercado de massa da década de 1830. Seu jargão sombrio e sem humor (como a “mercantilização” desajeitada e onipresente) simplesmente expõe o esnobismo, que finge simpatia pelas massas enquanto expõe seu desprezo pelo sabor degradado. Os julgamentos estéticos dos teóricos de Frankfurt são, na verdade, tediosamente burgueses, não diferentes do entusiasmado desprezo dos críticos de meia-idade dos filmes de Hollywood e dos gêneros rock’n’roll e pop, que hoje são aclamados como grandes formas de arte moderna.

O discurso pesado da Escola de Frankfurt, enraizado na década de 1930, mesmo antes do surgimento da televisão comercial, está irremediavelmente datado. Andy Warhol, uma das minhas principais influências, resgatou e redimiu a cultura pop de seus algozes em suas luminosas transcrições policromadas de anúncios, produtos de mercearias, jornais tabloides e fotografias de publicidade de Hollywood. A Escola de Frankfurt foi anulada e tornada obsoleta pela Pop Art, que explodiu no início dos anos 1960 e dominou a década. Mas é claro que muitos acadêmicos carreiristas não entenderam a mensagem e continuaram arrastando o nauseabundo cadáver de Frankfurt em torno de seus grupos de campus.

Quanto à evolução do pensamento de McLuhan, seria interessante explorar o impacto que a Universidade de Manitoba teve sobre ele quando era estudante de graduação. Já vi algum debate sobre a atmosfera competitiva na Universidade de Toronto quando McLuhan, como professor, estava rivalizando com o crítico de mitos Northrop Frye, seu êmulo na fama que desdenhava a cultura popular. Que McLuhan nasceu na distante Alberta, longe dos centros culturais do Canadá, sempre me pareceu muito significativo: eu também nasci no Cinturão da Neve em Nova York, sempre me senti uma estrangeira, pouco confortável nas cidades, mas monitorando constantemente suas vozes por meio do grande meio popular propenso à estática, o rádio AM.

GA – Você criticou o marxismo em muitos de seus ensaios – como nos primeiros parágrafos do ensaio Mulheres e Direito, publicado como prefácio a um trabalho que organizei no Brasil e que agora foi reeditado em Provocations, ou na introdução Imagens Cintilantes (onde você diz que o marxismo carece de psicologia e metafísica). Mas ao mesmo tempo você celebra o trabalho de autores como Simone de Beauvoir e Arnold Hauser. Qual é a diferença? O que você quer dizer com neo-marxismo ou marxismo cultural?

CPHistória Social da Arte (1951), um épico multivolumoso do erudito estudioso marxista Arnold Hauser, teve uma enorme influência sobre mim na pesquisa de pós-graduação. Hauser demonstrou como a análise da arte pode ser fundamentada na Sociologia e na Economia sem perder o respeito pelo artista ou pela obra de arte. Muitos livros acadêmicos do marxismo cultural (pelo qual quero dizer livros de professores de Humanidades simplisticamente adotando fórmulas marxistas sem um estudo mais amplo da História ou da Ciência Política) são grosseiramente redutores, retirando a dimensão espiritual da arte e reduzindo a obra de arte a um objeto de consumo estéril com um preço – que é apenas um dos muitos atributos da arte ao longo da trajetória do mundo. Não é por acaso que passei a maior parte dos meus 47 anos de ensino em pequenas instituições, nas quais tive uma visão muito próxima do autêntico processo de aspiração, criação e expressão artística.

O magnum opus de Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo (1949), teve um tremendo impacto sobre mim no ensino médio: uma colega de um colega belga me deu o livro no meu décimo sexto aniversário. Adorei a pesquisa não sentimental da De Beauvoir sobre a história e sua dissecação implacavelmente precisa da evolução do status social da mulher. Por exemplo, ela argumentou que a privilegiada e aristocrática castelã dos palácios medievais era na verdade uma prisioneira de sua alta casta, com menos liberdade de movimento ou exposição à vivência do que as mulheres servas trabalhando nos campos.

Eu já estava em sintonia com a consciência de classe da minha própria herança familiar. Todos os meus quatro avós e minha mãe nasceram na Itália e eram imigrantes que escapavam da esmagadora pobreza rural da pátria. Eu nasci na pequena e remota cidade de Endicott, em Nova York, onde milhares de imigrantes vieram trabalhar nas fábricas de calçados da Endicott-Johnson. Meu avô materno operava uma máquina de esticar couro na fábrica, enquanto meu avô paterno era barbeiro. Por causa do G.I. Bill (Lei de Reajustamento dos Militares, para veteranos, de 1944), meu pai, que havia sido paraquedista do Exército durante a Segunda Guerra Mundial, foi o primeiro e único membro de sua grande família a ir para a faculdade (depois que meus pais se casaram e eu já havia nascido). Ele se tornou professor de ensino médio e, eventualmente, professor em um colégio jesuíta. Por isso, tive uma experiência pessoal extraordinariamente direta das principais transições históricas na classe social, desde pequenos agricultores da era agrária, passando pelo proletariado industrial até a classe média profissional.

A análise marxista tornou-se rigidamente estereotipada e desatualizada. Os conceitos de solidariedade de classe e guerra de classes podem ter sido pertinentes aos séculos XIX e XX, durante o período heroico do nascente movimento operário, que pressionava pela sindicalização e pela negociação coletiva. Mas a produção diminuiu nos EUA, como em outros lugares do mundo desenvolvido, devido ao voo corporativo para o exterior em busca de fontes de mão-de-obra barata no Terceiro Mundo, onde os trabalhadores explorados estão geograficamente dispersos e incapazes de se reunir e de se sindicalizar.

Deveria ser ostensivamente óbvio que, exceto por uma rala camada de pobreza entrincheirada em cidades do interior e regiões montanhosas, os EUA atualmente consistem em uma gigantesca classe média com muitas gradações de renda, assim como de educação e de valores centrais. Eu vejo múltiplas camadas finas dentro desse grupo inchado (da classe média baixa para a classe média alta), que a análise marxista convencional não percebe ou não interpreta adequadamente. A posse de carros, assim como televisores, computadores e telefones celulares, agora está difundida em bairros urbanos que antes eram considerados pobres.

Longe de este sistema que se alastra ser uma incubadora fatalista para a apocalíptica guerra de classes, praticamente todo mundo simplesmente quer aumentar a renda familiar e o nível geral de conforto. Os empreendedores que se tornaram multimilionários (garotos inteligentes do Vale do Silício como Steve Jobs e Bill Gates ou rappers urbanos como Jay-Z) são vistos como modelos invejáveis ​​e não como barões ladrões. Nos últimos dois séculos, o capitalismo elevou enormemente o padrão de vida no mundo desenvolvido e é singularmente responsável pela emancipação das mulheres, que agora podem se sustentar e não depender mais do pai ou do marido para sobreviver.

No entanto, o capitalismo, como qualquer outro sistema econômico, tem seus problemas e falhas intrínsecos. Sua volatilidade o torna propenso à inflação ou à depressão, que governos e agências democráticas monitoram corretamente e (com prudente moderação) regulam. Um princípio de supervisão e reforma política deve ser incorporado ao capitalismo: um mercado livre irrestrito coloca muitos em risco. Levou décadas, durante o início do século XIX, para o governo britânico estabelecer um princípio de interesse e de autoridade públicos para forçar os proprietários a salvaguardar os trabalhadores, poupando-os de condições perigosas ou insalubres, bem como do cruel excesso de horas e dos baixos salários. A abolição do trabalho infantil foi uma grande causa humanitária que levou um tempo escandalosamente longo para ser alcançada.

Creio que a questão das desigualdades econômicas sob o capitalismo parece excessivamente enfatizada, porque admiro muito as instituições culturais (museus, bibliotecas, óperas) financiadas pelos magnatas da Era Dourada, como Andrew Carnegie. As grandes mansões e jardins dos novos ricos do Main Line na Filadélfia no final do século XIX e início do século XX foram construídas e mobiliadas, em muitos casos, por imigrantes italianos, cuja obra virtuosa permanece um esplendor da arte americana. Tenho um precioso enfeite de jardim – um arco de pedra sobre o portão, esculpido em forma curvilínea (scallop) – que salvei do terreno decadente e tomado de vegetação de uma mansão vitoriana em Vermont, onde eu lecionava na década de 1970. É obviamente lavra da mão virtuosa de um italiano, cuja chegada à América foi possibilitada pelo empreendimento capitalista em seus dias mais sem lei.

Mas hoje, grande riqueza pode ser amealhada sem que nenhum novo serviço ou invenção benéfica sejam oferecidos à sociedade, mas sim com manipulações conspiratórias do setor de serviços financeiros, cujas práticas amorais se tornaram epidêmicas em Wall Street nos últimos 40 anos. Os Clinton eram notórios por sua intimidade (e proteção) com esse mundo corrupto, com sua glutona insider trading* – e é por isso que votei em Bernie Sanders nas primárias presidenciais de 2016 (e para Jill Stein, do Partido Verde, nas eleições nacionais). Entre outras coisas, o Partido Democrata tem sido débil ou equivocado em seu empenho para impedir a tomada e a consolidação de bancos locais em um massivo sistema nacional que se tornou quase impossível de reformar.

O melhor do pensamento socialista já foi adotado pelos EUA com o estabelecimento de imposto de renda em 1913, bem como com o programa de Seguridade Social, assinado em lei por Franklin Delano Roosevelt em 1935, que fornece apoio e sustento para os idosos. No entanto, o marxismo tem se enganado sobre muitas coisas, como escancaram as ditaduras e os massacres em massa de Joseph Stálin e de Mao-Tsé Tung. O coletivismo destrói a liberdade de pensamento e a iniciativa individual. O planejamento central requer uma expansão grotesca da burocracia e um supercontrole autoritário que sufocam a inovação e levam à estagnação e à paralisia.
Sim, escrevi repetidamente sobre a ausência no marxismo de uma metafísica e de uma psicologia coerente. O marxismo é obcecado pela sociedade e não reconhece a existência da natureza – incluindo a natureza humana. Acreditar que os seres humanos agem apenas por razões materiais – para aumentar seu poder ou riqueza – é uma grande calúnia. Além disso, o proletariado nunca se comportou como os marxistas previram. O globalismo é a fantasia de uma elite burguesa, enquanto a classe trabalhadora permanece fortemente patriótica e pró-militar. De fato, é o moderno marxismo diluído na grande mídia que os impediu de prever ou entender a ascensão de Donald Trump nos EUA e de Jair Bolsonaro no Brasil.

GA – Qual a sua opinião sobre o atual legado do trabalho da Northrop Frye? Você não o inclui em sua perspectiva da Tradição Intelectual Norte-Americana, mas seu orientador de dissertação em Yale, Harold Bloom, celebrou Anatomy of Criticism como um dos livros mais importantes da crítica ocidental.

CP – Northrop Frye foi uma figura titânica durante meus anos de faculdade e pós-graduação, e é chocante o quão rapidamente seu trabalho foi varrido pelo influxo do pós-estruturalismo. Em retrospecto, Frye certamente representou o ponto alto da crítica literária em meados do século XX. Mencionei-o de passagem em A tradição intelectual norte-americana, mas não o incluí porque ele não era um teórico social em si: ele tratava a Literatura como um sistema autocentrado cujo único precursor era a religião.

Frye estabeleceu um estonteante padrão para a verdadeira erudição, um aprendizado profundo que impregnava cada parágrafo que escrevia. Seu estilo de prosa era flexível, lúcido e urbano, sem o pretensioso obscurantismo que hoje estraga tantos livros acadêmicos. A crítica do mito sinóptico de Frye descende de Carl Jung e, finalmente, de The Golden Bough, de Sir James George Frazer (1890-1915), que inspirou grandes modernistas, de William Butler Yeats e T.S. Eliot a James Joyce e D.H. Lawrence.

Embora eu também seja uma crítica de mitos, fiquei um tanto impaciente e insatisfeita na faculdade com o que senti ser uma repressão ou censura palpável no trabalho de Frye. Ou seja, embora a natureza alternativamente fértil e invernal esteja englobada em sua teoria dos gêneros, tanto o sexo quanto o horror (que estão presentes abundantemente na antropologia especulativa de Frazer) parecem ter sido higienizados e expurgados do sistema de Frye. Senti um certo puritanismo cerimonioso, um resíduo da linhagem metodista de Frye (seu avô era pregador em Ontário e Quebec). Mas qualquer renascimento futuro da crítica literária genuína certamente deve começar pela recuperação e restauração de toda a imponente obra de Northrop Frye para o currículo de graduação e de pós-graduação.

Ao contrário de seu polêmico colega de Toronto, Marshall McLuhan, Frye parecia um tanto desinteressado e recessivo. Em 1969, meu segundo ano de pós-graduação, Frye veio a Yale para ministrar a Grey Lecture, intitulada Imaginação Pura e Aplicada. Um dos meus colegas de pós-graduação (um descendente do lendário professor de Yale, William Lyon Phelps) foi selecionado para cear com Frye e sua esposa no jantar oficial, durante o qual ele não proferiu uma única palavra. No final, a Sra. Frye se inclinou e disse em tom de desculpas: “Northrop é muito tímido” – ao que meu amigo frustrado respondeu: “Bem, eu também sou tímido!”

GA – Você incluiria Erving Goffman no contexto dessa tradição? Como suas ideias influenciaram seu trabalho? De repente, parece que a ideia de “gênero como performance” está sendo promovida como uma grande novidade pela Teoria Queer, mas suas reflexões já identificam a presença desse conceito em Goffman. Aliás, o que há de novo na atual “performance” de gênero? Na passagem dos anos 1960 para os anos 1970, tivemos Diane Arbus, Mick Jagger, David Bowie e Robert Mapplethorpe, por exemplo. No Brasil tivemos os Secos & Molhados e os Dzi Croquettes. Em seu novo livro, há um ensaio extraordinário sobre Bowie, originalmente o texto do catálogo da grande exposição de trajes de Bowie em 2013 no Victoria & Albert Museum, em Londres.

CP – The Presentation of Self in Everyday Life de Erving Goffman (1956; rev. ed., 1959) teve enorme destaque e visibilidade nos anos 60, quando a Contracultura estava no auge. O livro foi uma importante declaração sobre a natureza performativa da personalidade e do comportamento social, fluindo diretamente da poderosa tradição da Psicologia Social nos EUA desde a década de 1920. É completamente ridículo que acadêmicos ingênuos de Humanidades continuem a dar crédito a Michel Foucault (que tomou o conceito emprestado de Goffman, sem referência pertinente) ou Judith Butler, adoradora de Foucault, pelas ideias penetrantes de Goffman, que foram tremendamente úteis para mim enquanto eu estava montando meu doutorado em Yale, cujo resultado foi a tese intitulada Personas Sexuais: Categorias do Andrógino.

Quando escrevi The North American Intellectual Tradition para a Fordham University, em 2000, eu não sabia nada sobre a vida de Goffman, exceto que ele havia concluído sua carreira como professor na Universidade da Pensilvânia. Só mais tarde descobri, para meu espanto, que ele era canadense: ele nasceu em Alberta (aquele tema persistente!) e frequentou a Universidade de Manitoba e a Universidade de Toronto – mais evidências de minha teoria sobre o pragmatismo ligado à natureza e o poder da observação social dos pensadores norte-americanos.

Você está absolutamente correto em questionar o derivacionismo dos teóricos Queer de hoje, que parecem carecer de habilidades básicas de pesquisa para traçar as origens de suas próprias ideias. Mick Jagger (com Anita Pallenberg, a amante decadente de Keith Richards) estrelou o filme de 1970 de Nicolas Roeg, Performance, cujo famoso pôster de publicidade com fumaças de gênero projetou Jagger com um penteado feminino, batom e rímel. Na faculdade, fui eletrizada pelo curta-metragem de Andy Warhol, Harlot (1964), em que Mario Montez, com uma peruca loira, simulava uma clássica sexual-bomb de Hollywood, descascando lentamente uma banana e devorando-a sensualmente.

The Coquettes, um grupo radical de teatro hippie fundado em 1969 no distrito de Haight-Ashbury, em San Francisco, brincava com a fantasia travesti carnavalesca e o homo-erotismo aberto. Charles Pierce, a quem eu tive a sorte de ver em Nova York em 1975, estava fazendo brilhantes imitações satíricas de grandes estrelas femininas em teatros e clubes gays desde os anos 50.

No filme de 1969, The Damned, de Luchino Visconti, Helmut Berger fez uma paródia de Marlene Dietrich em The Blue Angel que teve um enorme impacto no nascimento do Glam Rock no Reino Unido. David Bowie, sobre quem escrevi Theatre of Gender (o ensaio do catálogo do V & A), foi um dos principais criadores do novo gênero de arte performática, que floresceu da década de 1970 até a década de 1990. Foucault é raso, chato e supérfluo – tudo que você precisa é de Bowie!

Historicamente, esses temas fluidos de gênero podem ser rastreados da Arte Pop ao Dadaísmo e ao Surrealismo, quando por exemplo Marcel Duchamp posou para a câmera como seu alter ego feminino, Rrose Sélavy, ou quando a exposição surrealista de 1938 em Paris apresentou uma Rue des Mannequins – um corredor de manequins de gesso enfeitados com motivos pornográficos de travestismo.

GA – No Brasil vivemos um momento polêmico, em que se discute um projeto de lei intitulado “Escola sem partido”, que visa garantir a imparcialidade dos professores em sala de aula, não só do ponto de vista partidário, mas também teórico e ideológico. Os críticos deste projeto de lei dizem que o dirigismo ideológico de qualquer tipo não é resolvido por meio de uma lei e que tal lei abriria as portas para a censura, bem como para a introdução de teorias não científicas, como o Criacionismo e o Design Inteligente. Você acha que é possível para um historiador ser imparcial? Você apresentaria a perspectiva nazista na sala de aula, por exemplo, como um contraponto à visão dos vencedores da Segunda Guerra Mundial? Há consensos humanistas acima do direito ao contraditório? Por outro lado, existe um equilíbrio possível? Como podemos promover um ambiente de pensamento livre nas salas de aula que celebre a tolerância e a diversidade?

CP – Como professora universitária de carreira, eu sempre me oponho a qualquer intrusão de governo – local, estadual ou nacional – na deliberação e procedimento acadêmicos. No entanto, tenho ficado horrorizada nos últimos 40 anos com a precipitação de professores liberais numa apologia ideológica sem remorso na sala de aula. Essa tendência é eticamente errada e profissionalmente irresponsável, uma traição aos nossos princípios vocacionais básicos. A sala de aula é um laboratório de pensamento objetivo e destacado, um território para aquisição de conhecimento; não é uma arena para experimentos de bem-estar social ou ativismo pessoal.

A meu ver, o professor deve informar regularmente a classe que todo estudante tem direito a suas opiniões sobre qualquer assunto, não importando o quanto seja contestado ou controverso, e que não existe uma “linha partidária”, promulgada e aplicada pelo professor. Eu faço isso, mesmo na minha aula de “poesia lírica”, onde devo ser totalmente honesta sobre minha tendência em favor da linguagem de rua da Escola Beat de poesia e minha rejeição aos poetas americanos mais celebrados, como John Ashbery e Jorie Graham, que considero afetados empolados.

Uma de minhas experiências intelectuais formativas foi a leitura do primeiro livro exigido em meu curso de Biologia básica na faculdade: uma pesquisa com os filósofos pré-socráticos. Nós estávamos sendo introduzidos a teorias sucessivas sobre as origens do Cosmos, começando no mito religioso e culminando na invenção e refinamento do método científico. Esta foi uma maneira sensacional de ensinar, e nunca me esqueci disso.

Portanto, não consigo ver o que há de errado em pedir aos professores de Biologia que apresentem, ainda que de forma breve, visões e modelos alternativos da cosmologia, sobretudo teorias com impacto contemporâneo contínuo, como o Criacionismo e o Design Inteligente. Certamente é importante identificar e avaliar quaisquer objeções persistentes à Teoria da Evolução de Darwin, incluindo o que muitos cristãos acham que é uma evidência contraditória. Os alunos merecem ouvir todos os aspectos dos grandes debates contemporâneos: suprimir os argumentos é tratar a ciência como um dogma estabelecido. Mas a ciência deve estar em um processo constante de investigação e revisão dinâmica.

Quanto à “perspectiva nazista” sobre a Segunda Guerra Mundial, não posso imaginar como seria possível falar ou mesmo resumir essa terrível guerra (como frequentemente o faço ao ensinar a cultura do século XX) sem explicar exatamente isso: a humilhação da derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial; o colapso da economia alemã na década de 1920; a ascensão de Hitler por meio de apelos messiânicos à identidade alemã medieval, refratada por Wagner; o bode expiatório dos judeus na obsessão nazista pela pureza racial; a evocação do idealismo grego sendo transmitida pelo fogo da tocha a Berlim no início de Olympia, de Leni Riefenstahl.

Em suma, é do melhor interesse da educação apresentar todas as visões possíveis de cada questão controversa. Se os professores se afastarem dessa obrigação, estamos simplesmente levando os alunos a explorar alegações alternativas na internet, que se tornaram cada vez mais um pântano de opiniões histéricas, erros factuais e absolutas alucinações.

GA – Já que mencionamos a Teoria Queer, que tem em Judith Butler sua papisa mais proeminente, pergunto como você seguiu o escândalo, detonado em junho de 2018, pela publicação (no blog do filósofo Brian Leiter) de uma carta, aparentemente escrita por Butler, e com assinaturas de uma longa lista de importantes críticos literários, dando apoio irrestrito a Avital Ronell (teórica da New York University e amiga de longa data de Butler), então acusada de assédio sexual a um doutorando assumidamente gay. O que esse escândalo significou para essas figuras proeminentes da crítica literária, e o que isso representa, acima de tudo, para o modelo universitário americano, para o politicamente correto em geral, e para os movimentos feministas de massa como #MeToo?

CP – O escândalo do Avital Ronell foi uma potente bomba que expôs a arrogância e corrupção da academia de alto nível dos EUA. As repercussões continuarão por anos. A mídia norte-americana, nesse período de sucessivas revelações do #MeToo, ficou fascinada com o espetáculo incomum de uma figura de autoridade feminina (uma professora famosa) sendo acusada de assédio sexual por um subordinado do sexo masculino (um estudante de pós-graduação). No entanto, a real importância desse episódio é que, pela primeira vez, o público vislumbrou o cruel carisma, o clientelismo e a hipocrisia que operam há décadas atrás da fachada do esquerdismo acadêmico.

Tanto Ronell, quanto sua amiga e aliada de longa data, Judith Butler, são produtos do sistema de “estrelas”, que surgiu na academia norte-americana nos anos 70 e 80 com a chegada do pós-estruturalismo. Professores supostamente comprometidos com princípios liberais e progressistas incitaram guerras de licitação, convocadas por administradores tolos, em busca de publicidade, nas principais universidades, o que elevou os salários dos “teóricos” de ponta a alturas astronômicas. Os principais professores de esquerda nos EUA são agora multimilionários, enquanto os alunos são prejudicados por custos extravagantes do ensino e professores adjuntos padecem com salários baixos, sem benefícios de saúde. Alunos de pós-graduação em Humanidades estão sendo forçados a sair da profissão por causa da diminuição de empregos: o pós-estruturalismo, com sua política rabugenta e estridente, destruiu o prestígio e a relevância das Humanidades nos EUA.

Ronell é uma medíocre narcisista e tagarela que obteve sua alta posição na New York University por causa de sua associação pessoal com Jacques Derrida. Embora a mídia a chame de professora de filosofia, seus diplomas acadêmicos são em literatura comparada, especificamente estudos germânicos. Segundo as notícias, Ronell tem sido notoriamente famosa por anos na N.Y.U. por exigir uma adoração de culto dos estudantes de pós-graduação, que deveriam responder instantaneamente a mensagens pessoais, de forte tom emocional, e visitar sua casa em horários estranhos e pouco profissionais.

A ascensão de Butler também foi acelerada pelo caos incestuoso e tendencioso dos departamentos de Literatura Comparada desde a década de 1970. Seus diplomas acadêmicos são em Filosofia, mas como afirmei repetidamente ao longo dos anos, os escritos de Butler mostram poucas evidências de que ela fez o tipo de leitura básica da História, da Antropologia, da Psicologia e (acima de tudo) da Biologia que certamente deveríamos esperar de um teórico de gênero. A vaidade e insipidez de Butler e Ronell estão em plena exibição em um vídeo no YouTube com as duas dançando infantilmente no palco do Centro Pompidou, em Paris, há alguns anos. Seu abuso insípido de uma música clássica de Aretha Franklin com sua habitual ironia presunçosa é aí apenas um dos embaraços.

GA – Um debate perturbador surgiu em Yale em 2015 sobre conteúdo potencialmente racista e ofensivo para as minorias de fantasias de Halloween (como turbantes, máscaras negras, bruxas, gnomos, King Kong e até mesmo personagens da Disney). O que você acha? Pode o carnaval, como um momento de festa e alegria, diversão e inversão simbólica de hierarquias, ser regulado pelo politicamente correto?

CP – A tentativa de censura a priori do Halloween por uma mulher administradora em Yale demonstrou as profundezas nas quais a educação universitária afundou nos EUA. Estudantes da Ivy League estão sendo tratados como crianças no jardim de infância. No entanto, em vez de indignar-se, reagindo e dizendo ao governo para ficar longe de suas vidas pessoais, os estudantes endossaram de todo o coração essa invasão paternalista e, na verdade, exigiram mais dela. Se esta é verdadeiramente a trajetória da geração mais jovem, temo pelo futuro do pensamento independente.

O Halloween, originalmente um festival pagão dos mortos, era o meu feriado favorito durante os bastante convencionais anos 1950. Ele oferecia uma oportunidade fantástica de expressar o Eu reprimido e proibido – que, no meu caso, era do sexo masculino. No meu primeiro Halloween como uma criança pequena, eu me vesti de Alice de Lewis Carroll (com uma peruca feita por minha mãe) – estava obcecada com os dois livros de Alice. Mas depois disso, minhas fantasias eram sempre transgênero, o que era praticamente inédito naquele momento conformista, quando as regras sexuais eram rigidamente polarizadas e quando se esperava que as garotas fossem femininas e complacentes.

Meus luxuosos trajes de Halloween foram costurados e construídos por meus engenhosos pais, seguindo fotos que eu encontrei em revistas ou em seu guia de ópera. Aos cinco anos, eu era Robin Hood; aos seis, o toureiro de Carmen; aos sete, um soldado romano (baseado nas estações da cruz na Igreja – eu ignorei Jesus e concentrei-me em seus algozes); aos oito, Napoleão (a partir anúncios de revista para o conhaque de Napoleão); aos nove, Hamlet (inspirado em uma revista em quadrinhos ilustrada da peça). Uma foto tirada por meu pai como Napoleão foi reimpressa em Provocations.

Acho chocante que as forças do politicamente correto, com uma confiança hipócrita em suas próprias virtudes, acreditem terem o direito de determinar o que é ou não é “ofensivo” e impor seu código agressivo de propriedade humanitária ao mundo. Esse é o tipo de autojustiça farisaica que Oscar Wilde atacou ao falar em “filantropos vitorianos”. A antiga tradição do baile de máscaras do carnaval tomou milhares de formas ao longo da história do mundo. Os feriados dionisíacos permitem a liberação e a expressão teatral de energias anárquicas surgindo do escuro inconsciente da Humanidade.

“Transgressivo” já foi um dos epítetos favoritos dos descolados acadêmicos chi-chi**. O que poderia ser mais transgressivo do que o Halloween ou o carnaval? Não devemos permitir que o reino espetacular e onírico da imaginação seja policiado por moralistas, da esquerda ou da direita.

GA – Em abril de 2016, você ministrou uma palestra na Universidade Drexel sobre liberdade de expressão no campus moderno, que ressoou muito, sendo publicada em vários países, como em Portugal, Inglaterra e Noruega (está reimpressa em seu novo livro.) Você ficou surpresa com essa resposta internacional? Por que exatamente você acha que a livre expressão está ameaçada no ambiente universitário contemporâneo?

CP – Sim, fiquei surpresa e gratificada pela ampla resposta à minha palestra em Drexel. Acredito que essa recepção inesperada demonstra uma clara percepção de muitos dos custos espirituais e culturais do excessivo controle burocrático sobre a sociedade – no campus ou no local de trabalho.

Os administradores profissionais já foram um grupo relativamente pequeno de facilitadores nas universidades, onde o corpo docente determinava todos os assuntos políticos importantes. Mas, à medida em que a frequência à faculdade tornou-se a norma para os jovens da classe média, o tamanho e a complexidade das operações universitárias aumentaram exponencialmente, e a faculdade perdeu poder. Nos EUA, as faculdades que competem por candidatos têm adicionado todos os tipos de comodidades e serviços estudantis, desde quartos de solteiro a luxuosas instalações para exercícios físicos. As universidades agora são mais como resorts comerciais, voltados para o atendimento ao cliente.

Minha visão de longa data é que o livre pensamento e a liberdade de expressão deveriam ser o coração não negociável de todas as universidades. Como eu digo na introdução de Provocations, o pensamento livre e a liberdade de expressão devem ser elevados sobre todos os outros valores, incluindo considerações materiais de riqueza, status ou bem-estar físico. Qualquer universidade que não defenda o pensamento livre e a liberdade de expressão deixou de ser uma universidade e tornou-se nada mais do que um curral recreativo para adolescentes mimados.

GA – Em 2017, você teve um encontro com o intelectual canadense Jordan Peterson na University of Arts, na Filadélfia. Um vídeo feito desse diálogo se tornou viral no YouTube. Vocês compartilham, por exemplo, um interesse comum em Erich Neumann e seu trabalho com os mitos junguianos. Recentemente, o New York Times publicou um perfil de Peterson, sugerindo-o como um personagem venal, superficial e de extrema-direita. Como você percebe o sistema de pensamento de Peterson e sua cruzada contra o politicamente correto?

CP – Todo artigo de mídia que tenho visto até agora sobre Jordan Peterson tem sido ou muito estreito ou totalmente estúpido. Muitos dos jornalistas de hoje tiveram uma educação de elite, cujas deficiências gritantes estão certamente expostas em suas fracas tentativas de interpretar ou mesmo descrever os argumentos de Peterson. Longe de ser uma figura da extrema direita, Peterson é um liberal clássico que acredita no poder e nas prerrogativas do indivíduo, exatamente como eu. Eu ainda não vi uma única sentença de Peterson com a qual eu discorde.

Foi impressionante descobrir (na minha turnê de lançamento do livro Free Women, Free Men em março de 2017) este importante pensador canadense profundamente influenciado pelo analista junguiano Erich Neumann, como eu havia sido. De fato, fomos estranhamente atraídos para exatamente o mesmo livro – The Origins and History of Consciousness (1949), de Neumann (minha palestra de 2006 sobre Neumann na New York University está reimpressa em Provocations). Peterson e eu devemos ser vistos como figuras paralelas, guerreiros na campanha para expulsar o pós-estruturalismo niilista das universidades e recuperar o humanista Jung e aqueles por ele profundamente influenciados, incluindo Northrop Frye. Jung respira em toda parte, no movimento da Nova Era, global, multicultural e ambientalista, que ele ajudou a inspirar. São apenas as universidades que permanecem teimosamente cínicas e estéreis.

Quanto ao meu encontro com Peterson na Filadélfia (em setembro de 2017): como disse publicamente, ele foi uma das mentes mais brilhantes que já encontrei. Não apenas Peterson possui poderes de raciocínio do mais alto nível, mas ele tem aquele virtuosismo de observação social que eu celebrei como o dom supremo da Tradição Intelectual Norte-americana.

GA – Em seu novo livro, há uma longa entrevista que você concedeu em 2003 a David Talbot do Salon.com, na qual critica a iminente invasão do Iraque pelos EUA. Naquela época, destacados comentaristas e editores políticos, alguns dos quais então ícones da esquerda, como Christopher Hitchens, David Remnick e Glenn Greenwald, apoiaram a aventura de Bush, apesar da oposição de parceiros tradicionais dos EUA, como França, Alemanha e Canadá. Como você vê sua posição hoje?

CP – Considero que a entrevista com David Talbot (o editor-chefe e co-fundador da Salon.com) seja um ponto alto da minha carreira. Eu estava praticamente sozinha entre os comentaristas políticos americanos ao condenar a invasão do Iraque antes de sua eclosão, e acredito que minhas advertências sobre os desastres que se seguiram foram evidentemente proféticas.

Desejo enfatizar que definitivamente não sou antimilitar: meu pai e quatro de meus tios serviram no Exército ou Marinha dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial. Outro tio foi especialista em artilharia na Guarda Nacional do Estado de Nova York por 30 anos. A prima de meu pai era pioneira das WAVES, a unidade feminina da Reserva Naval dos EUA durante a Segunda Guerra Mundial. O primo de minha mãe sofreu lesões mutilantes no braço e na mão em razão de uma bomba de artilharia que explodiu durante a Guerra da Coréia.

A invasão do Iraque foi projetada por políticos ingênuos e mentirosos (notadamente o vice-presidente Richard Cheney, que empurrou George W. Bush para a guerra) que nunca serviram nas Forças Armadas e que eram totalmente incompetentes em seus planos e previsões. O enorme e trágico custo suportado pelos gravemente feridos e mortos, tanto no lado americano quanto no iraquiano, permanece inconcebível. Lamento que Cheney não tenha pago nenhum preço por seus pecados. Ele deveria ter sido indiciado e julgado pelas decepções que voluntariosamente provocou.

Quanto aos hospedeiros dos editores de jornais e comentaristas norte-americanos que apoiaram a invasão, devem admitir sua ignorância e credulidade e enforcar a própria cabeça na vergonha.

GA – Você coletou e estudou objetos dos primeiros habitantes indígenas da área ao redor da Filadélfia. Você pode nos dizer algo sobre essa atividade?

CP – Esse projeto começou há uma década, depois que me estabeleci nos subúrbios da Filadélfia, há mais de 25 anos. Eu estava no meu primeiro ano de trabalho na Glittering Images, meu livro sobre arte que seria publicado em 2012. Provavelmente porque eu estava visualmente sintonizada de modo peculiar naquela época, de repente comecei a notar estranhos agrupamentos de pedras na paisagem a apenas alguns quilômetros de distância de minha casa. Após uma inspeção minuciosa e uma exploração mais ampla, convenci-me de que há numerosos restos arruinados de construções da Idade da Pedra no sudeste da Pensilvânia que nunca foram identificados ou catalogados.

Consultei atentamente a biblioteca no famoso Museu Universitário da Universidade da Pensilvânia, que tem uma enorme coleção de livros antropológicos sobre nativos americanos, mas não encontrei praticamente nada sobre o que estava detectando nas colinas arborizadas ao redor da Filadélfia. O gráfico padrão de tipologia cronológica para os projéteis e facas de pedra na Pensilvânia mostra que os primeiros artefatos encontrados datam de 10.000 A.C. – muito antes das grandes pirâmides do Egito! Estou particularmente interessada no período prolongado após a retração da geleira norte-americana, quando os nativos americanos teriam se mudado para essa área, à medida em que as temperaturas diminuíam e os campos de caça se expandiam.

Sabemos muito mais sobre os nativos americanos das Planícies Centrais, o Sudoeste e o Noroeste nos EUA, porque a câmera fotográfica havia sido inventada quando a fronteira americana chegou até eles no século XIX. Mas os habitantes indígenas do sudeste da Pensilvânia haviam deixado essa área e se mudaram para o oeste no final do século XVIII por causa da chegada de colonos europeus, cuja agricultura e comércio de peles prejudicaram suas terras de caça. Fiquei espantada com a quantidade de material nativo americano que foi deixado espalhado por toda a região. Agora que minha percepção foi aguçada, mal posso atravessar um gramado ou olhar para a borda de um estacionamento sem encontrar fragmentos de ferramentas de pedra ou lâminas.

Eu certamente preciso escrever um livro sobre minhas descobertas, mas não tenho certeza da forma exata que deve tomar. Uma coisa tenho certeza: meu foco será a visão religiosa dos nativos americanos, particularmente no que se refere às operações da natureza.

Operações ilegais de comércio com ações com base em informações privilegiadas e, ou, sigilosas.
** Chi-chi: expressão que sugere refinamento pretensioso e excessivamente elaborado.

Entrevista originalmente publicada, em inglês e português, na revista acadêmica Interfaces Brasil/Canadá,
Vol 18, n. 3, em 31 de dezembro de 2018 – https://periodicos.ufpel.edu.br/ojs2/index.php/interfaces/article/view/14823


Referências

PAGLIA, Camille. The North American Intellectual Tradition. Interfaces Brasil/Canadá, v. 12, n. 1, p. 201-214, 2012.

______ . Imagens cintilantes: uma viagem através da arte, desde o Egito a Star Wars. Rio de Janeiro: Apicuri, 2014

______ . Prefácio. In: AXT, Gunter. Histórias de Vida: mulheres do Direito, mulheres no Ministério Público. Florianópolis: Procuradoria-Geral de Justiça SC, 2015.

______ . Provocations: Collected Essays. New York: Pantheon Books, 2018.