As ‘Aflições’ de Olavo de Carvalho e as ‘Divas’ de Leandra Leal

As ‘Aflições’ de Olavo de Carvalho e as ‘Divas’ de Leandra Leal

"O Jardim das Aflições", sobre polemista brasileiro, e "Divinas Divas": distintos registros da homenagem.

Estado da Arte

17 de junho de 2017 | 15h00

Por Willian Silveira

Rogéria, ícone da noite carioca, brilha no filme de estreia de Leandra Leal na direção.

Há muito de admiração no cinema. Às vezes, na forma de reconhecimento, como no caso em que determinados planos e sequências são mais recorrentes na tela do que uma frase de James Joyce ou uma melodia de Bach são na literatura e na música. Os horizontes de John Ford (1894 – 1973), por exemplo, estão nos filmes há quase um século, desde que foram tomados como cartilha para enquadrar a cena. Outras vezes, estabelece-se uma relação pessoal, como a de Walter Salles para com Jia Zhangke, em Jia Zhangke, um homem de Fenyang (2014) ou Wim Wenders para com Yasujiro Ozu. Em homenagem ao diretor japonês, o alemão produziu Tokyo-Ga (1985) a fim de registrar as modificações sofridas pelo cenário de Era uma vez em Tóquio (1953) com o passar dos anos. Fruto de relações diferentes, a admiração pode resultar tanto do afeto quanto da devoção. Origens distintas, que podemos comprovar em Divinas Divas e O Jardim das Aflições.

O Jardim das Aflições surgiu com a proposta de ser um filme sobre a obra homônima de Olavo de Carvalho. Como tudo que cerca o polemista brasileiro, o projeto não transitou livre de controvérsias e diatribes. Em estreia na direção, Josias Teófilo criticou abertamente a postura política da classe artística brasileira e a má vontade em receber qualquer obra que não compactue com ela – no caso, o seu filme. Ânimos acirrados em tempos conflituosos, uma vez que a figura de Olavo é tomada, dependendo da lente por que se olha, por conservador ou liberal. Contudo, o rótulo do protagonista pouco importa ao percurso de O Jardim, iniciado com a grandiloquência de uma tomada aérea e o tom de suspense da sinfonia primeira de Jean Sibelius.

Ao contrário do prometido, o que vemos em tela é um filme que se desvirtua aos poucos, marcado pela ausência de um roteiro capaz de sustentar a densidade necessária para expor uma tese. Poderia ser tomado por uma biografia, se trouxesse ao menos as informações básicas exigidas para tal. Poderia, ainda, ser um documentário, se não carecesse de personalidade. Sem apresentar camadas narrativas, contradições ou coragem para desafiar o personagem frente à câmera, O Jardim se limita a ser uma plataforma para as considerações de Olavo. Ao contrário do filme, o protagonista tem muitas ideias. Entre cenas da casa, na Virgínia, nos Estados Unidos, e tomadas da extensa biblioteca, Olavo discorre sobre os mais variados assuntos, de metafísica à história dos Estados Unidos, passando pela hipótese gramsciana aplicada aos meios culturais brasileiros e pela recente movimentação da política nacional. Conhecido pelos cursos transmitidos online, Olavo é registrado enquanto ministra uma aula. Ao fundo da sala, sentado no sofá, avistamos Josias, que assiste atento. Uma sequência simples, mas que ajuda a compreender como O Jardim das Aflições se transformou na homenagem de um discípulo devotado ao mestre.

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Da mesma forma, Divinas Divas também causou impacto ao percorrer o circuito de festivais. Com estreia marcada para a semana que vem, dia 22 de junho, o filme de Leandra Leal impressiona não apenas por sugerir o promissor futuro da atriz na carreira de diretora mas por resgatar de maneira generosa parte fundamental da história da noite do Rio de Janeiro. Filha da atriz Ângela Leal e neta de Américo Leal, dono do Teatro Rival, Leandra frequentou desde muito cedo os bastidores do mundo artístico. Ao assumir recentemente a administração do empreendimento do avô, a diretora decidiu recuperar os anos dourados da noite carioca durante as décadas de 60 e 70.

Ao mesmo tempo em que acompanha os preparativos para a apresentação dos 50 anos de artistas como Rogéria, Jane Di Castro e Divina Valéria, Divinas Divas resgata as histórias de um mundo que hoje nos parece paralelo. Temas como a aceitação das famílias, a relação com a censura do regime militar, o sucesso nacional e internacional, o dinheiro ganho e desperdiçado vem à tona a fim de montar o panorama de um reconhecimento rico em afeto, atitude rara em um país pouco afeito ao passado. Símbolo de uma era em que o entretenimento ainda não era amplamente massificado, o filme reúne as artistas em uma última apresentação, símbolo da perseverança da memória e em nome da preservação do espaço teatral.

Willian Silveira é editor da revista Sétima e membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE).

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