Chateaubriand e a Revolução Francesa: as “Memórias d’Além Túmulo”

Chateaubriand e a Revolução Francesa: as “Memórias d’Além Túmulo”

Rodrigo de Lemos traduz para o Estado da Arte excerto do clássico "Memórias d'Além Túmulo", do escritor francês François-René de Chateaubriand. Primeira Parte, Livro V.

Estado da Arte

14 de julho de 2018 | 19h00

Queda da Bastilha em 14 de julho de 1789. Anônimo, Museu de História da França.

Em 14 de julho, tomada da Bastilha. Assisti, como espectador, a esse assalto contra um punhado de guardas dos Inválidos e um tímido governador; tivessem as portas ficado fechadas, jamais o povo teria entrado na fortaleza. Vi se lançarem dois ou três tiros de canhão, não pelo guardas dos Inválidos, mas pelos Guardas Franceses, que já haviam subido nas torres. De Launey, arrancado a seu esconderijo, após sofrer mil ultrajes, é supliciado nos degraus do Hôtel de Ville; arrebentam a cabeça do preboste dos mercadores, Flesselles, com um tiro de pistola; era esse espetáculo que santarrões sem coração achavam tão belo. Em meio a esses assassínios, entregavam-se a orgias, como nos distúrbios de Roma, sob Oto e Vitélio. Passeavam nos fiacres os vencedores da Bastilha, bebuns contentes, declarados como conquistadores nos cabarés; prostitutas e sans-culottes começavam a reinar e os escoltavam. Os passantes descobriam as cabeças, com o respeito do medo, ante esses heróis, dentre os quais alguns morreram de fadiga em meio a seu triunfo. As chaves da Bastilha se multiplicaram; foram enviadas a todos os tolos de destaque nos quatro cantos do mundo. Quantas vezes errei meu destino! Se eu, espectador, tivesse me inscrito no registro dos vencedores, teria hoje uma pensão.

Os peritos acorreram para a autópsia da Bastilha. Estabeleceram-se cafés provisórios sob as tendas; havia multidão, como na feira Saint-Germain ou em Longchamp; carros numerosos desfilavam ou detinham-se ao pé das torres, das quais precipitavam-se pedras entre turbilhões de poeira. Mulheres elegantemente paramentadas, jovens em evidência, postados em diferentes degraus dos escombros góticos, mesclavam-se aos operários semi-nus que demoliam os muros, sob aclamações da turba. Nessa reunião se encontravam os oradores mais famosos, os homens de letras mais conhecidos, os pintores mais célebres, os atores e as atrizes mais renomados, as dançarinas mais em voga, os estrangeiros mais ilustres, os senhores da corte e os embaixadores da Europa: a velha França tinha vindo ali para terminar; a nova, para começar. 

Nenhum acontecimento, por miserável ou odioso em si mesmo, quando suas circunstâncias são sérias e quando ele marca época, deve ser tratado com leviandade: o que se devia ver na queda da Bastilha (e o que não se viu então), era, não o ato violento da emancipação do povo, mas a própria emancipação, resultado desse ato.

Admirou-se o que era preciso condenar, o acidente, e não se foi buscar no futuro o destino cumprido de um povo, a mudança nos costumes, nas ideias, nos poderes políticos, uma renovação da espécie humana, da qual a queda da Bastilha abria a era, como um jubileu sangrento. A cólera brutal fazia ruínas, e sob essa cólera estava escondida a inteligência que deitava sob essas ruínas os fundamentos do novo edifício.      

Mas a nação, que se enganou quanto à grandeza do fato material, não se enganou quanto à grandeza do fato moral: a Bastilha era a seus olhos o troféu de sua servidão; ela lhe parecia erguida na entrada de Paris, face aos dezesseis pilares de Montfaucon, como o patíbulo de suas liberdades. Arrasando uma fortaleza de Estado, o povo acreditou romper o jugo militar e aceitou o compromisso tácito de substituir o exército que dispensava: sabem-se quais prodígios engendrou o povo, uma vez soldado.

Desperto ao rumor da queda da Bastilha como ao rumor anunciador da queda do Trono, Versalhes passara da jactância ao abatimento. O rei acorre à Assembleia Nacional, pronuncia um discurso na própria poltrona do presidente; anuncia a ordem dada às tropas de se afastarem e retorna a seu palácio em meio a bênçãos; inúteis encenações! Os partidos não creem na conversão dos partidos contrários: a liberdade que capitula, ou o poder que se degrada, não obtém misericórdia dos inimigos.

Oitenta deputados partem de Versalhes para anunciar a paz à capital: iluminações. M. Bailly é nomeado como prefeito de Paris, M. de La Fayette comandante da guarda nacional: só conheci o pobre, mas respeitável erudito, por seus infortúnios. As revoluções têm homens para todos os seus períodos; alguns acompanham essas revoluções até o fim, os outros as começam, mas não as terminam.

Todos se dispersaram; os cortesãos partiram para Bâle, Lausanne, Luxemburgo e Bruxelas. Madame de Polignac encontrou, fugindo, M. Necker, que retornava. O conde de Artois, seus filhos, os três Condés, emigraram; arrastaram o alto clero e uma parte da nobreza. Os oficiais, ameaçados pelos soldados insurgidos, cederam à torrente que os carregava. Louis XVI permaneceu só diante da nação com seus dois filhos e algumas mulheres, a rainha, Mesdames e Madame Élisabeth. Monsieur, que ficou até a evasão de Varennes, não era de grande auxílio ao irmão; ainda que, opinando na assembleia dos Notáveis a favor do voto por cabeça, ele tenha decidido o destino da Revolução, a Revolução dele desconfiava; ele, Monsieur, tinha pouco apreço pelo rei, não compreendia a rainha, e não era estimado por eles. 

Louis XVI veio ao Hôtel de Ville no dia 17: cem mil homens, armados como monges da Liga, receberam-no. Arengaram-no os senhores Bailly, Moreau de Saint-Méry e Lally-Tolendal, que choraram: o último ficou submetido às lágrimas. O rei por sua vez se enterneceu; pôs em seu chapéu uma enorme insígnia tricolor; declararam-no imediatamente, homem probo, pai dos franceses, rei de um povo livre, povo o qual se preparava, em virtude de sua liberdade, para abater a cabeça desse homem probo, seu pai e seu rei..

Poucos dias após essa reconciliação, eu estava na janela da minha residência de aluguel com minhas irmãs e alguns bretões; ouvimos gritarem: “Fechem as portas! Fechem as portas!”. Um grupo de maltrapilhos chega por um dos extremos da rua; do meio desse grupo se elevavam dois estandartes que não víamos bem de longe. Quando avançaram, distinguimos duas cabeças descabeladas e desfiguradas que os precursores de Marat carregavam cada uma na ponta de uma lança; eram as cabeças dos senhores Foullon e Bertier. Todos se retiraram das janelas; eu fiquei. Os assassinos se detiveram ante a mim, estenderam-me as lanças cantando, saltitando, pulando para aproximar de meu rosto as pálidas efígies. O olho de uma dessas cabeças, fora de sua órbita, descia sobre o rosto escuro do morto; a lança atravessava a boca aberta, cujos dentes mordiam o ferro: “Bandidos ! exclamei cheio de uma indignação que não pude conter, é assim que vocês entendem a liberdade?”. Se eu tivesse um fuzil, teria atirado naqueles miseráveis como se fossem lobos. Eles lançaram uivos, bateram com força redobrada na porta para derrubá-la e juntar minha cabeça à das vítimas. Minhas irmãs passaram mal; os poltrões do prédio me encheram de admoestações. Os matadores, perseguidos, não tiveram tempo de invadir a casa e se afastaram. Aquelas cabeças, e outras que encontrei logo depois, mudaram minhas disposições políticas; tive horror aos festins dos canibais, e a ideia de deixar a França por algum país longínquo germinou no meu espírito. 

Tradução: Rodrigo de Lemos