Abusadoras (e) Vítimas

Abusadoras (e) Vítimas

A complexidade do movimento #Metoo após denúncia de que as porta-vozes dos abusos também abusam

Estado da Arte

13 Outubro 2018 | 12h01

por Isabelle Anchieta 

As crises e os desdobramentos do movimento #metoo têm sido mais instigantes para se repensar as relações entre homens e mulheres do que o movimento em si. Tanto é que aprendemos três lições com os casos da atriz italiana Asia Argento, que fez sexo com um menor de idade; com a professora americana Avital Ronell, que assediou um orientando; e, mais recentemente, com Cristiane Ford, que acusa o indicado à suprema corte de Donald Trump de tentativa de estupro.  Primeiro, aprendemos que é possível ser vítima e abusadora ao mesmo tempo. Segundo, que o assédio sexual se refere, sobretudo, às relações de poder e não ao sexo da vítima. E, por fim, colocamos em dúvida até que ponto a fala de uma mulher basta para provar um crime. Não aceitar a fala como prova trata-se de uma questão de desacreditar a vítima ou de impedir que a mídia seja a nova esfera da justiça?

Esse desencaixe de lugares fáceis de quem é a vítima e de quem é o algoz é o primeiro passo, no meu entender, para sairmos de um debate maniqueísta e avançarmos para um entendimento mais complexo e mesmo realista da relação entre homens e mulheres. Mas também devemos tomar cuidado para não ‘jogar a criança fora com a água do banho’. A legitimidade da demanda de relações mais equânimes entre as pessoas é, sim, urgente e não pode ser desmontada completamente com a necessária crítica a esse movimento. No meu entendimento, o erro está na universalização da ideia de mulher, como um grupo homogêneo moralmente. Não existe mulher, mas mulheres. Por isso, elas não devem ser tomadas nem como inocentes de antemão, nem como algozes.  Cada caso é um caso, e nem seus acertos nem seus erros podem ser estendidos às demais como uma régua comum.  Do contrário, estaríamos reforçando algo pelo qual as intelectuais tanto lutaram para desmontar: a ideia do feminino universal e natural, quando hoje sabemos que sua montagem é basicamente sociocultural.

O sexo não é redentor. O que devemos reclamar não é por um ‘feminismo’. Esse movimento não deve ser, como se quer crer, o único caminho para a defesa da emancipação feminina. Pelo contrário. A aversão social a esse tribalismo anacrônico tem mais retardado do que feito avançar suas demandas. O que se deve reclamar é por uma ideia mais ampliada de justiça e igualdade de oportunidades, e não por uma identidade que nada diz sobre cada uma de nós. Ser mulher não é tudo o que esse alguém é e diz muito pouco sobre cada uma de nós. O que se deseja, no fundo, é o que Emmanuel Levinás[1]chamou de “humanismo do outro” e o que eu chamo de individumanismo. Em outro dizer, um humanismo “diferente do humanismo que considera todas as pessoas iguais, não as percebendo em sua unicidade e na sua temporalidade, reduzindo-as a conceitos, negando a alteridade destas”[2]. Mas um humanismo que percebe as trajetórias e julga as pessoas por seus atos e decisões e possui, simultaneamente, como critério o respeito ao outro, independentemente do sexo, cor, idade e etnia.

Por isso é importante dizer que, se por um lado deve-se, sim, questionar o uso estratégico da vitimização como forma de empoderamento abusivo, por outro, não se pode confundir essa crítica com a justiça de fundo a qual se clama. Mesmo porque isso seria um processo de marcha para trás. Impedir a mulher de estar em posições de equidade e poder é impedir o crescimento da metade da população e, assim, evitar sua contribuição social e o desenvolvimento de todos. É nessa direção que me lembro sempre da fala emblemática e ainda atual de Stuar Mill. O filósofo foi um dos primeiros homens a defender, publicamente, a igualdade de direitos entre homens e mulheres. Em 1867, como membro do parlamento inglês, apresentou uma petição assinada por 1.500 mulheres que desejavam votar.  No discurso em defesa das sufragistas, oferece um argumento que merece, ainda hoje, ecoar:

Estou convencido de que as relações sociais dos dois sexos, que subordinam um sexo a outro em nome da lei, são más em si mesmas e constituem um dos principais obstáculos que se opuseram ao progresso da humanidade; estou convencido de que devem ser substituídas por uma igualdade perfeita, sem qualquer poder ou privilégio para um lado e incapacidade para o outro[3].

Stuart Mill se dá conta de que a emancipação feminina não se restringia apenas à defesa da justiça e à liberdade humana, mas traria benefícios muito concretos para a sociedade em geral. Com a colaboração feminina nas esferas públicas, especialmente com sua participação na política, nas tomadas de decisão, nas esferas do conhecimento e do trabalho, avançaríamos. Impedi-las, seria o mesmo que impedir a sociedade de dar esse passo.

Isabelle Anchieta é doutora em Sociologia pela USP, jornalista, mestre em Comunicação Social pela UFMG. Recebeu prêmio como Jovem Socióloga brasileira pela Associação Internacional de Sociologia com apoio da UNESCO

[1]Emmanuel Levinás, Humanismo do outro homem. Petrópolis: Vozes, 1993.

[2]Idem.

[3]Stuart Mill, A sujeição das Mulheres, São Paulo, Escala, 2006.p. 15.