Calímaco, quem diria, acabou no Irajá

Calímaco, quem diria, acabou no Irajá

Os nossos romances modernos estão mais próximos da tradição homérica. Eles querem transmitir algo da vida real do cidadão comum, pintar o mundo, transmitir a sensação de modernidade. Eles podem ser esmiuçados, mas primeiro vão entreter, provocar emoções. Era isso que pretendiam Balzac, Dickens, José de Alencar. Balzac não parecia realmente esperar que chegasse o James Wood para dizer ele inventou o discurso indireto livre, e por isso mudou o romance para sempre, para ser apreciado.

Estado da Arte

31 de julho de 2017 | 09h56

Por Pedro Sette-Câmara 

Com certa frequência algum autor popular, ou que diz escrever pensando no público em geral (a distinção tem lá sua importância), que afirma buscar entreter antes de tudo, toma a palavra para dizer que é ignorado pela crítica e pelos prêmios literários. No começo dos anos 2000, quem levantou essa bola foi Felipe Pena, com a coletânea Geração Subzero, e com alguns artigos.
Agora, por que nos contentarmos com uma escala de tempo tão pequena? Essa reclamação já foi feita pelo maior autor popular brasileiro do século XIX: José de Alencar.
Sim, eu sei, Alencar está se tornando um personagem comum destes meus textos, mas que se há de fazer quando ele é um dos objetos do seu doutorado? Além do mais, é mesmo um grande autor, um autor relevante, e cá estou eu demonstrando sua relevância.
Pois Alencar reclamou da “conspiração do silêncio”, e Machado de Assis confirmou, em prefácio escrito para uma edição póstuma de O Guarani, que havia mesmo essa conspiração; o leitor pode usar o Google e encontrar facilmente o prefácio do Machado. Também em “Bênção Paterna”, o prefácio ao romance Sonhos d’Ouro, Alencar bateu perna contra os críticos: “O dogma da seita é a contrariedade”.
O interessante, para nós, é que a reclamação é a mesma, mas seu sentido é diverso. No século XIX não havia exatamente o escritor que pretendia criar uma obra que não servisse de entretenimento. Todos eles, por outro lado, pretendiam oferecer entretenimento e “algo mais”. Tenho ganas de dizer que Eugène Sue queria inventar a consciência social com os intermináveis Mistérios de Paris. Chateaubriand, tão amado por Alencar, queria contar como eram os Estados Unidos.
Por outro lado, o leitor de maior bom senso há de pensar que o maluco sou eu, que não existem esses autores que não querem entreter. Ofereço o exemplo do recente romance Reprodução, de Bernardo Carvalho, todo escrito desde a perspectiva do que o autor imagina ser um comentarista da internet que fosse parar na Companhia das Letras. Como me disse numa conversa um célebre crítico que prefere permanecer anônimo, essa obra de Carvalho nos recorda da frase de Paul Valéry que diz que o prazer da obra de arte está diretamente relacionado à sua dificuldade…
Porém, porém, por que irmos apenas até José de Alencar? A questão pode recuar muito mais. E, recuando, ainda cumprimos o dever de apresentar o outro lado.

 

Máquina do tempo: Alexandria, antes de Cristo

 

Calímaco

O poeta helenístico Calímaco de Cirene, falecido 240 anos antes de Cristo, não só não tinha a menor vontade de ser um autor popular, e foi um homem de letras num sentido muito próximo do moderno e talvez até do pós-moderno: funcionário da Biblioteca de Alexandria, era responsável por ler e catalogar manuscritos. Sua obra poética e sua atitude são decorrência de seu ofício. Ele produziu a arte do homem que leu tudo.
Vejamos seu “Epigrama 28”, em tradução feita por mim – tradução bem literal, apenas do conteúdo, claro.

 

Detesto o poema que é cíclico, e também não gosto

das estradas com muita gente, nem de quem nelas trafega;

odeio o amante rodado, não bebo da fonte comum:

tenho aversão a todas as coisas popularescas.

Lisânias, sim, és belo belo – mas antes de eu falar

isso claramente, Eco diz: outro o possui.

 

O leitor que domine algum grego pode perceber que o poema é uma pequena joia. Nos primeiros quatro versos, há uma enorme quantidade de ecos. No quinto, parece surgir um corte total em relação ao que estava sendo dito. Calímaco para de reclamar para elogiar Lisânias. Mas aí vem a menção à ninfa Eco, que chama a atenção para a sonoridade do poema, nos faz perceber retroativamente os ecos. Por fim, refletimos: os ecos se repetem até sumir, Eco nos diz que a beleza é possuída por algum outro, está sempre nos escapando, como um eco que vai sumindo. Você pode se afastar das coisas “popularescas” em busca de algo mais, mas algo mais sempre foge, está sempre além.
E isso é apenas o começo da reflexão suscitada pelo poema.
Uma ressalva, porém, nos traz de volta ao tema: o “poema que é cíclico” é o poema dos ciclos dos heróis. A referência é clara: a Ilíada e a Odisseia. Se nos permitirmos um anacronismo, Calímaco está cometendo o faux pas de dizer que detesta Homero.

 

Livros homéricos
Mas volto outra vez ao poema, porque, também anacronicamente, ele passou a servir de exemplo para uma distinção importante, entre dois tipos de estilo literário, feita por Erich Auerbach no primeiro capítulo de Mímesis: a distinção entre o estilo homérico e o estilo bíblico.
Muito resumidamente, Auerbach observa que, em Homero, tudo é explicitado, tudo acontece em tempo real, todos os aspectos sensíveis são ressaltados. No Antigo Testamento, por outro lado, tudo é resumido. Sabemos os nomes dos personagens, a trama principal, e olhe lá.
O resultado é o seguinte: o texto homérico presta-se diretamente ao deleite, e o texto bíblico presta-se diretamente à interpretação, a ser esmiuçado. É um texto feito para ser discutido, porque é muito compacto.
Esmiuçar foi exatamente o que eu fiz com o poema de Calímaco. Calímaco escreveu textos para serem esmiuçados. Se o leitor não esmiuçar o texto, não há deleite. (Mas há deleite: a recompensa do leitor não é entrar na mente de um comentarista de internet).
Os nossos romances modernos estão mais próximos da tradição homérica. Eles querem transmitir algo da vida real do cidadão comum, pintar o mundo, transmitir a sensação de modernidade. Eles podem ser esmiuçados, mas primeiro vão entreter, provocar emoções. Era isso que pretendiam Balzac, Dickens, José de Alencar. Balzac não parecia realmente esperar que chegasse o James Wood para dizer ele inventou o discurso indireto livre, e por isso mudou o romance para sempre, para ser apreciado.
Foi só com as vanguardas artísticas do século XX (ou talvez um pouco antes, mas vamos encurtar o argumento) que se fixou a ideia de que era preciso ter toda uma filosofia da arte para poder apreciar uma obra qualquer, que toda obra tinha de reinventar a linguagem, essas coisas.
Junto com isso, fortaleceram-se socialmente os Calímacos: a crítica literária se profissionalizou, e nem é sensato esperar que uma pessoa que lê por obrigação profissional cem livros por ano tenha o mesmo gosto de uma pessoa que lê dois.

Nem rima, nem solução, apenas fatos
Alencar podia ter razão, porque não falava contra Calímacos, e Machado teve razão ao dizer que a “conspiração da posteridade” venceria a “conspiração do silêncio”; Calímaco mesmo podia reclamar do que quisesse, estava só reclamando; mas o autor contemporâneo que em pleno século XXI reclama da crítica acadêmica enreda-se numa contradição: espera que exista um cargo, que esse cargo tenha prestígio, e não entende que há mais de dois milênios esse tipo de cargo leva a um certo tipo de atitude. Para o crítico, é mais interessante o livro que precisa ser mil vezes esmiuçado e justificado; para o leitor de entretenimento, basta o tempo matado insensivelmente – tanto que, muitas vezes, esse leitor recusa até mesmo a releitura (“esse eu já li”).
O autor homérico, do poema cíclico, não pode, enfim, pedir a bênção de Calímaco. Deixo o leitor com essa imagem que só pode ser entendida por quem leu o texto do começo ao fim. Afinal, eu mesmo faço doutorado em literatura comparada.

Pedro Sette-Câmara é tradutor e doutorando em literatura comparada na UERJ

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