“Black Mirror” – A nossa distopia? 

“Black Mirror” – A nossa distopia? 

Estado da Arte

03 Abril 2017 | 16h00

Por Felipe Pimentel

A série Black Mirror da Netflix levantou os debates mais diversos sobre nossa relação com o “espelho negro” dos smartphones gadgets em geral, desde as mais pueris acusações de nossa adicção a eles até as complexas discussões sobre o quanto há de social nas redes sociais. Diante disso, cabe uma pergunta: todos aqueles ambientes, circunstâncias, relacionamentos e protagonistas da série, seriam a nossa distopia, isto é, o lugar assombrado para onde nos dirigimos?

Em oposição à literatura utópica, cuja origem poderíamos remontar até mesmo à pólis ideal de Platão, mas que mais adequadamente inicia no século XVI, com Utopia, de Thomas More, a literatura distópica se disseminou no século XX, entre outras razões pela exacerbação dos conflitos bélicos, da globalização, das telecomunicações e, por fim, pela ascensão de governos totalitários à esquerda e à direita.

As três obras canônicas da literatura distópica (Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, 1984 de George Orwell, e Fahrenheit 451 de Ray Bradbury) foram escritas nos anos mais tensos do século XX (entre 1932 e 1953), abrangendo a época do entreguerras até o início da Guerra Fria. Suas narrativas são distintas: no Admirável Mundo Novo, vive-se numa Londres futura, dividida em castas e repleta de regras e condicionamentos de comportamentos, onde um alimento (soma) supre as necessidades básicas de uma vida confortável em aparente liberdade sexual. O protagonista Bernard Marx vê tudo ruir quando se apaixona por Lenina Crowne. Em 1984, uma sociedade completamente vigiada por um aparato estatal (Big Brother) que a todos controla busca impedir o livre pensamento e a dissidência, cria uma nova língua, uma nova teoria moral, e as impõe através dos mais diversos expedientes, desde o controle da imprensa (alteração de notícias, reescritura da história etc.) até a prisão, tortura e morte de cidadãos.  O protagonista Winston quase sobrevive ao sistema ao se apaixonar por Julia, porém, torturado no temível quarto 101, aceita o domínio do “Grande Irmão” em sua mente. Em Fahrenheit 451, numa América futura imaginária, há uma exacerbada perseguição à leitura e, por conseguinte, um bibliocausto: milhares de livros queimados a 451 graus fahrenheit. Guy Montag, o protagonista, consegue perceber a que está submetido ao se apaixonar por Clarisse McCleelan.

Os cenários são diferentes entre si, uns mais amplos, outros mais simplórios. Porém, a literatura distópica compartilha características comuns. Primeiro, em todo cenário distópico há uma planificação exagerada da vida por parte dos órgãos de Estado; segundo, há uma tentativa de uniformização dos comportamentos; como efeito deste, em terceiro lugar, um anseio generalizado para dissipar tudo que diz respeito à singularidade ou personalidade; quarto, controle da informação, do conhecimento e da leitura; quinto, uma busca para reiniciar a civilização e apagar o passado anterior a esse reinício; e, por fim, um anseio de domínio da natureza (da natureza em si e da natureza humana). Outra característica comum às distopias reside nas forças que podem combater o cenário distópico. Sempre a dúvida, o erro ou a ilusão; a pluralidade, de pensamento ou comportamento; a liberdade, em todas suas acepções; o acaso ou qualquer evento que escape do controle; a memória, individual ou coletiva; e, o mais importante, o desejo – sempre que alguém se apaixona num cenário distópico, as forças que mantêm o sistema “perfeito” funcionando começam a ruir.

Black Mirror poderia ser uma distopia? À primeira vista, é perfeitamente distópico: são cenários futuros, nos quais dispositivos ultra-tecnológicos, aplicados ao cotidiano das comunidades, escaparam do controle dos cientistas e tornando-se danosos, nocivos ou mesmo devastadores para a sociedade como um todo. Várias temáticas da distopias também estão presentes: controle tecnológico sobre a natureza humana (o chip que permite gravar todas as memórias ou o jogo de videogame que se passa na mente de cada pessoa), despersonalização (o comportamento estereotipado e artificial das pessoas no mundo onde um aplicativo permite avaliarem-se constantemente com notas), espetacularização da mídia e das redes sociais (o escracho virtual dos criminosos virtuais ou do primeiro-ministro britânico), a banalização da vida pública (o desenho animado Waldo, candidato político) e assim por diante.

Porém, olhando profundamente, não há nada de distópico: ao apresentar a banalização da vida política, seja pelo primeiro-ministro britânico sendo coagido a transar com um porco, seja por um Waldo candidato; ao tematizar a destruição da imagem (ou mesmo a luta desesperada para mantê-la intacta) de alguém pelo escracho virtual; ao escancarar a busca desenfreada pelo entretenimento e pela virtualização das relações sociais; ao mostrar a solidão do mundo das redes e a violência legitimada dos juízes virtuais (na ótima e provável referência às Vespas, de Aristófanes); ao representar a artificialização dos comportamentos e dos relacionamentos pela pressão da legitimidade virtual; enfim, ao apresentar tudo isso, Black Mirror não nos apresenta um cenário futuro e longínquo que poderíamos remota e desgraçadamente habitar, mas, pelo contrário, somente metaforiza o mundo em que já vivemos – e ainda bem que assim o faz, é mais agradável, por parecer mais distante.

Felipe Pimentel e psicanalista e historiador.