Amar é dar o que não se tem

Amar é dar o que não se tem

O amor nos torna melhores? É uma doce mentira? O que a psicanálise, o cinema e a nossa mais singela experiência comum nos dizem sobre o tema.

Estado da Arte

11 Julho 2018 | 16h00

por Felipe Pimentel

No texto anterior sobre o amor, comparei o amor verdadeiro ao falso, a saber, o amor narcísico. Nesta segunda parte, interessa-me, sobretudo, o amor verdadeiro. Para isso, gostaria de trabalhar a concepção, para alguns misteriosa, de Lacan sobre o amor. Lacan apresenta essa ideia ao longo de seu ensino, e a elabora e reescreve constantemente. Porém, seu ponto de partida é essa primeira frase: “Amar é dar o que não se tem”. Como a maioria de suas frases, é uma idéia enigmática, mas vejamos: não é uma experiência tão complexa. Podemos apresentar com a clareza que disse Pierre-Henri Castel: “É que não há prova maior de amor do que dar ao outro aquilo que não se recebeu de ninguém”. É uma concepção ampla de amor, e pode ser referendada nas mais singelas demonstrações amorosas. Podemos recorrer a imagens refinadas ou simples. Duas me ocorrem: a primeira, num simplório filme que assisti recentemente chamado Love, Rosie, no qual a protagonista, jovem de família humilde, sonha em se mudar da pacata cidade natal para uma grande metrópole americana e estudar em uma das grandes universidades dos EUA, creio que Harvard. Ela então, muito temerosa, vai apresentar ao pai seu projeto e perguntar sua opinião. O pai lhe responde mais ou menos assim: “Minha filha, a sua avó, sobre essas coisas, sempre disse ‘não é para o nosso bico’.” Nós claramente compreendemos como um desestímulo aos sonhos da menina, mas ele complementa: “Eu não quero que nunca você pense e se sinta assim”. Isto é, como diz Castel: “É muito difícil amar seus filhos se contentando de lhes dar somente o que se recebeu. O que se quer fazer pelos seus filhos é dar aquilo que não se recebeu nem de seus pais”. É uma perfeita declaração de amor, que, não suficiente, está ainda dificultada pela separação entre filha e pai  — mas, no cruzamento entre a presença da filha e a realização dela, o pai escolhe a segunda: amar é deixar o outro ser. 

A segunda, também de um filme singelo: As good as it gets (traduzido no Brasil como Melhor é impossível), no qual o protagonista, uma caricatura de um solitário obsessivo interpretado por Jack Nicholson, vê toda sua estrutura defensiva desmoronar diante da paixão por uma mulher. Resistente aos tratamentos diversos, em um dado jantar com ela, ele lhe comunica que vai começar um tratamento para suas dificuldades. Ela fica perplexa, e então ele lhe explica: “Eu quero ser uma pessoa melhor”. 

O amor tem exatamente essa função. É um tipo de mentira, mas a mais doce e moral das mentiras: nós queremos oferecer até mesmo aquilo que não temos, não como promessa ou engano sedutor, mas como verdade, verdade segundo a qual nós seríamos pessoas melhores, e que só seremos capazes pela via do amor e daquele que amamos. 

Fiz questão de tomar imagens singelas para mostrar que o amor não precisa de complexidades para ser vivido (uma crença enganosa daqueles que estão inabilitados ao amor por alguma razão temporária ou perene) e também porque elas abrangem suas dimensões mais importantes: a força em oferecer o que não temos (a coragem que não sustentamos, o altruísmo que recusamos, a fragilidade que não queremos expor) e a capacidade de olhar o outro como alguém que merece se realizar, conosco ou não (um ser completamente distinto de nós, cuja maior prova de amor que pode receber de nós é o amparo para se realizar). Por fim, o impulso do amor em despertar dentro de nós os nossos mais escondidos anseios de sermos melhores, porque mais amáveis, porque mais amados, porque mais amantes. 

Felipe Pimentel é psicanalista e historiador.

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