As falsas fragilidades narrativas de “Vidro”

As falsas fragilidades narrativas de “Vidro”

Em “Vidro”, M. Night Shyamalan encerra a sua trilogia de heróis e vilões refletindo narrativamente os objetivos e as principais características do protagonista.

Estado da Arte

08 Fevereiro 2019 | 11h53

por Miguel Forlin

Em Corpo Fechado, David Dunn (Bruce Willis) sabe que tem poderes especiais, mas é somente com a intervenção direta de Elijah Price (Samuel L. Jackson) que o segurança de estádio aceita os seus dons heroicos. Por consequência, a relação com a esposa e o filho, até então prejudicada pela sua indefinição existencial, progride, e ele se torna, diante dos olhos da família, um homem muito menos distante e frio.

Esse processo de transformação, que vai da autonegação à aceitação de uma essência sobrenatural, é psicológico, porém, visualmente, ele está expresso na mise-en-scène. David manifesta a sua nova e real identidade na forma como é enquadrado e na relação física que mantém com as personagens e objetos ao redor.

Resultado de imagem para unbreakable bruce willisBruce Willis em Corpo Fechado (Buena Vista/Photofest)

Em Fragmentado, há uma lógica parecida. Kevin Wendell (James McAvoy), que possui 23 personalidades diferentes e está prestes a dar vida a uma vigésima quarta, também necessita da “ajuda” externa de outras pessoas (a psiquiatra vivida por Betty Buckley e a jovem interpretada pela Anya Taylor-Joy), tem de enfrentar um longo e árduo desenvolvimento psicológico até exteriorizar a Fera  ̶ estágio final que lhe dá diversas habilidades, a força sobre-humana sendo uma delas ̶ e, de maneira similar ao protagonista de Corpo Fechado, manifesta a sua verdadeira identidade através de mudanças físicas, do poder que exerce sobre os outros e da sua interação com os ambientes (o metrô simbolizando a alternância de personalidades).

Já em Vidro, o público se depara, logo no início, com uma surpreendente impotência. Tanto David quanto Kevin vivem vidas subterrâneas, à margem da sociedade. O primeiro pratica a sua vigilância em casos menores de ilicitude e conta apenas com a ajuda do filho na solução de crimes. O segundo, no que também é uma consequência das suas ações, continua escondido em túneis e becos da cidade. A mídia noticia a existência das duas figuras em algumas manchetes de jornal e matérias de televisão, mas ainda não há o reconhecimento geral de que seres extraordinários habitam o mesmo universo que as demais pessoas. Naturalmente, qualquer gesto expansivo pode trazer repercussões públicas negativas.

No primeiro ato, o único momento em que a narrativa abandona essa aparente passividade e se aproxima dos confrontos físicos dos filmes anteriores é o primeiro embate entre as duas personagens, no qual David salva um grupo de jovens das amarras do seu inimigo. No entanto, essa luta  ̶ ansiosamente esperada pelos espectadores e sabiamente antecipada por Shyamalan, pois serve como um clímax breve antes do abismo narrativo que aguarda as personagens nas próximas cenas  ̶  é rapidamente interrompida por água e refletores de luz, as fraquezas de David e Kevin, respectivamente.

Já no instante seguinte, ambos estão presos em quartos separados de um hospital psiquiátrico, onde a Dra. Ellie Staple (Sarah Paulson) iniciará um tratamento de despersonalização, que consiste em fazer os pacientes acreditarem que todos os seus poderes são frutos da imaginação e de distúrbios de grandeza. Assim, depois do que parecia ser uma alteração de ritmo e abordagem, há um retorno temático e narrativo ao andamento inicial: a impotência se estabelece novamente. À frente da enorme expectativa que foi criada em torno do encontro de David, Kevin e Elijah, as escolhas de Shyamalan soam estranhas. Ficam as perguntas: por que rebaixar as personagens após a operação inversa vista em Corpo Fechado e Fragmentado? Por que deixá-las imóveis e separadas nos cômodos frios de um hospital durante vários minutos? E, principalmente, por que introduzir o protagonista, o Sr. Vidro, apenas na metade do segundo ato?

De fato, Vidro vai se costurando como uma desconfortável colcha de frustrações, experiência desoladora para fãs que ficaram horas imaginando diálogos e lutas entre o herói e os dois vilões e são obrigados a vê-los vulneráveis nas mãos de uma médica desconhecida e antipática, mas também esperada, uma vez que Shyamalan é conhecido principalmente por seus plot twists intricados e surpreendentes. Todavia, Vidro não seria o grande filme que é se as escolhas do diretor fossem justificadas como meras quebras de expectativas, um simples jogo entre o diretor e os seus fãs. Há mais acontecendo. Por trás das cortinas, existem complexos mecanismos em movimento.

Antes de tudo, Vidro é o filme de Elijah Price. E se Corpo Fechado e Fragmentado externavam, em suas narrativas e respectivas linguagens, os desdobramentos internos e físicos de David e Kevin, o longa que encerra a trilogia reflete o interior e a fisicalidade de Elijah. E isso sugere não somente um plano que está em ação muito antes do que imaginamos, como também uma certa imobilidade formal, em que a imponência e reafirmação física dos atores não se encontra mais em primeiro plano. Aparentemente, Vidro é tão frágil quanto o seu protagonista. Entretanto, esse é apenas o teatro de ilusões que esconde do espectador o verdadeiro truque de mágica.

Num diálogo metalinguístico entre criador e obra, cada uma das escolhas narrativas de Shyamalan parece espelhar o plano que o Sr. Vidro começa a realizar a partir de suas fugas do quarto e da aliança que faz com a Fera. Nos comoventes minutos finais, descobrimos que o objetivo da missão suicida de Elijah é transformar as figuras de David e Kevin em símbolos de uma nova época, na qual os seres com poderes extraordinários não serão mais desconhecidos, pelo contrário, brilharão em plena luz do dia. Ele, Kevin e David serão os mitos fundadores de uma nova civilização.

Elijah Price (Samuel L. Jackson) em Vidro

Para que isso aconteça temática e formalmente, Shyamalan realiza justamente uma despersonalização das personagens, uma dissolução das individualidades, o que permite a união de Kevin e David por aquilo que eles têm em comum: os dons extraordinários. Quando estão no hospital, as cores características de cada um (o amarelo e o verde, respectivamente) são substituídos por um branco sem vida. E essa opção é somente mais uma das que acompanham o roteiro, o qual se inicia com a impotência das personagens perante a vida, passa pelo tratamento da doutora Staple e termina com a representação simbólica e mitológica de David e Kevin, de acordo com as intenções de Elijah.

Desde o começo, Shyamalan é um cúmplice do Sr. Vidro. Ele manipula os elementos do filme, os aspectos da criação artística, para fazer o oposto do que foi realizado nos primeiros longas da trilogia e recriar na forma o que se passa na história, possibilitando, inclusive, a introdução do protagonista depois de muito ter acontecido. Como o plano de Elijah é transformar as imagens de David e Kevin em mitos que representam o potencial de surgimento de outros seres especiais, Shayaman faz algo parecido com as ferramentas que estão à disposição. “Vidro” é uma imensa abstração, uma depuração das imperfeições da matéria em direção à perfeição dos símbolos.

Dra. Ellie Staple (Sarah Paulson) em Vidro 

Saem de cena os dramas individuais, a tragédia de ter 24 personalidades, a tristeza de perder a esposa amada e a lamentação de não poder sequer brincar como uma criança normal. No lugar, entra um ideal. E numa dialética com a qual poucos autores conseguem lidar, Shyamalan emprega o momento em que Kevin e David usam toda a sua força física como a representação pictórica final dessa simbolização. Da matéria ao inefável e do inefável à representação da matéria.

Se os super-heróis são os novos deuses, David, Elijah e Kevin são as criaturas que garantiram a sua existência.

Miguel Forlin é crítico de cinema e colaborador de diversas publicações na área