Cabe aos traidores pedir perdão

Cabe aos traidores pedir perdão

A grandeza da liderança é reconhecer que sua traição é verdadeira e seu arrependimento legítimo. A insistência em negar sua responsabilidade sobre o colapso, na prática entrega ao inimigo sua coroa.

Estado da Arte

08 Outubro 2018 | 19h00

por Vinícius Müller

A prisão de Cristo e o beijo de Judas. Afresco de Giotto para a Cappella degli Scrovegni, Pádua (1304-6).

Uma das maneiras mais interessantes de entender as disputas entre Atenas e Esparta na antiguidade grega vem daquilo que chamamos de Armadilha de Tucídides. Inspirada em algumas passagens da obra do historiador grego, A História da Guerra do Peloponeso, tal armadilha revelaria, segundo as interpretações contemporâneas, os perigos e limites de certo sistema quando colocado sob as disputas entre duas facções que se pretendem hegemônicas. No caso grego, a própria noção de cultura, ou de algo que identificaria aquilo que chamamos de civilização grega, teria sido colocada em risco pelo equilíbrio entre as duas cidades que, cada uma a seu modo, pretendiam liderar a região. As causas deste impasse, ou seja, um equilíbrio entre duas antagonistas que, não obstante suas particularidades, se auto proclamavam como legítimas representantes de certos valores e códigos, teria colocado em risco os próprios valores que imaginavam representar.

Este embate teria, então, enfraquecido a noção de civilização grega, fragilizada e vulnerável frente aos outros povos e civilizações que porventura tentassem dominá-la. Coube aos macedônicos, povo do norte liderado por Alexandre, a conquista sobre a Grécia. A sobrevivência dos gregos, depois de dramática vitória sobre os persas nas Guerras Médicas, dependeu, em certa medida, do entendimento que Alexandre tinha sobre ele mesmo como sendo um grego. Fosse Alexandre um ‘bárbaro’, a história seria outra.

É possível, a partir da ameaça à civilização grega e seus valores, especular sobre os motivos e eventos que os levaram a tamanho impasse. Generalizando e por analogia, pode-se também transferir as possíveis causas a outros eventos históricos que carregavam algumas semelhanças. Uma das explicações pertinentes reside na incapacidade da antiga liderança em manter sua hegemonia ante a expansão do sistema. Ela precisaria, neste caso, dividir sua liderança com alguma outra potência em ascensão. Por sua vez, a potência em ascensão cobraria um preço, por se entender como aquela que vai salvar o sistema cujo fiador não é ela. Neste caso, é possível que as duas potências, a antiga e a nova, se entendam e garantam a sobrevivência e reprodução dos valores que as unificam. O problema é que, muitas vezes, o preço cobrado pela potência em ascensão para dividir a responsabilidade com a antiga e decadente liderança é alto demais. Ao menos aos olhos daquela que não mais apresenta condições de liderar sozinha aquela civilização. Por isso, é mais comum que a possibilidade de compartilhamento da liderança se transforme em disputa entre elas. É por isso também que o mais comum é que a disputa entre elas enfraqueça as duas e, por consequência, aquilo que representam.

Esta é uma possibilidade de entendimento sobre as causas da Primeira Grande Guerra (1914-1918). A liderança financeira anterior ao conflito, exercida pela Inglaterra, mostrava seus limites e, por isso, buscava apoio da potência em ascensão, a Alemanha. O problema é que o preço cobrado pela Alemanha parecia improvável de ser pago pelos ingleses:  a internacionalização do Deutsche Bank, assumindo posições até então dominadas pelos bancos britânicos, e a maior participação germânica em territórios africanos e asiáticos.

Uma outra hipótese sobre a dificuldade inglesa em manter sua liderança sobre o sistema financeiro anterior à Guerra de 1914 é a desconfiança que outros países tinham em relação ao comportamento dos britânicos.  O padrão-ouro, cuja premissa era o balanceamento das perdas e ganhos do comércio internacional entre os países, era alvo de uma progressiva desconfiança. A hipótese de equilíbrio passava a ser entendida por muitos como um disfarce aos reais resultados que beneficiavam fundamentalmente à Inglaterra. Desta forma, a liderança britânica entrava em colapso não pela impossibilidade de, sozinha, dar suporte e garantias ao padrão-ouro, mas porque passou a ser vista como um risco moral. Ou seja, como algo que se vendia como o pilar de sustentação de um sistema amparado no equilíbrio entre os países, mas que entregava, na verdade, os melhores resultados aos ingleses.

Assim, a distância entre o risco moral representado pelos ingleses e a acusação que lhes foi feita – de que haviam traído o próprio sistema que lideravam – é curta. E a traição do líder legitima que todos os outros participantes também traiam e deixem de cumprir as regras fundamentais do sistema. Torna-se, desta forma, insustentável a manutenção do sistema e muito provável uma guerra entre os participantes. O conflito, então, potencializa a chance de que o próprio sistema entre em colapso antes de determinar quem é a sua nova liderança. A traição do líder, portanto, dispara uma reação em cadeia que destrói o próprio sistema. Ou, na melhor das hipóteses, o fragiliza ante a possibilidade de ser tomado por alguém de fora.

O problema maior nesta situação é que os participantes do conflito, que, em tese, comungam de alguns fundamentos do sistema a qual pertencem e pelo qual se reconhecem, só percebem que tamanha cizânia entre eles pode destruir os próprios pilares de seu modelo quando a ameaça que vem de fora está muito próxima. Na maior parte das vezes, não há tempo e nem força para resistir. Uma única saída pode garantir a sobrevivência do sistema e a união entre os seus membros: o perdão generalizado entre eles.

Porém, para que alguém possa perdoar é preciso que alguém peça perdão. No caso de risco moral e/ou de traição pela liderança dos valores que sustentam o sistema que ela mesma representava e garantia, o perdão deve ser pedido por ela.  A grandeza e a responsabilidade da liderança é reconhecer que sua traição é verdadeira e que seu arrependimento é legítimo. E que por isso está disposta a dividir sua liderança com os outros participantes em nome da resistência e sobrevivência dos pilares do sistema. Caso contrário, na insistência em negar sua responsabilidade sobre o colapso, na prática entrega ao estrangeiro sua coroa.

Depois da Primeira Guerra Mundial, a insistência da Inglaterra e, em partes nada desprezíveis da França, em se arvorarem não só como inocentes em relação às causas do conflito, mas também aptas a retomarem o controle do modelo que até pouco antes representavam, dificultou a ascensão dos EUA. Também resultou na responsabilização da Alemanha.  Dividir a liderança com os EUA era visto por ingleses e franceses como a aceitação de que os caipiras do outro lado do Atlântico podiam ser os guardiões dos valores ocidentais. Tamanha arrogância britânica e francesa fragilizou de tal modo os pilares do sistema – a democracia liberal e a economia de mercado – que facilitou que o estrangeiro tomasse o poder. Para azar deles, o estrangeiro era o Hitler, não Alexandre Magno. Quando se deram conta disso, era tarde demais: a Segunda Grande Guerra estava bem ali, na esquina.

Vinícius Müller é doutor em História Econômica pela USP e professor do Insper.