Ancelmo Gois, União Soviética e a ditadura militar brasileira

Ancelmo Gois, União Soviética e a ditadura militar brasileira

Qual foi o papel da União Soviética durante a ditadura militar no Brasil?

Estado da Arte

14 de fevereiro de 2019 | 16h30


por Astier Basílio

Espera-se de um órgão da República equilíbrio, sobretudo na emissão de notas oficiais. A retórica inflamada e beligerante faz parte da campanha, pertence ao espaço do palanque. Em democracias, responder a um questionamento não pode suscitar ataques à biografia do jornalista.  Não custa lembrar o óbvio. O Ministro da Educação gere dinheiro de impostos que são arrecadados não apenas das pessoas que votaram em Bolsonaro, mas de quem sufragou os demais candidatos e inclusive daqueles que anularam o voto ou nem compareceram às urnas.

Isto posto, vamos ao exame dos fatos. Não é delírio persecutório, nem teoria da conspiração, afirmar que Ancelmo Gois foi à União Soviética e sob os auspícios do serviço secreto, a KGB, obteve documentação falsa com a qual viajou e que ao chegar em Moscou, veio a estudar “marxismo e leninismo”, na escola de formação de jovens quadros do Partido Comunista. Foi Ancelmo quem contou em detalhes sua ida à Rússia, em 1968. A entrevista, concedida há dez anos, está disponível no site da Associação Brasileira de Imprensa para qualquer um ver.

A revista Fórum forneceu a leitura emblemática que a esquerda fez do episódio ao dizer que a nota “viralizou pelo ridículo” e se referiu a “supostas relações do jornalista com a União Soviética e o serviço secreto comunista”.

Não é delírio persecutório, nem teoria da conspiração afirmar, que Ancelmo Gois foi à União Soviética

Em entrevista à versão brasileira do jornal El País, o professor Carlos Fico, do departamento de história da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) faz uma constatação: “Não há praticamente nada de pesquisa sobre a União Soviética nesse período”. A enxurrada de memes e piadas são um duro reflexo desta ignorância.

O treinamento do futuro tradutor de Dostoiévski

Ancelmo não foi o único jovem esquerdista a receber treinamento doutrinário na União Soviética. Dentre os relatos conhecidos, destaca-se o do paraibano Paulo Bezerra, célebre por seu trabalho de tradução das obras de Dostoiévski. Quando viajou, outros nove brasileiros o acompanhavam com o igual propósito. Era Bezerra o único operário do grupo.

A aventura aconteceu em finais de 1963. Apesar de sua ida ter ocorrido antes do golpe, é interessante observar a estratégia discursiva empregada pelo tradutor ao narrar sua história. Metalúrgico de uma montadora de automóveis no ABC, Bezerra ingressou no meio sindical e filiou-se ao Partido Comunista. Em entrevista à Folha de São Paulo, em 30 de dezembro de 2015, Rodolfo Viana escreveu que Bezerra “pela filiação, acabava demitido de todas as fábricas. Chegou a ser preso em 1962, durante uma greve. Foi liberado horas depois, mas não conseguia mais emprego”.

A história havia sido contada antes ao jornal  Gazeta Russa, em 2012, com um detalhe interessante. Na ocasião, Bezerra disse haver em sua ficha a inscrição do termo “agitador”. Quem lê as entrevistas e matérias, é levado a crer que a ida à União Soviética, para fazer o curso de formação política, foi a única maneira de escapar ao insuportável clima de perseguição existente.

Ao se referir a estes episódios de sua vida, Bezerra, entretanto, jamais cita o nome de João Goulart, que à época de sua viagem, era o presidente da República. Entretanto, o tradutor usa um interessantíssimo truque retórico. Após narrar as dificuldades enfrentadas antes de sua ida a URSS em seguida conta sempre a mesma piada. “Acho que o Castello Branco soube que eu estava lá e resolveu dar o golpe para me beneficiar”.

Ancelmo não foi o único jovem esquerdista a receber treinamento doutrinário na União Soviética. Dentre os relatos conhecidos, destaca-se o do paraibano Paulo Bezerra

Com este jogo subliminar, estabelece-se uma relação direta entre a atmosfera opressora de perseguição aos sindicalistas e a fuga por meio da viagem à URSS.  Assim, a viagem de um filiado do Partido Comunista, havida meses antes do golpe, se transforma em exílio e o propalado clima de perseguição sindical, despersonalizado, ganha um rosto: o de Castello Branco.

Esta estratégia narrativa corrobora o esforço da esquerda em reescrever suas ligações com Jango, o que desvela a tentativa de consolidação o mito da luta armada como guardiã da democracia. Quem se der ao trabalho de pesquisar nas fotos antigas, em nenhuma das passeatas contra a ditadura ergueram-se faixas a pedir a volta do presidente deposto. Quando o então jovem guerrilheiro Franklin Martins, após sequestrar o embaixador americano, exigiu que um manifesto seu fosse lido em rádio e televisão (além de publicado nos principais jornais do País), a palavra democracia não apareceu nem uma única vez no texto. Tampouco o nome de João Goulart.

Charles Elbrick foi o primeiro de quatro sequestros feitos pelos diferentes grupos de esquerda entre 1969 e 1971. Como resultado das ações 140 presos foram libertos.  Em nenhum momento a esquerda lembrou-se que João Goulart estava exilado no Uruguai. Seu nome não apareceu em nenhuma lista, sua volta não foi exigida, nem que fosse um gesto de se marcar uma posição política. O “volta Jango” só veio existir décadas depois dele morto, como desdobramento da reescritura do passado da luta armada. O ápice desta pantomima, se deu com a devolução simbólica do mandato de João Goulart pela ex-guerrilheira Dilma Rousseff em 2014.

No longínquo ano de 1982, é possível observar, sem filtros, como o legado de Goulart era visto pela esquerda. Lula disputava sua primeira eleição, como candidato ao governo de São Paulo. Em entrevista à Folha de São Paulo, em 5 de setembro, o candidato foi às cargas contra Jango: “a gente apanhava nas greves em 1963, aqui em São Paulo, eu com 17 anos”. O repórter da Folha, então, diz que não se lembrar daquilo. Lula ratifica: “Aqui, em 1963, eu cansei de tomar corrida da polícia, da cavalaria aqui”.

Ditadura não rompeu relações com URSS

As relações diplomáticas entre o Brasil e a União Soviética foram reatadas no governo de João Goulart.  Quando os militares deram o golpe de estado, o Itamaraty não rompeu com Kremlin ao contrário do que aconteceu com outros países socialistas como  China e Cuba.

Sob as bênçãos do curto mandato de Goulart, os soviéticos gozaram de liberdade e ensaiaram aproximação com o Brasil. É o que diz o historiador Rodrigo Patto Sá Motta¹, ao referir-se ao restabelecimento dos laços com Rússia. “Com a recém conquistada liberdade de movimentos, a URSS implantou programas para facilitar o aprendizado da língua russa, principalmente através dos Institutos Culturais Brasil-URSS (ICBUS). Além disso, firmaram-se convênios para envio de estudantes brasileiros à União Soviética”.

Patto Sá Motta faz uma ressalva e toca num ponto importante. Para além do acordo formal havia um intercâmbio que ocorria no subterrâneo. “Clandestinamente, a URSS recebia brasileiros para treinamento desde os anos de 1920, mas tratava-se de militantes selecionados pelo PCB”.

Moscou e Havana em lados opostos

Por mais que se tenha consolidado no imaginário a ideia de que a ditadura militar brasileira era subserviente às vontades dos Estados Unidos, as relações dos presidentes militares com a União Soviética, se por um lado eram tímidas em 1964, vieram a se ampliar nos anos 1970. A avaliação é feita por  Graciela Zubelzú de Bacigalupo, professora Teoria das Relações Internacionais na Universidade Nacional de Rosário, na Argentina.

Em seu artigo “As relações russo-brasileiras no pós-Guerra Fria”,  Zubelzú sublinha que  a política externa brasileira da época tornou-se mais pragmática e passou a reconhecer “o peso da URSS no cenário internacional e as possibilidades de uma aproximação econômica de Moscou. Firmam-se um convênio de cooperação em 1970 e outro de navegação marítima em 1972, enquanto aumentam as relações comerciais e o Brasil inicia suas importações de petróleo da URSS. Em março de 1975 é assinado um convênio comercial e o intercâmbio total  entre os países alcança 440 milhões de dólares em 1976”.

Talvez esteja aqui uma possível chave para se entender a posição contrária da União Soviética em relação aos anseios de Cuba de exportar a revolução ao Brasil, bem como à toda América Latina. É uma contradição que, também, reverbera no seio da própria ditadura militar, no tocante às tratativas com Moscou e os demais países socialistas.

É o que flagra o já citado Patto Sá ao argumentar: “o governo Castelo Branco queria conter a influência dos países e das ideias socialistas no Brasil, mas não desejava romper relações diplomáticas com a Europa do leste. Isso gerou uma situação curiosa, e desagradável para os setores mais intransigentes da direita: as atividades culturais dos soviéticos eram monitoradas, mas não inteiramente proibidas”.

A guerrilha existiu antes golpe

Denise Rollemberg em seu livro  “O apoio de Cuba à luta armada no Brasil: o treinamento guerrilheiro” (Rio de Janeiro: Mauad, 2001) desmonta um dos pontos centrais da narrativa de esquerda armada: a de que  guerrilha só existiu por não haver outro meio de luta, sendo, portanto, uma reação à ditadura militar.

“A relação das Ligas com Cuba evidencia a definição de uma parte da esquerda pela luta armada no Brasil, em pleno governo democrático, bem antes da implantação da ditadura civil-militar”, assevera a escritora.

A discordância da União Soviética com a implantação por Cuba dos focos de guerrilha pela América Latina pode ser emblematizada no encontro, ocorrido em Havana, em 1963 – ainda sob a vigência do governo de João Goulart, repita-se – entre Francisco Julião e Luís Carlos Prestes, este Secretário Geral do Partido Comunista, aquele representante das Ligas Camponesas.

Talvez esteja aqui uma possível chave para se entender a posição contrária da União Soviética em relação aos anseios de Cuba de exportar a revolução ao Brasil, bem como à toda América Latina.

Detalhes da reunião podem ser encontrados no site “Os Arquivos da Ditadura”, mantido pelo jornalista Elio Gaspari, autor de uma soberba pentalogia sobre os anos de chumbo. Quem relatou o encontro foi o encarregado de negócios da embaixada do Brasil em Havana, José Maria Diniz Ruiz de Gamboa.

As opiniões de Prestes e Julião eram divergentes.  “Julião sustentava que, no Brasil, existiam ‘condições necessárias para uma revolução’.  Prestes mostrava-se cauteloso e “afirmava aos líderes cubanos que seria ‘criminoso’ optar pela luta armada no Brasil, nos moldes da Revolução Cubana de 1959”.

Ambiguidade da Rússia

Em 2007, veio a público um documento da CIA² elaborado em 1963 cujo título era: “A Batalha Sino-Soviética em Cuba e o Movimento Comunista Latino-Americano”, no qual se escancaram as divergências entre Fidel Castro e Nikita Khrushchov quanto uma revolução no Brasil.

No documento se reportava: “Existem provas de que alguns soviéticos avaliam que a violenta retórica de Castro, ainda que útil no sentido de unir militantes jovens de esquerda, tende a afugentar outras forças da pequena burguesia e da burguesia nacional que poderiam ser seduzidas a aderir ao Partido Comunista local”, afirma o documento.

Apesar da posição contrária dos dirigentes soviéticos, Cuba treinou em torno de 200 militantes brasileiros. Para Denise Rollemberg “(…) a própria URSS, evidentemente, sempre esteve a par do fluxo mantido nos anos posteriores de militantes indo a Cuba treinar. As rotas de entrada e saída do país, por exemplo, passavam por Moscou e Praga, onde os guerrilheiros eram recebidos e orientados”.

Brasil nos arquivos soviéticos

Em maio de 1964, o diplomata tchecoslovaco Zdenek Kvita, que ocupava no Brasil o segundo posta na embaixada de seu país, foi preso por agentes do DOPS carioca, “quando tentava obter documentos secretos de suposto informante, na verdade agente policial. O agente da polícia estava fingindo vender a Kvita informações secretas, como a planta da Refinaria Duque de Caxias e os planos brasileiros para monitorar Embaixadas dos países socialistas”.

A informação está nos arquivos da CIA, recolhidos pelo historiador Rodrigo Patto Sá Motta.  Este personagem, Zdenek Kvita, é citado no site “STB, o Brasil nos Arquivos Soviéticos”, como o primeiro integrante da polícia secreta a manter contato com seus colegas cubanos.

O portal disponibiliza documentos, reproduz artigos  da presença do serviço secreto da Tchecoslováquia no Brasil de 1945 a 1990. O trabalho redundou no livro “1964, O Elo Perdido – O Brasil nos arquivos do serviço secreto comunista” (Vide Editorial, 2017), do brasileiro Mauro Kraenski e do polonês Vladimir Petrilák.

O serviço tcheco era a verdadeira KGB no Brasil

Em resenha ao livro,  João César de Melo observa que a StB atuava livremente no Brasil pois a Tchecoslováquia não era vista como inimiga, “o que dava liberdade para seus agentes circularem, se relacionarem com brasileiros e obterem informações sem despertar suspeitas. O resultado foi a infiltração de dezenas de agentes tchecos que recrutaram centenas de brasileiros a partir de 1952. Tudo, absolutamente tudo, registrado metodicamente. Em outras palavras: a StB era, de fato, a KGB no Brasil, dado que todas as diretrizes da agência tcheca eram definidas em Moscou”.

Apoio à ditadura brasileira em ações antiamericanas

O escritor e ativista Vladimir Bukovsky, hoje com 76 anos, antigo dissidente do regime comunista, conseguiu reunir e disponibilizar em sua página na internet um dos maiores acervos com  documentos referentes ao regime soviético.

Parte expressiva deste material está traduzido para o inglês. As referências ao Brasil são poucas, mas significativas. A mais importante delas é uma circular, de 9 de setembro de 1966, cujo título é: “sobre o crescimento da propaganda anti-soviética nos Estados Unidos e na América Latina”.

Num trecho do documento se diz: “(…) é necessário apoiar passos antiamericanos tomados independente dos governos latino americanos (incluindo entre os quais Brasil e Argentina)  em relação a certas questões, sem exagerar tais atos, pois eles podem ser antiimperialistas apenas na forma”. Por aquele período o Brasil era governado pelo primeiro presidente da ditadura militar, o marechal Castello Branco. A Argentina também. No poder estava Juan Carlos Onganía após um golpe de estado.

Fundo para organizações de esquerda

Em 1969, o Partido Comunista do Brasil aparece num documento do Politburo, numa lista de envio de dinheiro, para criação de um “Fundo Internacional para ajudar Organizações de Trabalhadores de Esquerda”. Dos 15 primeiros destinatários da verba, o Brasil figurou na oitava colocação, com a quantia de 200 mil dólares.

Há pedidos de treinamento, com todas as despesas pagas pelo fundo do Partido Comunista Russo, para  militantes brasileiros. Quem assinou as solicitações foi Luís Carlos Prestes. Em 1974, recepção e despesas para um curso de três meses, ao camarada Leonardo Leal, quadro do Partido,que fez parte das Ligas Camponesas, na Paraíba.  Em 1978, curso de treinamento em atividades clandestinas para Marcelo Santos, membro do Comitê Executivo do Partido Comunista  do Brasil.

Silêncio da academia sobre a União Soviética

Quem pesquisa a ditadura militar brasileira, lê as dissertações de mestrado, as teses de doutorado, vê os documentários e filmes de ficção, estuda na bibliografia sobre o período, sai com a impressão de que a Guerra Fria, ao menos no Brasil, não veio acabar em 1991, com a desintegração da União Soviética, mas em 1964, quando do golpe militar. Como se, sem mais nem menos, a maior potência socialista do planeta abandonasse o maior país da América Latina para usufruto de seu rival, os Estados Unidos, cujos passos, ações e estratégias, realizadas ou não, foram incansavelmente mapeados, ao contrário das pegadas da Rússia por aqui. O conhecimento histórico do período, bem como das intrincadas relações políticas dos atores que fizeram parte do jogo político à época, nada tem de conspiratório ou amalucado.

(1) http://www.ufjf.br/locus/files/2010/02/131.pdf
(2) https://www.cia.gov/library/readingroom/docs/esau-22.pdf

Astier Basílio é poeta, jornalista, escritor e dramaturgo.

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