Basta de silêncio – a insuportável polarização política no Brasil

Basta de silêncio – a insuportável polarização política no Brasil

Definir a priori valores ideologicamente orientados em esquerda ou direita pode parecer algo muito educado e politizado, mas não passa de uma alfabetização primária e vaga na área da política.

Estado da Arte

15 Setembro 2017 | 18h23

O que ocorreu com o Brasil desde as manifestações de junho de 2013? FOTO: André Dusek/Estadão

Por Felipe Pimentel

Uma das perguntas mais difíceis sobre a sociedade brasileira recente é a seguinte: “o que houve em 2013?” A mesma força e velocidade que produziram aqueles eventos parecem igualmente tê-los feito desaparecer – pelo menos das nossas indagações políticas. Tantas outras problematizações surgiram desde lá que aquele cenário e aquele ambiente parecem distantes. Governava outro presidente, noutro mandato; havia uma aparente união da sociedade civil – ainda que capitaneada pelos movimentos de esquerda – em torno de críticas ao mesmo tempo vagas e difusas no todo, como “mais educação e saúde” ou o ingênuo, ao mesmo tempo que sintomático, “contra tudo que está aí”. Por certo as manifestações de 2013 foram o cume da crise de representatividade política da sociedade civil no país.

Além disso, também podem ser compreendidas como uma sociedade que percebera alguns avanços na Nova República: a excessiva demanda de participação do Estado nas mais distintas áreas pode ser menos efeito de uma crença arraigada na social-democracia e mais de uma Constituição excessivamente dada a promessas; a estabilização da economia, a duras penas atingida desde os anos 1990, atestava sua solidez ao atravessar a crise de 2008; os avanços sociais, oriundos seja da estabilização, seja dos programas assistencialistas, abriam uma fenda na estática sociedade brasileira. Diante disso, as manifestações de 2013 – insisto, no todo – pareciam reflexo da sociedade que assistira tais avanços, mas que agora convocava a novos saltos – ainda que sem saber como levá-los a cabo ideológica e administrativamente.  As demandas dissipadas, a crise de representatividade e até hipóteses ainda mais profundas inviabilizaram que algum ícone – partidário ou individual – assumisse o protagonismo dessa representatividade. Logo o clima arrefeceu, e disso adveio um certo mal-estar, uma indagação do que foi aquilo, atestado de que aqueles eventos faziam todo sentido e ao mesmo tempo nenhum sentido. O que se produziu daí?

Aquele anseio de politização derivou em organização política. Grupos que já existiam – partidos e instituições várias vinculadas à vida política – perceberam que o terreno estava mais fértil para a politização e que, diante disso, tinham espaço para arrebanhar correligionários. Foi do mesmo anseio de politização e da mesma percepção que grupos novos surgiram, com os mais distintos matizes políticos – e vimos milhares de pessoas, até então alheias a políticas, envolverem-se em política – desde a partidária até o simples interesse nas coisas da vida em sociedade. Pulularam novos partidos, entidades e instituições; congressos, seminários, publicações e blogues; diversificaram debates em faculdades e na imprensa; surgiram associações politizadas as mais distintas, expandindo o espectro político para extremos raríssimos – desde o retorno das defesas do socialismo clássico até o anarco-capitalismo. O país passava por uma alfabetização política, e quando as eleições de 2014 chegaram, o ambiente estava mais profissionalizado.

Ali se escancarou uma rachadura na sociedade civil – cujas raízes não importa resgatar aqui, por ora -, uma rachadura que não mais permitia 2013, e que se travestiu de petismo e antipetismo. Até então, natural para um cenário de eleição. Porém, a crise econômica pós-eleição agudizou o cenário. Especialmente os novos grupos políticos, agora profissionalizados, fermentaram a polarização e lhe conferiram contornos nítidos – tratava-se não só de petismo e antipetismo, mas de defesa ou do impeachment ou narrativa do golpe. A problemática até então dispersa e difusa tinha agora um objeto real de disputa, um espantalho que parecia apontar o nó da questão, atiçando os ânimos. Ali os possíveis debates entre diferentes correntes de opinião se inviabilizaram no país – entrincheirados, os grupos – e também as pessoas comuns – iniciaram um processo de antagonismo, que chegou às raias da surdez e, infelizmente, também da violência. A tensão social em torno da política se refletiu na vida das pessoas comuns – provocando efeitos nas suas vidas pessoais, nos seus ambientes de trabalho, etc. – e na vida política profissional (tanto os discursos, quanto as atitudes dos políticos tornaram-se mais explícitas e agressivas – o que temos no mutuamente patético evento de Bolsonaro e Jean Wyllis na votação do impeachment).

Um cenário de antagonismo e violência gera os temores mais diversos, e seu efeito evidente costuma ser alçar à vitrine os políticos mais agressivos, logo, menos democráticos. A efetivação do impeachment, em que um governo corrupto e inepto foi julgado por um Congresso promíscuo e perverso que bestializa seu povo, cindiu ainda mais a sociedade, ao oferecer elementos para a narrativa de ambos os lados – a “corrupção do PT” como causa exclusiva dos males do país e o “golpe constitucional”. A polarização atingiu seu ponto mais alto, as narrativas foram infladas e, desde então, ou as pessoas dialogam entre os seus iguais, ou estarão se colocando em risco. A pluralidade de ideias, que se caracteriza exatamente pela capacidade de ouvir opiniões diversas e pela dispensa de pisarmos com pés de lã no debate político, simplesmente se esfumaçou; e qualquer opinião passou a ameaçar aquele que a enuncia – progressivamente caminhamos até o ponto atual, no qual se dissemina o dito “não se pode falar mais nada”.

Não falo aqui dos limites do chamado “politicamente correto”, pelo contrário, mas de algo muito mais amplo, a saber, a noção de que qualquer opinião pode condenar uma pessoa na sua vida pessoal ou profissional, pois é vista como um índice de seu lugar no antagonismo político. Nesse ínterim, houve algo ainda mais grave: a polarização política aliou-se a um processo de ideologização de toda a realidade, na qual todas as questões da vida cotidiana, das mais ínfimas às mais elevadas que porventura surjam, são capturadas pelo espectro ideológico – do personagem da novela a uma exposição artística; do patrocínio do evento cultural à opinião sobre cotas raciais.

Por óbvio, a ideologização da realidade faz com que a (suposta) política adentre as mais cotidianas situações. E ideologia é algo distinto da política; em primeiro lugar, a ideologia é uma lente pela qual toda a realidade é filtrada e, num certo sentido, ficcionalizada; e, em segundo lugar, o ideólogo atrapalha muito mais que o político, pois a ideologização da realidade faz com que a (suposta) política adentre as mais cotidianas situações – tornando-se uma problematização constante. Esse processo é mais antigo do que parece, e em nossa história recente começou com a esquerda e depois, em reação, foi apropriado e reproduzido pela direita. A percepção de que o quadro se expandiu ampliou os modos de silenciamento, pois a vigilância da opinião agora possui dois adversários opostos. Assim como na alta política, em um cenário tenso e de ameaça constante, os mais moderados e pacíficos ficam de fora, e ganham protagonismo os mais truculentos. Houve um recrudescimento das opiniões e também de ações de ambos os lados, num movimento dialético que, ao esticar a corda, faz com que os opostos se afastem cada vez mais, tornando-se cada vez mais autônomos dentro de si mesmos e distantes um do outro. Os grupos, ao se afastarem, adquirem cada vez contornos mais nítidos e, ao fazê-lo, inviabilizam ainda mais o diálogo com opiniões divergentes. O tecido social está claramente esgarçado e, sejamos hegelianos ou marxistas, quando um antagonismo atinge esses níveis de afastamento e de autonomia, o prognóstico não é promissor: cada um dos grupos lentamente vai ganhando autonomia até a exaustão, deixando como único encaminhamento a supressão do outro numa nova totalidade. O que fazer?

Durante os anos de avanço da esquerda (para falarmos no maniqueísmo vigente), capitaneada por alguns de seus setores mais radicais, quando houve a imposição de seus valores e de aparelhamento em diversos âmbitos, o que fizeram os moderados? Nada, deixando aberto o caminho para a pauta de esquerda se assemelhar a algo hegemônico. O revés está chegando, e para furar tal hegemonia, ele está avançando não razoavelmente, mas tal qual um tsunami. Este atual confronto teve o mérito de oferecer o espelho para os setores intolerantes da esquerda, que durante anos vigoraram: o ideólogo não debate, silencia; não escuta, vocifera; não se transforma, mas convence; e, pior, não aprende, mas impõe. O que se descobre com o amadurecimento político, é que a ideologia em si não resolve problema algum. Ela trabalha no reino dos entes abstratos, das ideias políticas per se – como privatizar ou não esta ou aquela estatal, independente da avaliação real, informada e baseada em dados de cada caso.

Definir a priori valores ideologicamente orientados em esquerda ou direita pode parecer algo muito educado e politizado, mas não passa de uma alfabetização primária e vaga na área da política. Serve somente para falsos debates, estéreis todos, mas não para tomar decisões na gestão pública ou nas práticas civis. Seja enquanto indivíduos que fazem determinadas escolhas na sua vida pessoal ou profissional, seja enquanto gestores da coisa públicas, as decisões devem ser fundamentadas não nos valores abstratos de uma ideologia, mas na análise de cada caso, o que requer estudo, informação e diálogo com os atores envolvidos – e não se estamos alinhados com esta ou aquela ideologia. Em todo esse cenário, há aspectos positivos, por certo. Em primeiro lugar, o espectro político ficou mais heterogêneo, o que, na prática, não significa melhor debate, somente que há mais conceitos. Em segundo lugar, e isso é essencial, o ambiente parece pedregoso, mas devemos vê-lo como uma oportunidade. Há uma convocação, uma urgência de que os até então silenciados comecem a falar, mas em outro registro: naquele em que as opiniões não demonizam ninguém pessoalmente; em que resistimos às polarizações que só ideologizam e nada informam; em que os ataques dos radicais não encontram eco e a única bandeira existente é a da tolerância.

Parece vago e idealista, mas trata-se, antes de tudo, de uma convocação ao debate e ao estudo informado não-ideológico. Se houve uma alfabetização política, ainda que primária, no país, isto é, se aprendemos as letras e a formação de sílabas, talvez esteja na hora de formarmos as palavras.

 

Felipe Pimentel é psicanalista e historiador