“Chasing Trane” – O amor supremo de John Coltrane

“Chasing Trane” – O amor supremo de John Coltrane

A trajetória de um dos maiores nomes do jazz.

Estado da Arte

02 Dezembro 2017 | 12h00

Por Willian Silveira

A realeza surge do improvável. Pelo menos no âmbito artístico. O mais recente documentário de John Scheinfeld (Os EUA x John Lennon, 2006), diretor e roteirista que tem explorado com versatilidade o vasto nicho das biografias, Chasing Trane é o retrato da trajetória de um dos maiores e mais populares nomes do jazz: John Coltrane.

Em exibição no Netflix, a produção de 2016 aborda a vida e o processo de formação do músico nascido na inexpressiva Hamlet, na Carolina do Norte, durante o sul apartado dos Estados Unidos de 1926. Da cidade de improvável nome premonitório à mudança inevitável para a Filadélfia, em 1943, após a perda do pai e do avô, o filme apresenta os momentos decisivos para compreender a intenção musical por trás do autor de Giant Steps (1960) e A Love Supreme (1965), dois álbuns seminais para o gênero.

A busca pela dramaticidade narrativa e a profícua produção do saxofonista nos anos 60 fazem o documentário avançar no tempo e iniciar nos limiares de 1957. No palco do Café Bohemia, conhecido reduto de jazz de Nova York, John Coltrane está em segundo plano, quase escondido. A presença tímida de um músico reconhecido pela técnica pode ser explicada, em parte, pela fumaça, que tomava conta do ambiente a ponto de esconder qualquer um que não se voltasse à plateia, mas principalmente por Coltrane ter de dividir a cena com Miles Davis. Compartilhar o espaço com o símbolo da vanguarda musical pode parecer simples, mas não era. Em especial, se esta figura for o líder da banda e aparecer para os ensaios constantemente irritado, deixando todos a adivinhar o que lhe passa pela cabeça. Para além da introspecção geniosa e do talento abundante, Davis sabia reconhecer o talento como poucos. Assim fora, dois anos antes, ao convidar o jovem para comandar o sax tenor da sua banda. Aos 29 anos, Coltrane integrava o quinteto que viria a se tornar o mais famoso do mundo, representando assim o ápice perfeito da carreira de qualquer instrumentista. Ali, encontraria reconhecimento, estabilidade e sequer se importaria em estar à sombra, mesmo quando desestabilizasse o público com os longos solos pelos quais era conhecido – dubiamente interpretados ora como fruto da juventude, ora como expressão de rara potencialidade artística. Uma ascensão tão rápida, reconfortante e triunfante que impossibilitou atenuar a queda. E ela veio sorrateira, como de costume, durante o intervalo de uma apresentação em que Miles o flagrou usando drogas. O vício do jazz não permite concorrência. Coltrane estava fora.

O episódio marca o centro do filme com a possibilidade de uma reviravolta. É visível como o roteiro encontra neste detalhe a curva do arco dramático. A parti dele, retrocede ao sul dos Estados Unidos e recupera a tensão social com imagens de arquivo, como contraponto paliativo ao excesso de fusões e ilustrações que tomam conta da tela. Na perspectiva de criar uma evolução da época, vários aspectos falham. A alternância entre primeira e terceira pessoa, na narração em off, tem efeito neutro. Ainda assim, um tanto trôpego, o filme nos leva à infância de Coltrane para construir um laço afetivo com a cultura negra e com as raízes religiosas da família do músico. Em uma sociedade segregada, na qual não se tem espaço, a Igreja surge como oportunidade de união e a música como ferramenta de congregação e pertencimento. O encontro espiritual será decisivo para a constituição musical de Coltrane, tão ou mais revelador quanto a descoberta, posteriormente, do bebop e da sua gênese libertária. Fatos sem os quais os ensinamentos didáticos de Dizzy Gillespie e o acolhimento inspirador de Thelonius Monk após a derrocada no Miles Davis Quintet repercutiriam como ecos sem resposta.

Na encruzilhada proposta por Scheinfeld, Coltrane tem de optar por seguir o caminho solitário e autodestrutivo de seu herói Charlie Parker ou se reinventar. Por vezes fitando o chão, por vezes, o céu, Coltrane aparece pensativo em inúmeros registros. Todos eles como a refletir a angústia desse momento de grande dúvida. E nunca saberemos se movido pela incerteza ou pela superação desta, veremos despontar em tela o pastor negro a professar sermões em forma de um jazz contundente, melancólico e espiritual.

Na busca por representar a essência musical de John Coltrane, aquilo que Sonny Rollins  bem descreverá como uma busca pelo “grande cenário” da consciência, o documentário desenvolve uma estrutura que combina o depoimento de músicos consagrados e talentos recentes, como Benny Golson, Jimmy Heath e Reggie Workman e Kamasi Washington, à figuras de pouca contribuição, como o filho do segundo casamento, Ravi Coltrane, e personalidades dispostas a frases de qualquer efeito, como o ex-presidente Bill Clinton e o ator Denzel Washington, importantes demais para serem cortados.

Por este aspecto, o documentário se revela mais frágil. Refém das poucas imagens de arquivo, o formato excessivamente centrado em depoimentos pesa. Apostando em si mesmo apesar da inconstância e do improviso, como muitas das vezes em que o seu protagonista viu a si mesmo no palco, Chasing Trane reproduz o método de John Coltrane – entregar tudo o que tem através do afeto.

Willian Silveira é editor da revista Sétima e membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE).

Para saber mais

http://www.teatrodomundo.com.br/o-significado-social-e-moral-do-jazz/

 

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