Belezas póstumas, belezas perenes

Belezas póstumas, belezas perenes

Idealizada por Catarina a Grande e executada por Étienne Falconet, a estátua de Pedro o Grande viu avançarem os exércitos de Napoleão e Hitler, o fim dos czares e décadas do domínio soviético.

Estado da Arte

27 Janeiro 2018 | 13h20

por Laura Ferrazza 

A coluna deste mês é homenagem a um grande amigo, o jornalista Robson Pandolfi (1987 – 2018), que nos deixou recentemente, de forma abrupta e precoce. Para isso, escolhi contar a extraordinária biografia de uma das maiores obras de arte feitas no país que meu amigo tanto admirava: a Rússia. É bem verdade que ele preferia a fase soviética, mas eu jamais conseguiria falar do assunto com a verve e paixão de Robson. Por isso, escolhi um episódio da Rússia czarista. Hoje, falarei sobre a magnífica e complicada homenagem que certa czarina, chamada a “Grande”, realizou a seu antecessor – de epíteto idêntico igualmente volumoso.

Estamos em 1765. Catarina II subiu ao poder há apenas três anos. A jovem princesa, de origem alemã, fora enviada à Rússia muito antes disso, para se casar com o herdeiro do trono, Pedro III; a união ocorreu em 1745. Depois de um reinado relâmpago, de apenas um ano, seu cônjuge, que tinha sérios distúrbios mentais e comportamentais, sofreu um golpe – desferido pela própria esposa. A antiga czarina Elizabeth I, filha de Pedro, o Grande, havia construído inúmeros monumentos para homenagear seu pai, o mais famoso dos monarcas da Rússia. Catarina, por não ser russa, quis fortalecer sua ligação com o país associando-se ao legado deixado por Pedro – que havia elevado a Rússia ao patamar de uma das grandes potências europeias ainda no século XVII. Por isso, logo que subiu ao poder, Catarina decidiu construir o maior monumento jamais visto na Rússia, superando todas as homenagens anteriores ao grande czar.

Ao idealizar seu projeto, Catarina concluiu que nenhum artista russo teria condições de executá-lo. Por isso, solicitou que seu embaixador em Paris procurasse um escultor francês que fosse capaz de realizar uma grandiosa estátua equestre de Pedro I em bronze. Diderot, com quem Catarina se correspondia, indicou Étienne Maurice Falconet – na época, diretor da fábrica de porcelanas de Sèvres. Foi uma sugestão um tanto estranha, pois Falconet era escultor de imagens delicadas e de pequenas proporções, feitas em porcelana – o tipo de escultura favorito no período. O projeto de Catarina era o oposto disso. Aos 51 anos, Falconet nunca havia trabalhado em grande escala. Ainda assim, persuadido por Diderot, ele aceitou o convite imperial. Por um soldo anual de 25 mil francos, concordou em dedicar oito anos à obra. No fim das contas, contudo, acabou permanecendo 12 anos na Rússia.

Falconet chegou a São Petersburgo em 1766 e foi recebido com entusiasmo por Catarina. A imperatriz já tinha bem clara na mente uma ideia de como a estátua deveria ser: imensa, com o cavalo empinando, o braço de Pedro estendido sobre a margem do rio Neva, que banha a cidade por ele criada, São Petersburgo. A grandiosidade e as expectativas demonstradas por Catarina obrigaram Falconet a trabalhar em uma escala que jamais imaginara, demandando grandes esforços. A fim de ajudá-lo a entender a aparência e os movimentos de um cavalo empinado, a czarina colocou à disposição do artista dois de seus melhores cavalos, junto com adestradores para fazê-los assumir a posição a ser retratada. Logo, Falconet começou a esculpir em argila os primeiros modelos da estátua, para em seguida apresentá-los à imperatriz, esperando sua aprovação. A soberana aceitou todos os modelos, demonstrando entusiasmo e deferência.

Enquanto Falconet estudava a postura dos cavalos imperiais, sua assistente, Marie-Anne Collot, que veio com ele de Paris, começou a trabalhar a cabeça e o rosto do czar, recorrendo à máscara mortuária e aos retratos de Pedro. No verão de 1769, um modelo em argila foi apresentado ao público pela primeira vez. E aí começou o calvário de críticas que atormentaria Falconet por anos e anos a fio. Um dos pontos de controvérsia foi a serpente que o artista colocou sob as patas traseiras do cavalo. O público achou desagradável a imagem do ofídio; o que nenhum leigo compreendia é que a serpente era essencial para dar suporte à estrutura. Embora imenso, o conjunto escultórico idealizado por Falconet tinha a aparência leve e fugidia das estatuetas de porcelana. O artista imaginou um cavalo que, empinando-se, parecesse flutuar no ar, com apenas três pontos de apoio: as duas patas traseiras e a ponta da cauda que toca discretamente o chão; esses três pontos assentam sobre a tal serpente. Na época, o escultor declarou a respeito de seus críticos: “Eles não fizeram, mas eu fiz, o cálculo das forças necessárias”.

Em 1770, outro modelo – desta vez, o definitivo – foi apresentado. A reação, mais uma vez, foi hostil. O público acusou Falconet de vestir o herói russo em roupas de imperador romano. Os líderes da Igreja Ortodoxa chegaram a dizer que “aquele francês” transformara Pedro, o Grande, em um rei pagão. Mesmo diante de todas essas críticas, Catarina continuou a defender e a incentivar seu contratado.

Antes de converter o colossal modelo em uma estátua de bronze, o escultor e a patronesse trataram de encontrar uma base para assentá-la. Coincidentemente, nessa mesma época, um grupo de escavadores, que procurava granito na região da Karelia finlandesa, descobriu um enorme bloco de pedra enterrado num pântano. Quando foi totalmente desencavado, descobriram que tinha 7 metros de altura, 13 de comprimento e 10 de largura, pesando 150 toneladas. Catarina achou que aquele pedregulho da Idade do Gelo poderia servir de pedestal para a estátua. Para transportá-lo até São Petersburgo, contudo, foi necessário criar um sistema que, por si só, era uma proeza de engenharia.

Os engenheiros da czarina aguardaram o inverno, para que as terras estivessem cobertas de gelo; então, o monólito foi acondicionado em um trenó metálico, sobre esferas de cobre com pontas de madeira, que serviam como rodas, e arrastado por seis quilômetros até o mar. Foi necessário erguer um sistema de polias e congregar mil homens para puxar a pedra; enquanto as rodas sulcavam a terra gelada, a enorme rocha percorreu 100 metros por dia, desde a clareira onde foi encontrada até a beira do mar. Numa praia do golfo da Finlândia, aguardava-a uma barcaça, especialmente construída para transportá-la. Após o embarque daquela carga tremenda e preciosa, a barcaça teve de ser amarrada a dois grandes navios, um de cada lado, para evitar que emborcasse. Dessa maneira, o pedregulho foi rebocado lentamente através do golfo e do rio Neva, até ser desembarcado e colocado na posição desejada, na margem do rio.

O processo do transporte da base do monumento demorou cinco anos. Transcorreram mais quatro anos até que fosse encontrado um mestre de fundição capaz de moldar a enorme quantidade de bronze necessária para dar vida ao molde de Falconet. Cavalo e cavaleiro pesariam, quando prontos, 16 toneladas. Para que todos os detalhes idealizados por Falconet aparecessem com nitidez, era necessário que o bronze tivesse uma espessura entre meio centímetro e dois centímetros e meio – o que dificultava imensamente sua execução, pois o bronze seria fino demais para uma estrutura tão grande. O projeto de Falconet, associado às expectativas exorbitantes de Catarina, mostrou-se, na prática, um pesadelo. Em diversos momentos do processo de fundição, o molde se rompeu e o trabalho teve de ser reiniciado. Outras vezes, o metal em ponto de fusão ficava em chamas; ao apagar-se o fogo, o metal endurecia e tinha de ser cavado, raspado, fundido e moldado novamente.

A sucessão de problemas na execução da estátua não apenas protelava o esperado momento de sua inauguração, mas aumentava os gastos com a obra. O impasse fez com que as relações entre Catarina e Falconet ficassem estremecidas. Do entusiasmo e incentivo inicial, a imperatriz passou à indiferença e à irritação. O gênio sensível do artista se chocava com a impaciência crescente da imperatriz, incapaz de compreender as dificuldades técnicas envolvidas em uma obra daquele porte. Após 12 anos na Rússia, Falconet chegou ao limite de suas forças. Em 1778, cansado das críticas ferozes e dos problemas sucessivos, abalado física e psicologicamente, Falconet pediu permissão para regressar a Paris. Catarina lhe pagou o que devia, mas não foi nem mesmo se despedir. De volta a seu país, tornou-se diretor da Academia de Belas Artes. Após a partida de Falconet, passaram-se mais 4 anos antes que o bronze fosse concluído: no total, foram necessários 16 anos para sua confecção.  A inauguração da estátua ocorreu em 1782 – Falconet nem sequer foi convidado para o evento. Um ano depois, sofreu um derrame cerebral. Viveu mais oito anos, em más condições de saúde. Continuou escrevendo sobre arte, mas nunca mais conseguiu fazer uma escultura.

Apesar da ingratidão de Catarina, o árduo trabalho de Falconet foi recompensado pelo Tempo. O resultado de seus esforços é ainda hoje um ponto de referência da cidade de São Petersburgo e um dos maiores monumentos jamais feitos na Rússia. Somente um escultor embebido do que podemos chamar de “espírito do rococó” poderia ter idealizado e executado uma obra que, apesar de suas dimensões, transmite a leveza aérea dos movimentos. A obra levou seu mentor a um melancólico fim de carreira, mas permaneceu empinada e soberba através dos séculos. Ainda podemos ver Pedro, o Grande, imortalizado em bronze, com a cabeça erguida a 15 metros do chão, nos trajes romanos que tanto irritaram os sacerdotes ortodoxos, com a face voltada para o rio Neva, a mão esquerda agarrando as rédeas do cavalo, empinado sobre a crista de uma onda imobilizada em pedra. O braço direito aponta para a fortaleza do outro lado do rio, a primeira edificação da cidade criada por ele. Dessa posição, a estátua viu avançarem os exércitos de Napoleão e Hitler, viu a era dos czares chegar ao fim, viu passarem as décadas do domínio soviético; e até hoje continua dominando a paisagem e encantando os olhos. A força desta imagem ecoa no tempo, em outras vozes, em outras artes. A dolorosa obra-prima de Falconet inspirou um poema de Alexander Púchkin, intitulado “O cavaleiro de bronze” (1833), cujo trecho abaixo encerra esta homenagem:

A imagem de braço aberto em gesto largo
Montando um cavalo de bronze…
Ele, que imóvel, elevado e difuso,
Essa cidade junto ao mar fundou,
Sua vontade ditava o destino. Temível ainda está
Cingido pela bruma e o vento.
Que pensamentos cinzelam sua fronte!
Quanto poder oculto e autoridade exala!
Intrépido guerreiro, por onde cavalgaste,
Aonde foste? E onde, e quem
Esmagarás sob os cascos do cavalo?

Laura Ferrazza é doutora em História da Arte pela Sorbonne/PUCRS e pesquisadora do PPG de História da UFRGS.

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