Antologia comentada de Juan L. Ortiz (1896-1978): a poesia breve

Antologia comentada de Juan L. Ortiz (1896-1978): a poesia breve

Idelber Avelar traduz a poesia do argentino Juan L. Ortiz

Estado da Arte

02 Dezembro 2018 | 17h59

 

por Idelber Avelar

Juan L. Ortiz (Juanele) nasceu em 11 de junho de 1896 em Puerto Ruiz, povoado de Entre Ríos, às margens do Rio Gualeguay. Em 1942 mudou-se a Paraná, capital da província, situada às margens do rio homônimo, onde morou até sua morte, em 2 de setembro de 1978. Com a exceção de algumas rápidas idas a Buenos Aires, uma viagem de barco a Marselha ainda adolescente e uma breve visita à China e a outros países socialistas em 1957, jamais abandonou sua morada, às margens do rio. Ali dedicou toda a vida a tecer uma obra poética singular, que renovaria o idioma como poucas. Estreou em 1933 com El agua y la noche, ao que se seguem mais nove volumes que culminam com De las raíces y del cielo (1958). Esses dez primeiros livros são publicados discretamente, sem estardalhaço, sem reclamos de atenção, como cifras para um leitor futuro. Eles foram reunidos a mais três volumes inéditos sob o título En el aura del sauce em 1971. Boa parte dessa edição seria queimada pela ditadura militar que tomou o poder na Argentina em 1976. Dezoito anos depois de sua morte, em 1996, a Universidad Nacional del Litoral, de Santa Fé, publicou sua Obra completa, que inclui os treze volumes de versos publicados em vida, poemas inéditos e a menos conhecida obra em prosa, composta de relatos e crônicas. 

Ortiz realizou uma das maiores transmutações de uma bacia hidrográfica em poesia de que se tem notícia na literatura moderna. Experimentou com uma quantidade notável de sonoridades, metros, dicções e longitudes que traduzem não só a experiência ante o rio, como em todo o seu entorno – a vizinha bacia do Uruguai, os afluentes Gualeguay e Ibicuy, os povoados. Em uma cadência prolongada e atenciosa, Ortiz compõe uma verdadeira fenomenologia poética do Rio Paraná. Na coletânea El álamo y el viento, de 1948, Ortiz passa a experimentar com o formato do poema longo, de mais de cem versos, no qual se expressam uma cadência e uma temporalidade particulares. Em La brisa profunda (1954), esse movimento leva a “Gualeguay”, primeiro grande canto ao rio, de 586 versos. Essa vertente de sua poesia culminaria no livro El Gualeguay, poema de 2.639 versos compostos a partir do rio e publicados em En el aura del sauce como “fragmento” (primeira palavra do poema) que “continua” (última). 

Tanto em sua poesia mais breve, da qual se oferece uma amostra nesta antologia, como nos poemas longos, a prosódia de Ortiz é caracterizada por alguns traços reconhecíveis, como aponta D.G. Helder na introdução à obra completa: “pulverizar o sentido ao longo da estrofe, em vez de concentrá-lo em um mesmo verso; dotar de maior fluência as frases, extremando seus acidentes tonais e potencializando a ilação semântica para além da compreensão imediata; vocalizar o aspecto tímbrico do espanhol, mesmo ao risco de incorrer em uma fragilidade uniforme; eclipsar nas palavras e nas sílabas tudo aquilo que as impeça de se tornarem notas musicais; dotar de uma aura de indeterminação a referência aos objetos, com o que o mundo pareceria recuperar em espírito o que perde em compactação”. 

A forma essencial da nomeação em Ortiz é a alusão: a frase tende a ser longa, intrincada e suspensiva, com frequente uso das reticências, que aparecem amplamente em seus títulos. Muito mais que a condensação canônica na poesia moderna e vanguardista, a expansão é o recurso dominante na poesia de Ortiz. Essa preponderância do princípio da expansão leva Ortiz a naturalmente experimentar com os efeitos visuais do espaçamento. Nos três livros inéditos reunidos em En el aura del sauce (1971) – o volumoso El junco y la corriente, o já citado El Gualeguay e La orilla que se abisma –, o longo poema com efeitos visuais advindos do trabalho de espaçamento torna-se o subgênero dominante em Ortiz. Essa poesia mais experimental visualmente, assim como a poesia mais longa, não está representada nesta antologia, que reúne poemas publicados entre 1933 e 1958. Todas as traduções são de minhas, com a exceção do poema “Fui ao rio …”, já vertido anteriormente ao português pelo poeta Ricardo Domeneck e reproduzido aqui com link à fonte original. Todos os primeiros dez livros de En el aura del sauce estão representados nesta antologia. Os poemas foram traduzidos a partir da versão definitiva em: Ortiz, Juan L. Obra completa. Santa Fé: Universidad Nacional del Litoral, 1996.

 

Primavera longínqua

Primavera longínqua.

Tarde que vem

através desta luz cheia de cantos

como uma sombra ferida

de tanto chocar-se contra os cristais

do infinito agudo, ainda que encantado. 

 

Como uma sombra, também, 

de coração todo úmido

e vagamente florido. 

 

Tarde cheia

de uma sombra de lírio

que nascia do poente

como da ilusão angustiada de meus passos. 

[in: El agua y la noche (1924-1932)] 

 

A pomba se queixa … 

A pomba se queixa. Angústia do desejo

primaveral. A luz da mão com as 

folhas novas se vai para um país mais pleno.

Mas este canto dá ao céu um pensamento

grave: melancolia da terna ilusão.

A paisagem ligeira, infantil, quase alada

se volta para seu sonho musical, infinito. 

[in: El agua y la noche (1924-1932)] 

 

Momento

O jardim chovido

eleva aos tímidos sorrisos azuis

o olhar de suas rosas. 

 

Ruptura cristalina do alado chamamento

à luz. 

Pesado de delícia o jardim com suas árvores

se perde em suas essências.

Mas vem a brisa

e é uma infância de folhas e de flores dançando. 

O canto dos pássaros à dança se cinge. 

[in: El alba sube … (1933-36)] 

 

De onde era a paz? …

De onde era a paz com que a úmida lua

entre os arvoredos, azul, se degelava? 

Calava o rio pálido vendo brincar os elfos

sobre o tênue rumor da grama prateada. 

 

A pena teimosa quase sorria à fabula, 

à mercê do riacho ideal do caminho,

mas essa cadela ferida às margens deste,

essa cadela, ó Deus meu, esperando a morte? 

[in: El alba sube … (1933-1936)]

 

Sobre os montes … 

Sobre os montes um canto.

Um canto, só, na tarde.

Que invisível ave nostálgica

chama? Ou é o ar que canta? 

Ou é a solidão infantil

mas profunda, que diz

aos céus afastados,

o que o reflexo e o ritmo

do rio, o que as flores

agrestes, o que as árvores, 

não podem comunicar? 

 

Sobre os montes um canto. 

O silêncio tão sensível,

com que doçura longínqua,

melodiosa, se quebra! 

Em sua ruptura, a tarde

sua tensão celeste afrouxa.

Que silêncio o das águas

agora, e o riachuelo

– tremor pudico entre

os altos gramados – por que

calou? É este canto,

então, a pura essência

dessa solidão perdida

em si mesma, que pedia

às águas, aos pássaros,

às folhagens, às flores,

a voz que precisava? 

Que ventura profunda, se frágil,

que o desejo musical

de tantas vidas secretas,

de tão mágicas presenças

como concerta a paisagem,

ao fim encontre seu canto! 

Um canto sobre os montes.

Um canto, só, na tarde! 

[in: El alba sube … (1933-1936)]

 

Fui ao rio…

Fui ao rio e o sentia
próximo de mim, diante de mim.
Os ramos tinham vozes
que não chegavam a mim.
A corrente dizia
coisas que eu não entendia.
Quase me angustiava.
Queria compreendê-lo,
sentir o que nele o céu pálido e vago dizia
com suas primeiras sílabas alargadas,
mas não conseguia.

Retornava.
– Era eu o que retornava? –
na angústia vaga
de sentir-me só entre as coisas, últimas e secretas.
De repente senti o rio em mim,
corria em mim
com suas margens trêmulas de sinais,
com seus fundos reflexos apenas estrelados.
Corria em mim o rio com suas ramagens.
Eu era um rio ao anoitecer
e suspiravam em mim as árvores
e se apagavam em mim as veredas e o capim.
Me atravessava um rio, me atravessava um rio!

[in: El ángel inclinado (1937)]
(tradução de Ricardo Domeneck)

 

O rio todo dourado …

O rio todo dourado de Maio, 

afundando Maio em uma ligeira paz efêmera,

ou ondulando-o em gestos ricos sob a tarde. 

 

O rio todo dourado de Maio.

Um menino pálido me oferece seu brinquedo vivo.

Horror. Sua ventura por trinta centavos.

Sua ventura: a cadelinha com ele identificada

que o olha gritando, e salta, úmidos os olhos

de um olhar, oh, de que olhar! 

 

Seu brinquedo. Mas seu estômago ardia.

Um menino que oferece sua ventura por trinta centavos.

Homens meus! O Outono. Não nomeeis o Outono! 

(in: El ángel inclinado [1937])

 

No celeste …

No celeste

noturno

do leste

três árvores.

Três reflexos

ligeiros. 

 

Mas as margens

estão sonoras.

Setembro.

As margens sonoras:

canto perdido

do tico-tico,

grilos, grilos.

 

No entanto,

o azul

da noite terna

no rio

com esses duplos pálidos de salgueiro,

e essa luz só na já tênue margem,

feita um tremor dourado

– como, não era

que os ramos profundos se fixavam …? 

 

Esse azul cinza,

esse celeste,

infinito, infinito,

sobre a ilha.

 

É esta vaga música

que vai se chocando

a mais penetrante.

Perdão, Setembro. 

 

Da outra ardente

de suas margens

a quase secreta

intervenção

de algum grilo

e do tico-tico.

Mas não o coro,

perdão! 

Sei que fermenta

tua doçura.

 

Mas tua noite, ah, tua noite

com sua primeira nuance

na água

e entre os ramos

e sobre a ilha, é toda

de melodia íntima, apesar

das poucas estrelas ou com estas

como frases inevitáveis.

[in: La rama hacia el este (1940)]

 

Um êxtase transparente … 

Um êxtase transparente,

não excessivamente claro. 

Não demais acusadas

as coisas: 

nem nítidas nem brilhantes no êxtase. 

E uma solidão suspensa

e translúcida,

fácil para o esquecimento

que seria fácil para o esquecimento,

se não amássemos estas úmidas planícies,

estas tímidas colinas,

com sua desfeita planta humana,

se nossa comunhão excluísse esta planta,

esta dolorida planta. 

 

Os estetas dirão

que este céu delicado

domina tudo.

Mas o amor tem memória,

mas o amor tem olhos humildes.

A memória do amor e seus olhos

nos põem frente 

a outras criaturas

da paisagem

que as determinações 

do céu,

a outras criaturas alheias

à ventura do ar,

sem céu em si para olhar o outro

despojadas e humilhadas,

entre a honra do ar e as colinas. 

 

Sim, há que buscar o céu dentro de nós e para todos.

Muitas coisas deverão mudar para que este céu tenha uma doce réplica

em uma interior ventura ligeira.

Melhor: esta ventura discreta que quase é do pensamento

será como a irradiação da outra

que se haverá conquistado com duras mãos, ai, eu sei.

Céu no coração do homem para que o outro

dê todo seu valor em uma paisagem 

que será do homem, por fim. 

Nós também das coisas

como sua aspiração iluminada.

[in: El álamo y el viento (1948)]

 

Eu adoro …

Eu adoro uma mulher de ar. 

Nós a sentíamos bastante como o ar, 

brilhante ou secreta essência, ai, do que nos tocava; 

alma do tempo, sim, para além das formas,

sem forma sempre como o ar? 

 

Quando a mulher de ar se vai,

não, não me digais que as flores são flores e a luz é luz,

que a colina sobe à nuvem e que a tarde desce até as águas

e que o anoitecer vem de espelhos pelas longínquas ilhas, pelas ilhas …

Nem menos me digais, ó, não me digais, que a lua de julho já está morna entre os ramos …

 

Não, não me digais nada, que quando a mulher de ar se vai

o ar, o ar?, é uma asfixia escura,

e há mãos, muitas mãos, estendidas para nós de outras sombras como raízes invertidas …

 

Mas é verdade que a mulher de ar sempre volta?
– Sempre regressa, sim, mas não basta adorá-la porque ela é a liberdade. 

[in: El álamo y el viento (1948)]

 

A menina que venceu o rio … 

(Para Silvia Reula) 

Rasgou a menina a pele

ardida do Paraná.

Aturdimento do rio

ante a flecha dourada

que nele abriu quatro talhos

rítmicos. 

Caiu do ar a menina

sobre o destino do rio

para unir suas afastadas

suas afastadas margens

com seus sós quatro talhos. 

 

Diante dos donzelos,

menina dos redemoinhos,

menina sobre as correntes

cegas,

menina sobre os abismos,

atravessando o destino

do grande rio filho do mar,

flecha dourada de alternas 

pétalas sobre as águas,

a menina uniu a primeira

a manhã das margens …

 

Sobre os ombros do triunfo

a menina filha do ar,

a menina filha da água,

a menina que venceu o rio,

que ao destino do grande rio,

impôs, flecha dourada,

seus quatro talhos alados. 

 

Um ramo de loureiro

para a filha do ar,

para a filha da água,

a menina que venceu o rio,

homens que ante as escuras

forças tremeis ou o esforço

desordenais. Um ramo

para a menina dourada

que venceu um deus. Chegaremos

a tanta graça, nós, 

e a uma tal serenidade,

sobre as profundas vertigens

e as correntes contrárias,

para alcançar, ai, as praias

do sonho? 

Um ramo de loureiro

para a filha do ar,

para a filha da água,

a menina que venceu o rio …

[in: El álamo y el viento (1948)]

 

Me esperavas nessa casa … 

Me esperavas nessa casa perdida entre os montes. 

Tua mãe andava por aí. 

Te vi no sonho, na luz do crepúsculo pobre,

rodeada de aves brancas, brancas, que palpitavam.

Me olhaste, ó, doce menina que voltas nos sonhos,

com um olhar perdido,

suavemente perdido

em não se sabia o quê do entardecer agreste,

como se essa solidão já te houvesse ganhado

e teus olhos só sorrissem resignados.

 

Fada humilde dos montes e da chácara, ah, o olhar

no pátio nevado de aves e nessa luz,

e esse cerco vago, aberto, de árvores anoitecidas,

quando eu cheguei, triste menina,

fada dos montes e da fazenda,

pálida, pálida e estranhamente longínqua no sorriso.

Ó doce, doce menina que voltas nos sonhos. 

[in: El aire conmovido (1949)]

 

O que quer dizer? 

Qu’ est-ce que cela veut dire?

Mallarmé

O que quer dizer o cerco

crepuscular?

O que querem dizer 

essas figuras humildes

que descendem

meio perdidas como o cerco? 

 

O que quer dizer o matagal

ao céu que morre 

mas que olha, olha, olha; 

e esses homens vagos

que de algum modo morrem

também 

todos os anoiteceres,

o que querem dizer? 

 

Ó, eu sei algo

dos destinos escuros:

a bolsa aberta

quase na sombra

– sobre a mesa, a mesa? 

o cabo da vela 

se vai – 

ante as mãos impacientes…

 

Mas esses homens ali

são do crepúsculo,

e morrem estranhamente

como ele,

melancólicos, melancólicos fantasmas

que descem, como apressados,

para sua noite. 

 

O que quer dizer o cerco?

Um fastio de cinza rameada,

ante o sono que demora,

lívido, lá acima,

ou uma penumbra que se amassa

pobre e medrosa,

como uma esquecida alma agreste

ou a última tênue luz

deserta?

 

Ó, as coisas, as coisas, 

as plantas e os espíritos

que flutuam quase, não caminham, ou se recolhem

na solidão apenas azul

que os vai levando, até onde?

ou os fixa, em que mistério

de raízes aéreas? 

 

Paz da noite, paz? 

Para o desconcerto sem nome

das coisas e das criaturas

do anoitecer, à mercê

das ondas infinitas

ou de mãos incríveis

ou de chamados obscuros.

 

Mas as coisas e as criaturas

sem amor, sem olhares,

sem nosso amor e nossos olhares,

no arrabalde, que já é o campo.

 

Saberemos o que querem dizer no crepúsculo? 

[in: A mão infinita (1951)]

 

Ó Março!  

Ó Março de silêncio que não acabas de morrer …

 

O medo, por que coisa, ou por quem, abismo livre? 

 

O grilo, o grilo, na margem do mundo…

 

Iremos de mãos dadas por cima do vazio, como? 

Ou ficaremos aqui até perder-nos com o grilo

na medida da noite amarela, amarela …

que cairá quando? sob os ramos,

detida, 

pelo que têm as estrelas, ai …?

Até perder-nos com o grilo na outra noite longa

que subirá nos gramados com um tempo flutuado,

indefinidamente assim,

ao entrar em si mesmo,

por seu voto mais longe, ó, longíssimo,

daqui? 

 

O que faremos, diz, o que faremos? 

 

Diz mulher, ou amigo, ou anjo, diz …

[in: La brisa profunda (1954)]

 

O que, dizes …

O que, dizes

que eles não sentem

o jacarandá sob a chuva…?

 

O Novembro lilás, todo lilás, sob a chuva ou na chuva

que não se ouve? 

 

Eles sentem o rio, dizes…? 

veem velas brancas que não há,

até o confim de si mesmos,

e umas redes inexistentes, dizes?,

em que seu silêncio treme ou arde…?

 

Eles têm antenas, às vezes, dizes? 

para apalpar algumas invisíveis criaturas,

e costumam ter a varinha, dizes? que vibra com as correntes escondidas …?

 

Mas a estas nuvens que parecem subir

quando não se sabe que harpas descem ou se abismam,

eles sequer as adivinham, dizes? 

 

É porque não é deles “a cidade”, ainda, dizes…?

nem deles são os jardins que voam

e que desfolham ruas pálidas de ametistas? 

 

Mas não terão eles, dizei, a coroa dos morenos

sobre os caminhos livres totalmente de vidros, ao fim, 

e não ascenderão eles nos cerimoniais delicados

a ouvir palpitar as teclas lilases da comum seiva encontrada …

 

sobretudo quando a chuva

tece o mesmo silêncio

para as frases de uns pássaros…?

[in: El alma y las colinas (1956)]

 

Sim, as escamas do crepúsculo…

Sim, as escamas do crepúsculo
no fio, último?, de Novembro sobre o rio:
ou o êxtase dos véus de Novembro
fluindo até a noite, e mais além? …
incrível de ecos
e de fugas e passagens
de não se sabe já
que despedida ou que chamado

Sim, o fluido profundo, sobre ouro,
que nimba o barranco
e inscreve misticamente uma árvore alta,
e irradia, até quando?
umas vagas pétalas de íris…

Sim, sim,
o verde e o celeste, revelados,
que tremem por volta das dez porque partem,
e na meia tarde se desfazem ou se perdem
em sua mesma água fragílima…

Sim, sim, sim
Mas veio a luz, estava só a luz
detrás das persianas da manhã íntima:
veio a criatura eterna, o sentimento das estrelas,
a eucaristia dos mundos, a alma primeira
antes, antes do prisma,
com essa flauta branca, inefavelmente branca, sempre imposta sobre o caos…

Veio a luz, veio a menina essencial,
impossivelmente pura das folhas e de suas próprias asas,
até um esquecimento cheio dela
como do olhar, único, de uma estiagem nunca vista….

[in: De las raíces y del cielo (1958)]