Amor e corpo

Amor e corpo

O que a psicanálise tem a dizer sobre o corpo? Qual a relação dele com o mundo? O psicanalista Felipe Pimentel escreve sobre o papel do corpo no amor.

Estado da Arte

26 de julho de 2018 | 18h00

por Felipe Pimentel

Muitos autores, inclusive alguns de seus críticos tradicionais, tomara a psicanálise como algo puramente mental, como se ela negligenciasse o corpo na sua compreensão dos indivíduos. Por certo, a prática psicanalítica não atua no ou através do corpo, o que não significa que ela não tematize ou compreenda o corpo. Pelo contrário, não só o corpo é central para a compreensão psicanalítica da natureza humana, como ela apresenta uma das mais refinadas e singulares apreensões dele.

Em Freud, o corpo foi crucial para lhe permitir criar a psicanálise, pois foi sabendo o que não era corpo nos sintomas histéricos que ele pôde desenvolver suas primeiras teorias sobre o trauma psíquico. Mesmo Lacan, o mais intelectualista dos clássicos, dedicou muita atenção ao tema, demonstrando como nossa consciência corporal não é natural e espontânea, mas fruto de um processo longo de separação entre o eu e o mundo. Na clínica, o corpo está em qualquer quadro sintomático: nos transtornos alimentares, que buscam dessexualizar o corpo; na hipocondria e na psicossomática; nos quadros histéricos e narcísicos, que buscam dominar o corpo; nos quadros limítrofes que mutilam o corpo para aplacar a angústia; nas crises de ansiedade e pânico que simulam a morte e o sufocamento. Quer dizer, é impossível ser psicanalista sem estar atento ao que acontece no corpo.

Em toda a compreensão do desenvolvimento (palavra um pouco refratária na psicanálise), o corpo e nossa compreensão dele é o recurso mais originário da nossa sensação do que somos. Quando os recursos mais refinados, como a linguagem, o pertencimento simbólico e a integralidade do ego, não dão conta, o corpo se apresenta como último recurso: motivo pelo qual alguns pais recorrem às polêmicas palmadas na educação dos filhos e pelo qual muitas situações patológicas se organizam através da violência ou da ameaça dela.

O corpo, porém, não é só a sede das nossas dores e dos nossos sintomas, mas também das nossas maravilhas, dado que muitos prazeres da vida são dependentes de uma experiência excessivamente corpórea, como a alimentação, o sexo, o esporte. Todas as nossas experiências dependem do nosso corpo, mas isso é irrelevante comentar, pois há experiências que são mais corpóreas. Pensar, ler, observar e cheirar são ações que dependem de nosso cérebro, dos nossos olhos e do nosso olfato; mas algumas situações colocam o corpo não somente como o receptáculo de alguma informação que vem do exterior, mas como a fonte da comunicação do que ocorre. Explico.

Contemplar uma paisagem exige não só a visão, mas também uma série de pensamentos e informações que podem lhe colorir o modo de enxergar o que vê. Por certo, pintar uma paisagem já oferece um tipo distinto de experiência com ela, porque o caráter ativo do corpo na ação faz dele não só um depósito, mas uma ferramenta que atua algo também. Do mesmo modo, ouvir uma música e executá-la.

E o que não diríamos no que respeita à relação do corpo com outro corpo? No amor, em todas as suas manifestações, do carinho ao sexo, o corpo possui essa fantasmagórica capacidade de ao mesmo tempo usufruir e se deixar usufruir do corpo do outro, mas, mais ainda, numa reciprocidade que alimenta sensações que vão e vêm, como se comunicasse o que sente ao sentir o outro, e, ao fazê-lo, pudesse produzir novos sentires no outro. Pierre Henri Castel colocou isso quase poeticamente:

“… mas quando se pára para pensar, o fato de sentir que se sente o outro, ou que se sente o que sente o outro, ou que se faz sentir o que sente o outro no gozo corporal; bem, tudo isso nos leva a esse ponto: esta ilusão, desse poder desconhecido e que nos paralisa, de que nós comunicamos alguma coisa de nossa vivência, de modo que será o corpo do outro que viverá alguém coisa graças a nossa experiência. Não é simplesmente possível beijar alguém na boca sem ter esse efeito siderante de perceber, em contrapartida, que alguma coisa da nossa imagem do corpo vai se projetar sobre o outro, de modo que o outro vai esvanecer como se fosse literalmente o prolongamento do meu próprio corpo. Eu não sei qual santo usou essa palavra ao surpreender dois amantes se beijando: ‘eles derramam sua alma um sobre o outro’.”

Quer dizer, a relação do corpo com o amor é a mais originária porque toca num ponto muito regressivo nosso: a ideia de que para sentir eu preciso de um outro corpo. É uma idéia primordial, pois o sentir é exatamente a possibilidade de sentir no meu corpo. Mas a relação amorosa sexual não age assim; ela acredita na ideia de que a recíproca troca dos corpos produz entre eles um tipo estranho de relação, não necessariamente uma fusão, mas um prolongamento do corpo e do sentir de um sobre o outro sem o qual nada daquilo poderia ser sentido.

O fascínio que o corpo do ser amado nos desperta, o anseio que temos de englobá-lo e abordá-lo de tantas formas, é a marca dessa ânsia, dessa estranha necessidade de um outro para sentir em mim. É uma forma muito aproximada das nossas relações originárias, quando não distinguíamos nossa imagem do espelho, nosso eu do mundo e supúnhamos que os nossos membros eram objetos alheios a nós e que se alguém não viesse nos acudir nada mais sentiríamos. Razão pela qual o filósofo Merleau-Ponty teria afirmado: “O corpo é o meio pelo qual temos um mundo.”

Felipe Pimentel é psicanalista e historiador.

 

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