Charles Taylor: notas para o contexto cultural brasileiro

Charles Taylor: notas para o contexto cultural brasileiro

Dono de uma vitalidade impressionante aos 87 anos, Charles Taylor se distingue pela amplitude de sua contribuição filosófica, que vai da teoria moral à estética, passando pela teoria política, epistemologia, hermenêutica, filosofia da mente e filosofia da religião.

Estado da Arte

12 de fevereiro de 2019 | 11h00

O filósofo Charles Taylor, professor emérito da Universidade McGill (Foto: Alex Tran)

por Ana Luiza de Morais Rodrigues Braga

O canadense Charles Taylor é um dos principais filósofos contemporâneos ainda em atividade. Dono de uma vitalidade impressionante aos 87 anos, Taylor se distingue pela amplitude de sua contribuição filosófica, que vai da teoria moral à estética, passando pela teoria política, epistemologia, hermenêutica, filosofia da mente e, mais recentemente, filosofia da religião.

No primoroso Sources of the Self (As Fontes do Self, na tradução brasileira publicada pela Edições Loyola), seu livro de maior envergadura, Taylor preocupa-se com as origens daquilo o que poderíamos chamar de condição moderna. Afinal, na modernidade, de onde vêm as nossas concepções acerca do que significa ser um agente humano, um self? O que torna a nossa vida digna de ser vivida? Ou ainda: quais os fundamentos das obrigações morais que nós consideramos importantes para uma vida satisfatória?¹ Essa preocupação central orienta a vasta obra de Taylor e pode ser considerada como o fio condutor que une a sua prolífica produção.

Como sintetiza Bernard Williams em um ótimo ensaio² sobre Sources of the Self, o grande intento teórico de Taylor é fornecer uma chave de leitura para as imagens da humanidade que apoiam ou encorajam os valores que são caros a nós. Trata-se de um ambicioso empreendimento histórico de resgate das fontes da identidade moderna, no qual resta demonstrada, ao fim, uma concepção ontológica plenamente consciente da inserção social dos agentes humanos. Nesse percurso, é demonstrado que a resposta para a pergunta “Quem sou eu?” não é uma conquista solitária, antes dependendo necessariamente de uma dimensão histórica, espacial e cultural. Para Taylor, o individualismo, a prevalência de uma razão instrumental e a perda da importância da participação política consistem nos três grandes mal-estares da modernidade³, a qual, supervalorizando os nossos próprios desejos e ambições, teria nos distanciado de um terreno de significado que não é construído por nós, mas que nos é dado, seja pela história, pela tradição, pela sociedade, pela natureza ou por Deus.

o grande intento teórico de Taylor é fornecer uma chave de leitura para as imagens da humanidade que apoiam ou encorajam os valores que são caros a nós

Obviamente que qualquer filósofo que se aventure na tarefa de examinar o que está por trás de nossos valores morais e espirituais precisa antes vencer explicações redutivas, de viés sociobiológico, que duvidam de qualquer tipo de articulação ontológica sobre as respostas que fornecemos. Para essa consciência naturalista, típica da modernidade, nada do que eu discutirei a seguir tem importância real: toda e qualquer distinção qualitativa que nos permite refletir sobre aquilo o que torna uma vida valorosa é rejeitada como artificial e irracional.  Não adentrarei nesta discussão aqui, já que ela é suficientemente explorada por Taylor em Sources of the Self. Meu ponto de partida é que o significado que as coisas têm para nós precisa ser descrito e explicado em termos racionais.4

Para Taylor, os traços característicos da identidade moderna – embora não sejam compartilhados em todos os lugares – consistem na valorização da liberdade e autonomia, acompanhada de uma concepção universal de justiça e de benevolência, assim como de uma profunda rejeição do sofrimento e da morte. Encontrar as origens desse self moderno é necessário para que forneçamos sentido a esses valores e, por consequência, para que possamos vivê-los na sua plenitude. O conceito de articulação ganha proeminência aqui, podendo ser entendido como “o exercício de reconstrução e acesso às fontes morais de nossas práticas, instituições e valores que estão sempre latentes nas relações sociais, mas não de forma inteiramente consciente”5. Em Sources of the Self, essa articulação moral depende, em larga medida, do resgate histórico de certas concepções não antropocêntricas, como a natureza e Deus6 – embora essas fontes, na modernidade, dependam de sua articulação com outras características culturais que exigem uma adesão subjetiva. Na leitura que faz de Sources of the Self, Bernard Williams conclui que a história resgatada por Taylor diz respeito a como importantes elementos da perspectiva liberal moderna foram formados através da consciência cristã. E embora eu considere que esta pode ser uma perspectiva reducionista da obra de Taylor, acredito que ela é útil para refletir sobre ao menos uma das questões do atual contexto cultural brasileiro: a importância da religião no debate público7. É precisamente o tema das fontes morais, em sentido amplo, que permite utilizar o pensamento de Taylor como mote para uma reflexão aplicada ao Brasil.

O que se vê no Brasil é um fenômeno de resgate de uma narrativa que possa articular moralmente uma sociedade extremamente fragmentada e em profunda crise de identidade. Aquilo que designamos por “crise de identidade” é uma forma desconcertante de desorientação, na qual, desconhecendo a posição em que nos encontramos nesse espaço moral, não sabemos, igualmente, para onde devemos ir. E só não sabemos onde estamos quando desconhecemos o caminho pelo qual chegamos.  Diante desse quadro, salta aos olhos, no Brasil, o fortalecimento de um movimento conservador ansioso por descobrir e reafirmar nossas heranças culturais: a revisitação do nosso passado monárquico por numerosas páginas na internet, a popularização das biografias de grandes nomes da história nacional e a quantidade expressiva de novos convertidos religiosos, com um resgate da tradição cristã, são sinais da busca de um grande número de pessoas por uma orientação no espaço moral e, portanto, por sua própria identidade.

Juntamente com esse fenômeno, observa-se uma resistência que vem em sentido inverso: trata-se do pavor que muitos possuem diante da articulação de qualquer concepção de bem. Tais opositores temem os riscos desse discurso, que dizem ser reacionário e obscurantista e que traria consigo os perigos da ilusão, do autoengano e da manipulação para fins sinistros. Tais riscos, que efetivamente existem, fazem com que muitos enxerguem os movimentos de articulação do bem como coisas necessariamente perversas, que deveriam se manter irrefletidos ou, pelo menos, que deveriam se manter silenciados. Ademais, sempre se corre o risco de que tal articulação seja simplificadora da realidade, tornando nossa condição moral “mais clara, mais unificada, mais harmoniosa do que ela de fato é”8.  

Sobre esse tipo de argumento, é especialmente oportuna a defesa que Taylor realiza do raciocínio por transição. A transição é um movimento de redução do erro, pelo qual acreditamos que, através do diálogo, podemos realizar um discurso moral não distorcido (ou no mínimo menos distorcido), capaz de estabelecer uma ordem hierárquica daquilo o que consideramos moralmente valioso. Com esse tipo de raciocínio, assumimos uma posição não absoluta em face dos discursos morais, já que os tomamos comparativamente: apenas através do levantamento e enfrentamento de determinadas críticas específicas é possível chegar a uma melhor descrição da nossa constelação de valores.

Com o raciocínio por transição, podemos separar o joio do trigo. Qualquer postura madura em face do movimento de resgate das fontes morais no Brasil pressupõe que enxerguemos a enorme diferença que existe entre desconfiar das descrições daquilo que merece nossa adesão moral e afirmar a sua impossibilidade. Os eventuais problemas em uma ou outra explicação do que é moralmente relevante não resultam que essa busca seja descartável nem que não seja recomendável.    

(Foto: Neville Elder via Getty Images)

Diante desse quadro que não comporta respostas absolutas, Taylor faz jus à sua fama de otimista. Ele considera que, ainda que não seja assumida, a tendência moderna de rejeitar a articulação de nossas fontes morais consiste em uma consequência, mesmo que desviante, daquele que é o ideal ético por excelência da era moderna: a autenticidade. A ética da autenticidade exige que cada pessoa seja um ser humano ao seu próprio modo, convocado a viver de maneira particular e distintiva. Em sua forma degenerada, contudo, a autenticidade engrossa o caldo do individualismo, isolacionismo e relativismo, quando rejeita as demandas de significado que provêm de fora do self em prol de uma autorrealização que tem por único parâmetro o próprio eu.

Parece-me que, no Brasil, uma grande linha de crítica ao fenômeno cultural e social de articulação de nossas fontes morais se relaciona com essa concepção de autenticidade. Ela supõe que, de algum modo, o ideal moderno de autorrealização estaria ameaçado com o resgate de nosso passado cultural, inclusive aquele de matriz cristã, e passa a ver qualquer busca nesse sentido como uma oposição à plena autonomia: a família tradicional como uma inimiga da liberdade feminina, a tradição cristã como uma castradora da autodeterminação sexual, a crença numa verdade como catalisadora da intolerância – a lista poderia correr indefinidamente. E ainda que grande parte desse discurso de resistência consista na demonstração da faceta mais contraditória da cultura da autenticidade, o fato é que é preciso concordar com Taylor e reconhecer que esse ideal ético se encontra como pano de fundo. A questão que fica, portanto, é: como fazer jus à importância da autenticidade moderna, uma conquista também histórica, sem ignorar a nossa necessidade de estarmos ligados a um horizonte de sentido que não pode ser encontrado isoladamente, mas também é apreendido através daquilo o que herdamos?

O próprio Taylor nos traz boas ideias. Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que as expressões mais autocentradas e narcisistas da cultura da autenticidade são profundamente inadequadas ao ignorarem que a nossa autorrealização está necessariamente relacionada à nossa ligação com as demais pessoas, assim como à nossa capacidade de conferir horizontes de significado àquilo o que nos torna seres autênticos. A simples afirmação da livre escolha como justificativa para qualquer tipo de conduta não é razoável: ver a autoescolha como um ideal depende precisamente do fato de que algumas escolhas são mais significativas que outras. A autorrealização não se dá em oposição às demandas da sociedade ou da natureza: ao contrário, como diz Taylor, “só posso definir minha identidade em contraste com o conhecimento das coisas que importam”9– e as coisas que importam definitivamente não são encontradas apenas dentro de nós mesmos, mas também o são na história, na natureza, na sociedade e na cultura.          

Em segundo lugar, deve-se admitir que a articulação das fontes morais deve ser dada em paralelo com a demanda moderna por reconhecimento, entendida como a necessidade que cada um de nós possui de ter as mesmas chances para o desenvolvimento da própria autenticidade, mediante todas as formas em que isso se mostrar relevante: seja concernente ao gênero, à orientação sexual, à religião ou à origem cultural.  No entanto – e aqui se encontra a sutileza – o que está envolvido em reconhecer as diferenças não se deve ao próprio fato das diferenças, mas àquilo o que possuímos de comum apesar das nossas diferenças: também para isso precisamos, em suma, de um horizonte de significado compartilhado.

No atual estado de coisas, o que se espera é que o movimento brasileiro de resgate de nossa história e tradição dê sinais de que é capaz de dialogar dentro de um contexto que elegeu, irrevogavelmente, a autenticidade como ideal.

Esse difícil equilíbrio exige, como Taylor alerta, o trabalho hercúleo de evitar, de um lado, a crítica vazia e contraproducente da cultura contemporânea e, de outro, a posição equivocada de que está tudo certo com ela, acompanhada de sua variante ainda mais ingênua de que caminhamos sempre rumo ao progresso. Duas condições indispensáveis para esse diálogo são, primeiro, acreditar que não existe qualquer sistema irresistível nos limitando a um certo estado de coisas e, em segundo lugar, crer firmemente que a razão é capaz de persuadir e de nos aproximar de uma melhor resposta para os nossos problemas morais, resistindo ao canto da sereia neonietzscheano segundo o qual nossas articulações do bem são, todas elas, instrumentos de dominação. A paz na Terra somente é possível entre os homens de boa vontade.

Ana Luiza de Morais Rodrigues Braga é professora na Universidade São Judas Tadeu, São Paulo. Mestre e Doutoranda em Filosofia do Direito pela USP.

 

Notas

1. TAYLOR, Charles. As fontes do self: a construção da identidade moderna. São Paulo: Edições Loyola, 2013, p. 15.

2. WILLIAMS, Bernard. Essays and reviews: 1959-2002. Princeton: Princeton University Press, p. 302.

3. A respeito desses mal-estares, vide: TAYLOR, Charles. A ética da autenticidade. São Paulo: É Realizações, 2011.

4. TAYLOR, Charles. As fontes do self: a construção da identidade moderna. São Paulo: Edições Loyola, 2013, p. 98.

5. GUALDA, Diego de Lima. Individualismo Holista: uma articulação crítica do pensamento político de Charles Taylor. 2009. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo, p. 68.

6. Ibid, p. 49.  

7. Sobre este tema, vale a leitura do breve artigo de Fernando Gabeira: “Notas de um velho marinheiro”, disponível em: https://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,notas-de-um-velho-marinheiro,70002645667.

8. TAYLOR, Charles. As fontes do self: a construção da identidade moderna. São Paulo: Edições Loyola, 2013, p. 134.

9. Ibid, p. 49.

 

Referências Bibliográficas

GUALDA, Diego de Lima.  Individualismo Holista: uma articulação crítica do pensamento político de Charles Taylor. 2009. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo.

TAYLOR, Charles. A ética da autenticidade. São Paulo: É Realizações, 2011.

___. As fontes do self: a construção da identidade moderna. São Paulo: Edições Loyola, 2013.

WILLIAMS, Bernad. Essays and reviews: 1959-2002. Princeton: Princeton University Press.