Bovarismo tucano: o ilimitado direito de errar

Bovarismo tucano: o ilimitado direito de errar

Estado da Arte

09 de junho de 2017 | 09h23

Por Gabriel Heller

Os últimos 15 anos constituíram um período em que o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) recusou-se a acertar. Sua sucessão de erros começou com o silêncio envergonhado em relação às necessárias e, em alguns casos, insuficientes reformas promovidas pelo Governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). A partir de 2002, após a longa e bem-sucedida oposição petista, destacando os erros e os ilícitos dessa gestão e transformando em pecados seus méritos, os candidatos do partido passaram pelo menos 12 anos omitindo, tanto quanto possível, qualquer vinculação com seu principal correligionário.

Veio, em 2005, o escândalo do mensalão, no qual ficou demonstrado o envolvimento das principais autoridades do Partido dos Trabalhadores (PT) e do governo de Luiz Inácio Lula da Silva em uma série de crimes que configurou, até aquele momento, o maior caso de corrupção já descoberto no país. O Presidente Lula, em manifestação que virou mantra, disse não saber de nada.

Diante da crise instaurada, as lideranças do PSDB, em vez de agirem como uma verdadeira oposição, que, mais do que combater irracionalmente o governo, deve representar seus eleitores e defender a nação, pouparam o Presidente da República. Fato notório, o principal artífice da blindagem de Lula, entre os tucanos, foi o ex-Presidente FHC.

Reunião de líderes tucanos após vazamentos de áudios que envolvem o senador Aécio Neves. Foto: Aécio Neves/Instagram/Reprodução

Vieram as eleições presidenciais de 2006, e o PSDB escolheu como candidato o então Governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, o qual, nas palavras de seu colega de chapa, José Jorge (PFL), era desconhecido para 50% do eleitorado. Poucos meses depois de aprovado o Relatório Final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que apurou os malfeitos do governo petista e seus aliados, o tucano conseguiu a façanha de ter, no segundo turno, menos votos do que conquistara no primeiro. Ficava demonstrado o já sabido: o partido errara na escolha do candidato.

Ao longo de todo o Governo Lula, o PSDB só fez oposição verdadeira e efetiva para barrar a renovação da CPMF, o chamado “imposto do cheque” – embora essa posição do partido não tenha sido compartilhada por dois de seus principais nomes, os então governadores Aécio Neves (MG) e José Serra (SP). Aécio, é bom lembrar, passou seus dois mandatos no Governo de Minas Gerais defendendo abertamente garantir a governabilidade a Lula.

O PSDB só saiu das sombras no final do primeiro mandato de Dilma Rousseff, quando, pressionado pela população e pelo empresariado, não pôde fechar os olhos para o buraco em que esse Governo enterrava a economia nacional. Pela primeira vez em aproximadamente 10 anos, a agremiação se juntou a seu eleitorado, e, não à toa, voltou a ter chances de vencer uma eleição presidencial – o que só não ocorreu, diga-se, por conta dos malabarismos utilizados pelo Governo Dilma para esconder a inevitável crise econômica e social que estava por arrasar o Brasil.

Derrotado nas eleições, o PSDB, “só para encher o saco”, como revelaram as gravações de Aécio Neves divulgadas nas últimas semanas, ingressou com ações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), pedindo a perda do mandato de Dilma e seu vice, Michel Temer, por abuso de poder econômico e político – em suma, por usar a máquina da Administração Pública para se beneficiar na disputa presidencial. Mais rápido que o processo judicial e apoiado pela maioria da população, o impeachment de Dilma Rousseff alijou-a merecidamente do poder e franqueou ao PSDB o assento de copiloto no Governo Michel Temer. Era hora de promover as reformas que Dilma e seu Ministro da Fazenda, Joaquim Levy, boicotados pelo próprio PT, não foram capazes de realizar.

A trancos e barrancos, o Governo Temer fazia andar as reformas trabalhista e previdenciária no Congresso Nacional, única razão válida para o PSDB apoiar o governo do Vice-Presidente cuja cassação pedira ao TSE há pouco tempo. Contudo, o partido não podia contar com a “proatividade” de Joesley Batista e o descuido do Presidente Temer, que, em um encontro inescusável na calada da noite com o megacorruptor, deixou-se gravar.

Melhor sorte não teve o Presidente do PSDB, Aécio Neves que, gravado pelo mesmo Joesley pedindo dois milhões de reais, viu sua irmã e seu primo serem presos preventivamente por envolvimento na teia de corrupção investigada pelo Ministério Público.

Atordoado como um pugilista depois de receber uma sequência de golpes, o PSDB ensaiou sair do governo. Essa seria a postura coerente com os discursos proferidos ao longo do impeachment de Dilma Rousseff e, mais importante, a demonstração cabal de que o partido estava disposto a dar fim à “tragédia de erros” que tem sido sua marca nos últimos anos. Não foi.

Torcendo para que o TSE facilitasse sua vida ao cassar a chapa Dilma-Temer, o PSDB, acompanhado pelo vexatório silêncio dos movimentos sociais que foram às ruas contra a corrupção dos governos do PT, quedou-se inerte. Quem dera também houvesse quedado silente.

O Senador Aloysio Nunes Ferreira, atual Ministro das Relações Exteriores, esclareceu que, quando se trata de errar, o PSDB não está para brincadeira: em entrevista defendendo a manutenção do partido no Governo Temer, disse que “o PSDB não é Madame Bovary”, a famosa adúltera de Gustave Flaubert. Nosso chanceler deixou claro, assim, que o compromisso de seu partido não é com o país ou com seus eleitores, tampouco com o fim da corrupção, mas sim com seu imaculado matrimônio com Michel Temer.

Enfraquecido, investigado e com reduzidas chances de fazer passar as reformas de que o país precisa, o Presidente da República agarra-se ao cargo para manter seu foro privilegiado. O PSDB, ao que parece, está decidido a continuar errando, a trair quem nele confiou, tal qual Emma Bovary, e a caminhar, tal qual Emma Bovary, para a agonia final.

Gabriel Heller é advogado e auditor no Distrito Federal. 

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