Bernard Williams e os limites da Filosofia

Bernard Williams e os limites da Filosofia

O que a filosofia moral de um dos mais importantes pensadores da segunda metade do século XX pode nos ensinar? Nada menos que uma melhor compreensão da ética e da natureza da política.

Estado da Arte

02 Outubro 2018 | 19h32

 

por Ana Luiza Rodrigues Braga

No início da clássica conferência intituladaThe Liberalism of Fear (O liberalismo do medo), Bernard Williams conta que, conversando com o filósofo americano Michael Stocker, ambos chegaram à conclusão, após uma dose de bourbon, de que seus trabalhos consistiam largamente em lembrar aos filósofos morais verdades sobre a vida que são bem conhecidas por qualquer ser humano adulto, exceto pelos próprios filósofos morais. Depois de mais algumas doses, conta Williams, ambos concordaram que seus trabalhos se pareciam com uma missão aeronáutica em busca de um pequeno grupo isolado da humanidade no Himalaia intelectual – e que não estava claro se este era um jeito particularmente útil de gastar a vida.

Embora reconhecendo que a anedota teria ganhado muito mais charme se contada pelo próprio Williams, escolhi reproduzi-la aqui porque acredito que ela é válida para ilustrar a crítica que ele formula em face da filosofia moral moderna. Para Williams, grande parte dos filósofos morais teriam valorizado excessivamente a clareza e a simplificação, desumanizando o pensamento ético com um excesso de procedimentos, princípios e regras e negando-se a reconhecer a complexidade da experiência ética para além dos esquemas mentais propostos por suas teorias

No livro Ethics and the Limits of Philosophy (A ética e os limites da filosofia), considerado a expressão mais completa do seu pensamento, Williams toma a tarefa de desconstruir as mais importantes teorias morais contemporâneas. Embora também critique em alguma medida as concepções clássicas da moralidade, principalmente aquela apresentada por Aristóteles, tende a ser mais complacente com elas; haveria na tradição antiga, e mais acentuadamente na poesia e tragédia gregas, uma concepção mais ampla do fenômeno ético, que levava em consideração o papel da psicologia, da linguagem, das emoções e da sorte – elementos largamente ignorados na modernidade filosófica.

O interesse de Williams pela tragédia é sintomático. Em primeiro lugar, ele nos revela uma preocupação com as contingências fáticas sobre as quais não temos controle e que nos colocam em situações nas quais estão em conflito obrigações morais que se revelam igualmente importantes. O dilema de Agamemnon, herói grego a quem foi dito pelos deuses que, para salvar os seus homens, ele deveria sacrificar a sua filha, é ilustrativo do argumento de Williams, para quem as teorias da moralidade moderna ignoram por completo as imponderáveis situações nas quais, seja qual for a escolha moral, ela será problemática tanto do ponto de vista racional quanto do ponto de vista emocional. Em segundo lugar, o interesse de Williams pela dramaturgia grega é uma forte influência de Nietzsche, filósofo que admirava e no qual se inspirava. Para Williams, Nietzsche, assim como Tucídides, Diderot e Stendhal, revelava um poderoso entendimento das motivações humanas para agir, em particular das relações entre as nossas motivações racionais e não racionais.

Quando comparada a esse tipo de abordagem, a deliberação moral desengajada proposta por pensadores como Kant, Rawls e os utilitaristas é considerada um empobrecimento de nossa reflexão ética. Isso porque embora o agente moral idealizado por esses teóricos realize o esforço racional de se distanciar de seus desejos e paixões para realizar escolhas morais em posições de imparcialidade, Williams argumenta que “o eu que está por trás de minhas reflexões sobre os meus desejos será sempre o eu a que pertence os desejos e vontades”[1]. Em suma, a racionalidade sozinha não é capaz de nos motivar a sermos bons: mais do que por razões externas oriundas de esquemas teóricos impessoais, somos movidos por nossas razões internas, isto é, por nossos projetos pessoais, nossa cultura e aquilo o que julgamos digno de importância e afeição.

O papel da filosofia na obra de Williams é minimalista, assim como o seu projeto filosófico. Extrair dos escritos de Williams uma construção positiva a respeito de qual deve ser a nossa postura ética é uma tarefa ingrata, mas a ausência de recomendações gerais e sistemáticas é precisamente a melhor expressão do seu pensamento. Em um excelente ensaio[2], Roger Scruton explica que, ao invés de construir grandes narrativas, Williams – assim como Hume, filósofo com o qual se assemelha em muitos pressupostos – buscava encorajar nossos modos ordinários de pensar, resgatando os elementos mais triviais de nossas experiências éticas. Tal trivialidade se identifica, em larga medida, com as nossas reações emocionais mais naturais, influenciadas pelo contexto social em que vivemos.

É interessante perceber como as ideias de Williams em torno dos limites da filosofia moral encontram similitudes em sua abordagem política. Embora insista no argumento de que as razões políticas são substancialmente diferentes das razões individuais, o fato é que nas formulações políticas de Williams se encontra o mesmo espírito de rejeição às teorias normativas.

Williams caracteriza o seu pensamento político como realista. Segundo ele, o grande erro de moralistas políticos como John Rawls seria colocar a reflexão moral antes das demandas políticas, empregando noções irreais sobre o verdadeiro funcionamento da sociedade. Para Williams, as teorias normativas da política ignoram, em primeiro lugar, o argumento hobbesiano de que a questão política por excelência diz respeito à ordem e à segurança física da comunidade e, em segundo lugar, que por trás dessa preocupação fundamental estão revelados “aqueles que são certamente os únicos materiais universais da política: poder, impotência, medo, crueldade e capacidades negativas”[3].

Nesse contexto é que Wiliams apresenta a defesa do liberalismo do medo, expressão cunhada pela cientista política Judith Shklar, e que carrega a concepção de que a grande tarefa da política é prevenir aquele que é o maior horror de todo ser humano: o de ser escravizado por alguém com poder superior. Mais uma vez, as emoções ganham protagonismo na análise. A grande questão aqui, diz Williams, é que quem deveria ser a solução para o medo que nos acompanha no estado de natureza geralmente se torna parte do problema: o Estado, na sua tarefa de salvar as pessoas do terror, pode ser o seu maior perpetrador. Daí a conclusão de que o liberalismo é a mais confiável garantia da autopreservação social.

O pensamento político de Williams é especialmente útil quando se trata de apontar o tipo de atitude que devemos ter para com a política, mas ele certamente não se presta a nos apontar uma solução para os conflitos de valores com os quais nos deparamos todos os dias. Discípulo de Isaiah Berlin, Williams tinha uma visão trágica das soluções possíveis diante de conflitos de valores como liberdade negativa, liberdade positiva, igualdade socioeconômica e justiça social. Para ele, a pluralidade de valores faz exigências conflitantes às instituições e à sociedade, levando inevitavelmente a escolhas sacrificantes e geradoras de ressentimento. Eis o cerne do seu debate com Ronald Dworkin, para quem a maneira errônea com que interpretamos os valores é que permite afirmar a existência de conflitos entre eles; caso concebidos corretamente, os valores se reforçariam mutuamente[4].

A mesma sensação de desamparo se sente na sua filosofia moral. A ideia de que a filosofia tem muito pouco a dizer sobre nossos dilemas éticos é perturbadora. A esse respeito, Jonathan Lear argumenta que a obra de Williams busca uma abordagem da ética a um só tempo psicológica, histórica e cultural, capaz de se mostrar rica o suficiente para abarcar a possibilidade de explicação, justificação e crítica moral, mas humilde o suficiente para não se tornar, ela própria, uma teoria moral. Na visão de Lear, o pensamento de Williams aponta para o papel crescente da psicanálise na abordagem do que se poderia chamar de uma psicologia moral. Na visão de muitos, o pensamento de Williams aponta para um estado de profunda desorientação, que parece inviabilizar a própria possibilidade de se fornecer justificativas aceitáveis para as nossas escolhas morais.

Como um sol que ilumina, mas não aquece – parafraseando Martha Nussbaum[5]– Williams fornece pouco consolo para as nossas inquietações. Conquanto seu ceticismo seja “mais sobre a filosofia do que sobre a ética”[6], a constatação de que estamos perdidos em nossa abordagem filosófica é possivelmente algo muito positivo, mas apenas se nos permitir encontrar o rumo correto e seguir em frente. Segundo Charles Taylor, uma das mais risíveis consequências da filosofia moral moderna é que precisamos “lutar ladeira acima para redescobrir o óbvio”[7]. Certamente Williams nos faz dar largos passos nessa jornada.

 

Ana Luiza Rodrigues Braga é professora, mestre e doutoranda em Filosofia do Direito pela USP

 

[1]WILLIAMS, Bernard. Ethics and the Limits of Philosophy. Abingdon: Routledge, 2006, p. 69.

[2]SCRUTON, Roger. Bernard Williams: Essays and Reviews1959-2002, review. Disponível em: . Acesso em 17 set. 2018

[3]WILLIAMS, Bernard. In the Beginning Was the Deed: Realism and Moralism in Political Argument. Princeton: Princeton University Press, 2005, p. 59.

[4]Para uma última análise do debate entre Bernard Williams e Ronald Dworkin, vide: ABREU, Jacqueline. “O pluralismo de valores em Williams”. Teoria jurídica contemporânea, v. 2, n. 1, 2017.

[5]NUSSBAUM, Martha. Tragedy and Justice. Disponí­vel em: http://bostonreview.net/archives/BR28.5/nussbaum.html. Acesso em 17 set. 2018.

[6]WILLIAMS, Bernard. In the beginning was the deed: realism and moralism in political argument. Princeton: Princeton University Press, 2005, p. 74.

[7]TAYLOR, Charles. “A Most Peculiar Institution”. In: ALTHAM, J.e.J..; HARRISON, Ross (Org.). World, Mind, and Ethics: Essays on the Ethical Philosophy of Bernard Williams. Cambridge: Cambridge University Press, 1995, p. 153.