A Vida Após a Vida: a delicadeza está presente

A Vida Após a Vida: a delicadeza está presente

Em seu filme de estreia, Zhan Hanyi narra com sensibilidade os dilemas da China que se moderniza à força.

Estado da Arte

04 de junho de 2017 | 20h27

Por Willian Silveira

Ninguém mais morre por aqui. Apesar da impressão inicial, o diagnóstico de Mingchun não tem nada de positivo. A Vida Após a Vida chega aos cinemas brasileiros depois de circular pela Fórum, seção da Berlinale dedicada a filmes de experimentação e ensaios visuais. Produzido por um dos maiores nomes da China no cinema atual, Jia Zhang-Ke, o longa marca a estreia de Zhang Hanyi e revela os resultados de um país em constante transformação.

O filme se passa em Shanxi, uma das muitas províncias chinesas atingidas pela brusca política de integração econômica das últimas décadas. Embebido pelo mantra da “lenta abertura”, ideia vaga que soa como eterna dissimulação autoritária, o descaso do país com a migração populacional resulta no esvaziamento do campo, acentuando uma paisagem composta por horizontes intermináveis e espaços vazios. Diante do cenário desolador, Mingchun e Leilei são pai e filho convivendo com anseios inconciliáveis. Reflexo de um geração que não está apenas nas grandes cidades, o jovem Leilei tem na roupa esportiva colorida, estampado por uma marca ocidental, a sua identidade. A roupa antecipará a confissão de que deseja, diferentemente do pai, fazer algo de útil na vida. Cuidar de ovelhas, escolher lenha e plantar árvores, nada disso interessa ao jovem. O que ele quer mesmo é ser motorista de guindaste.

Cena de “A vida após a vida”: as tensões da China moderna no cinema do estreante Zhang Hanyi. (Foto: divulgação)

Pai e filho são protagonistas de um tema recorrente no cinema chinês. A falta de mediação na transição do campo para a cidade criou uma tensão em que o sucesso, e por consequência a felicidade, estão atrelados ao trabalho industrializado. A equação iniciada a partir do movimento gerado pela Revolução Industrial finalmente atinge a China. No âmago do gigante do oriente, a invasão da modernidade carrega o dilema de como conciliar a herança milenar com o novo modelo de país que se afigura.

Filme de observação, concebido através da decantação do tempo e da valorização dos símbolos, A Vida Após a Vida se destaca ao fundir a denúncia do novo com aspectos da tradição. Em meio aos planos simétricos e à coreografia do cotidiano, a direção de Hanyi introduz um elemento de rompimento. Após sair de cena, Leilei regressa tomado pelo espírito da mãe. Morta, Xiuying encarna no filho a fim de resgatar a árvore da família antes que seja tarde. A cena, que a crítica em geral interpretou como um traço fantástico sem prestígio, não causa estranhamento. Inserida com naturalidade, a passagem está contextualizada na tradição oriental, incorporando o filme à uma trajetória como a de Tio Boonme (2010), de Apichatpong Weerasethakul, que recebeu incansáveis elogios à época.

Talvez nada do que seja feito possa salvar a província de Shanxi. Mesmo assim, é muito importante que se faça. A experiência do retorno enfatiza a importância do permanente e valoriza a contemplação das ações. Pelo menos aqui, as mudanças não suscitam desespero. O inevitável, antes de tudo, torna-se refúgio para a sensibilidade.

Willian Silveira é editor da revista Sétima e membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE).