Baudelaire e a Moda

Baudelaire e a Moda

A preocupação pelo adorno é marca da nobreza primitiva da alma humana, diz Baudelaire: mesmo as crianças demonstram espontaneamente um encanto pelo que enfeita e embeleza. A moda, portanto, sinaliza o gosto do ideal que ultrapassa o natural, como uma deformação sublime da natureza ‒ ou melhor, como uma tentativa permanente e continuada de reforma da natureza.

Estado da Arte

14 de julho de 2017 | 14h00

Por Laura Ferrazza

Os 150 anos da morte de Charles Baudelaire (1821-1867) vêm sendo garbosamente comemorados entre nós: há pouco, o colunista do Estado da Arte Rodrigo de Lemos brindou-nos com o primeiro de uma série de textos que exploram as múltiplas facetas do chamado inventor da modernidade. Minha intenção, hoje, é deter-me em um aspecto particular do grande espírito que nos legou As Flores do Mal: seu interesse pela moda. Baudelaire foi poeta e crítico de arte; mas, antes de tudo, foi um arguto observador de seu tempo. Essa qualidade é evidente em todos os seus escritos, mas hoje falaremos sobre O Pintor da Vida Moderna, publicado pela primeira vez no jornal Le Figaro em 1863. (Aqui utilizo a tradução de Tomaz Tadeu, Autêntica Editora, 2010). Nesse célebre texto, Baudelaire analisa a arte de um pintor anônimo: o Sr. G. Hoje, conhecemos a identidade desse misterioso objeto de estudo ? trata-se de Constantin Guys (1802-1892). Ao debruçar-se sobre a obra de Guy, Baudelaire apresentou-nos não apenas uma concepção pessoal de arte e um conceito específico de modernidade, mas também sua apreciação individual sobre o universo da moda.

A obra pictórica de Constantin Guys apresenta um profuso encantamento pelos trajes da época, como podemos observar em uma de suas pinturas, reproduzidas neste ensaio. Em O Pintor da Vida Moderna, Baudelaire parte das obras de Guy ? ou G. ? para elaborar reflexões amplas sobre a relação entre o espírito artístico e o tempo em que habita. Baudelaire faz uma comparação entre a figura do artista e a do flâneur ? o observador apaixonado que passeia pelas ruas da cidade e deixa seu olhar deter-se sobre os detalhes dos trajes, dos penteados das damas, do ruflar das sedas, dos cabelos anelados que saltitam ao deslizar das saias flutuantes. Esses pequenos lampejos do cotidiano integram o material que, na opinião de Baudelaire, deve florescer intensamente no interesse do artista. O valor que Baudelaire atribui à moda pode explicar-se pelo momento e o local em que viveu: a Paris de Napoleão III. O Segundo Império francês (1852 – 1870) ficou conhecido pelos amantes da moda como o “Império da Crinolina” ? tipo de saia de armação característica da época. O espírito do tempo encarnava-se na figura totalmente à la mode da imperatriz Eugênia.

Em um lance que não deixa de combinar com a atmosfera mental da época, Baudelaire situou o fenômeno da moda no cerne de suas reflexões estéticas sobre a arte e a modernidade. Ao buscar o sentido do termo “modernidade”, o autor conclui que o fenômeno histórico-social da moda estava intimamente ligado ao desejo moderno pelo novo. A moda, no texto de Baudelaire, parece carregar a centelha da própria modernidade. Através de sua sensibilidade aguçada e intelecto observador, Baudelaire construiu relações entre a beleza da arte e a beleza dos trajes, derrubando barreiras hierárquicas entre as duas esferas. Por exemplo: em sua reflexão, atribuiu valor estético genuíno aos croquis de moda publicados na imprensa especializada, que datavam do período entre a Revolução Francesa e o Consulado (1789 – 1804).

Baudelaire afirma que as gravuras de moda são mais que um registro dos trajes de cada época; também condensam um ideal de beleza e de gosto. Produzi-las é tarefa que demanda habilidade em observar as oscilações aparentemente frívolas do trajar cotidiano. A moda, nesse sentido, expressa exatamente a dimensão temporal exaltada pelo autor: o presente. É preciso ter o êxtase do novo para se encantar com a moda. Ela materializa o espírito do fugidio, o tempus fugit que encanta o flâneur, homem do mundo que, com seu “olhar da águia”, capta a menor alteração nos detalhes do vestir, nos apetrechos, nos penteados femininos. É com essa mirada aquilina que o Sr. G. flana sobre o tecido de imagens do Segundo Império.

Assim como o Sr. G., outros artistas, em outras épocas, souberam capturar o espírito das vestimentas; para Baudelaire, ao olharmos as imagens da moda do passado, não devemos buscar apenas o que elas contêm de histórico, mas o que possam conter de poético: em suas palavras, o olhar do artista sobre a moda sabe “extrair o eterno do transitório”. O verdadeiro artista ? ao qual Baudelaire se refere como “homem do mundo em sentido amplo” ? preocupa-se em representar os tecidos, os detalhes dos trajes, suas tramas e texturas, o corte da saia, o modelo do corpete, a posição das pregas; além disso, contudo, ele deve observar de que forma o presente difere do passado em termos de gestos e porte individual.“Para que toda modernidade seja digna de se tornar antiguidade, é preciso que dela se extraia a beleza misteriosa que a vida humana involuntariamente lhe outorga”. No traje e na maneira de usá-lo encontra-se parte dessa beleza misteriosa, já que cada época tem seu próprio porte, seu próprio olhar e seu próprio gesto. Para Baudelaire, é principalmente na figura feminina que o olhar artístico encontrará essas marcas distintivas. É impossível separar a mulher de seu vestido, ele argumenta: ambas formam um todo indivisível: “tudo o que enfeita a mulher, tudo que serve para tornar distinta sua beleza é parte própria dela. ”

A preocupação pelo adorno é marca da nobreza primitiva da alma humana, diz Baudelaire: mesmo as crianças demonstram espontaneamente um encanto pelo que enfeita e embeleza. A moda, portanto, sinaliza o gosto do ideal que ultrapassa o natural, como uma deformação sublime da natureza ? ou melhor, como uma tentativa permanente e continuada de reforma da natureza. Todas as modas seriam cativantes, cada uma delas constituindo um esforço novo, mais ou menos feliz, em direção ao belo. Na época de Baudelaire, ao menos, a moda ainda aspirava ao belo: demonstrava a busca e a aproximação de um ideal, cujo desejo instigava o espírito humano, sempre insatisfeito, a seguir em frente, ao sabor dos novos ideais de beleza e gosto.

A grande ironia é que Baudelaire vê na artificialidade da moda um valor ? em vez de um vício. Sua crítica não se dirige às belezas inventadas da moda, mas à busca de uma natureza idealizada. Por isso ele faz um “elogio da maquiagem”, valorizando o uso do artifício para corrigir as imperfeições que a natureza deixou em seu rastro. Por fim, o poeta alerta que, para apreciarmos as modas do passado, não devemos considerá-las como coisas mortas; é preciso imaginá-las vivas, através dos corpos, gestos e movimentos das belas mulheres que as vestiram. Nesse sentido, Baudelaire aponta, de forma precoce, a necessidade de pensar a moda como um constante movimento e um eterno devir.

 

Laura Ferrazza é doutora doutora em História da Arte pela Sorbonne/PUCRS e pesquisadora

do PPG de História da UFRGS

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