A verdade, a morte e a filosofia em Chernobyl

A verdade, a morte e a filosofia em Chernobyl

Chernobyl foi o resultado de uma série de erros humanos com motivações tão banais quanto a promoção no emprego.

Estado da Arte

21 de junho de 2019 | 16h00

 

Chernobyl, série da HBO.

por Renata Velloso

O herói acaba de gravar sua versão da história em fitas cassete, dá comida para o gato e se mata. Logo na primeira cena, Chernobyl impõe aquilo que Albert Camus chamou de “o único problema filosófico realmente sério”: o suicídio. O poeta Fernando Pessoa compartilhava da mesma dúvida: “Valeu a pena?”, e responde de maneira inconclusiva “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

O ano era 1986. Minha geração, que havia passado a infância apaixonada pela ciência e sonhando com viagens de férias pelo sistema solar, já tinha sofrido a primeira desilusão da adolescência com a explosão do ônibus espacial Challenger, em janeiro. Quatro meses depois aconteceu o acidente em Chernobyl. Enquanto o acidente da Challenger foi espetacular como o ocidente está acostumado, transmitido ao vivo pela TV com vítimas que passaram a ser tratadas como pessoas da família, o de Chernobyl foi silencioso, igual na série da HBO. Como acontece com os próprios efeitos da radiação, a gente foi recebendo a notícia sorrateiramente, diziam que uma coisa muito grave tinha acontecido, mas não sabíamos muito bem o quê. Nunca chegamos a ter a noção exata do perigo que corremos, e que continuamos a correr.  Das crianças então, tudo era ainda mais escondido. Eu me lembro que ouvi atrás da porta meus pais comentando que um conhecido da família tinha importado leite de Chernobyl para fabricar laticínios no Brasil. Nunca soube se foi verdade. Soube, porém, no livro Vozes de Chernobyl, que na União Soviética comerciantes vendiam frutas falando que era de Chernobyl e que pessoas compravam para dar para ao chefe ou à sogra. Humanos sabem ser pequenos.

O fato é que após o acidente, os soviéticos encontravam-se na seguinte situação: nós podemos ser culpados pela morte de centenas de milhões de pessoas. Incluindo todas as pessoas que amamos.

Como é que o ser humano se comporta perante uma notícia dessas?

Se nos valermos da teoria dos cinco estágios de luto da psiquiatra Elisabeth Kubler-Ross, veremos que o primeiro estágio é o da negação. Foi assim que os engenheiros da sala de controle de Chernobyl agiram no primeiro momento, quando a situação começou a ficar bem estranha durante o teste de segurança que eles estavam realizando na noite em 26 de abril de 1986. A negação foi também a primeira reação do governo central soviético, liderado por Mikhail Gorbachev. (É assim também que nós estamos agindo hoje perante as consequências do aquecimento global, consenso entre os cientistas que pagamos para pesquisar e nos proteger).

Superada essa primeira fase de negação, quando perceberam cientificamente o tamanho do problema e criaram um plano para redução de danos, os soviéticos passaram a enfrentar uma disputa filosófica-moral: era melhor fazer tudo o que tinha que ser feito, como diriam os pensadores utilitaristas, para evitar um mal maior, ou haveria ali, um imperativo categórico pela verdade, como propôs Kant?

O governo soviético seguiu o modelo utilitarista. Convenceram os três engenheiros Alexei Ananenko, Valeri Bespalov e Boris Baranov a arriscarem a vida mergulhando no escuro para abrir as válvulas de drenagem dentro da usina nuclear. Levaram mineradores de carvão soviéticos para cavarem, sem proteção a uma temperatura de mais de 50 graus, um túnel por baixo do reator para tentar que evitar que o magma radioativo derretido contaminasse o Mar Negro. Foram vidas usadas para o bem comum “para a felicidade de toda a humanidade”, como ostentava o letreiro de propaganda do governo em cima de um prédio em Pripyat, a cidade modelo construída pelos soviéticos em torno da usina nuclear. Também fizeram o que tinha que ser feito os militares e recrutas adolescentes sem experiência, que foram deslocados para a zona de exclusão para exterminar os animais, a maioria cães e gatos de estimação, e a retirar à força os habitantes que insistiam em não deixar suas casas. Essas pessoas, que foram convencidos mais por um espírito de dever do que por garantias ou vantagens financeiras do governo, entregaram suas vidas para tentar salvar milhões de outras e também a reputação do seu país. O objetivo era evitar a humilhação de uma nação que tem obsessão em não ser humilhada.

Já uma parcela dos cientistas soviéticos, representados na série pelo personagem fictício Ulana Khomyuk, de Emily Watson, perseguiu o caminho da verdade. (Interessante o fato de que o único personagem feminino de destaque de uma série que retrata a tragédia mais branca e mais masculina da história da humanidade tenha sido inventado.) Para esses cientistas, assim como para Kant, a  verdade não se importa com as consequências, portanto a mentira, como o crime, nunca compensa. Eles defendiam que era fundamental informar a sociedade soviética e mundial sobre os fatos ocorridos em Chernobyl que levaram à tragédia. O objetivo não era apenas punir os responsáveis, mas principalmente evitar que outros acidentes como aquele se repetissem. O que aconteceu em Chernobyl, afinal, não foi um acidente natural ou um fato isolado e sim uma série de erros humanos motivados por incentivos tão banais quanto a promoção no emprego. Pior, tratava-se de um problema estrutural onde a alta hierarquia política e científica tinha parcela de culpa. Tudo isso em um governo autoritário que pregava o ateísmo de Estado e no qual a crença nos líderes e na ciência havia tomado o lugar da religião.

Quem tem razão frente a um problema desse tamanho?

O herói da série, o cientista Valery Legasov, químico contratado pelo governo para coordenar os esforços de contenção de danos dos acidentes, decidiu que internacionalmente valia a pena defender a reputação do país no encontro da Agência Internacional de Energia Nuclear (IAEA) em Viena. Internamente, no julgamento que levou a condenação dos engenheiros responsáveis pela sala de controle do reator no dia do acidente, ele preferiu falar a verdade. O que nunca saberemos é se foi o sentimento de culpa, o medo de uma morte lenta e dolorosa provocada pela radiação a que ele se expos, a solidão do ostracismo a que foi condenado após seu depoimento ou uma doença psiquiátrica que o levaram a decidir que valia a pena gravar a sua versão história, mas não valia a pena continuar vivendo.

Legasov tomou sua decisão, mas e nós, o que faremos quando a verdade dos nossos erros políticos e ambientais se impuserem na nossa frente? Quão pequena é a nossa alma?

Renata Velloso é formada em Administração Pública pela EAESP-FGV e Medicina pela Unicamp, trabalha com projetos de inovação na área de saúde no Vale do Silício na Califórnia, é colaboradora do Terraço Econômico e autora do livro de empreendedorismo para jovens e adolescentes “Criando Unicórnios”.

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