A nova trilogia de Wim Wenders

A nova trilogia de Wim Wenders

‘Tudo Vai Ficar Bem’, ‘Os Belos Dias de Aranjuez’ e ‘Submersão’ propõem uma reflexão sobre os destinos do Homem

Estado da Arte

20 Abril 2018 | 10h38

Miguel Forlin

Em qualquer debate acerca da filmografia do diretor alemão Wim Wenders, quase todos concordam que houve uma queda vertiginosa na qualidade dos filmes. Para a maioria dos críticos, depois de Asas do Desejo, de 1987, nenhum dos seus longas de ficção alcançou o mesmo nível artístico de obras como Alice Nas Cidades, Movimento em Falso, No Decurso do Tempo, O Estado das Coisas, O Amigo Americano e Paris, Texas. No que diz respeito às produções mais recentes, a concordância é ainda mais radical: ninguém enxerga muitos méritos narrativos, estéticos ou temáticos em Tudo Vai Ficar Bem (Every Thing Will be Fine, 2015), Os Belos Dias de Aranjuez (Les Beaux Jours d’Aranjuez, 2016) e Submersão (Submergence, 2017).

No entanto, quando a carreira de um diretor passa por um momento pouco chamativo, é muito comum que os críticos analisem os filmes numa única chave, como se todos fizessem  parte de um bloco uniformemente irrelevante. Há várias razões para isso, mas como elas não são o assunto principal deste artigo, basta dizer que existe uma má vontade geral para explorar as sutilezas de filmes não muito dispostos a agradar de imediato. Embora as diferenças de qualidade entre as fases de Wenders sejam evidentes, isso não significa que todas as obras lançadas nas últimas décadas (as de ficção, pelo menos, já que o diretor ainda é reconhecido por seus documentários) mereçam ser descartadas. Se um aprofundamento não é suficiente para alçar algumas delas ao mesmo patamar atingido pelas que foram realizadas nas décadas de 1970 e 1980, ele serve para nos aproximar das reais intenções artísticas do diretor, o que já é um avanço significativo.

No caso dos três últimos filmes, se tornou urgente dizer algo a respeito, uma vez que estão entre os mais criticados. Porém, essa urgência também se justifica se levarmos em conta a maneira como eles dialogam entre si, visto que há uma conexão capaz de fazer cada um dos títulos adquirir novo sentido quando analisado dentro de um contexto mais amplo. É em razão disso que se mostra importante falar de uma “nova trilogia”, mesmo que não tenha existido essa intenção por parte do cineasta (nada exterior indica que eles foram pensados em conjunto). Os longas de 2015, 2016 e 2017 funcionam individualmente, mas crescem a partir do instante em que se nota uma conversação fluída entre eles, a qual é constituída por um postura conceitual em que características fortemente ligadas à contemporaneidade se esgotam numa espécie de retorno aos primórdios concretos e simbólicos do Homem, revelando um ciclo aparentemente repetitivo de morte e renascimento.

Em Tudo Vai Ficar Bem, por exemplo, o primeiro ato é marcado por personagens e paisagens emocionalmente estéreis. Eles enfrentam bloqueios que os impedem de criar laços mais profundos. Tudo é tão inócuo quanto a neve que cobre a superfície da região. Evidentemente, para Wenders, um tradicionalista crítico da modernidade, os dias atuais são caracterizados por uma incomunicabilidade paralisante. Criatividade e relacionamentos amorosos inexistem. Não há diálogo ou vida interior. Quando o protagonista do filme, o escritor Tomas Eldan (James Franco), atropela e mata um jovem garoto, a narrativa sinaliza uma possível ruptura da letargia anterior, mas essa mudança fica, na maior parte do tempo, no campo das possibilidades.

Os elos que ligam os personagens são os da morte e da perda. Através dos seus dramas específicos, se lamenta o fim moral e psicológico de toda uma civilização. A figura do escritor, importantíssima no Ocidente, não consegue criar. Ele está completamente desconectado das suas funções. O que o move é um sentimento de luto, o mesmo que o faz recorrer ao álcool e às drogas para aplacar a dor. Numa perspectiva cosmológica, Wenders está falando da não-existência, o estágio anterior e posterior de qualquer manifestação de vida. A atmosfera irreal  obtida pelos efeitos da fotografia coloca tudo num estágio que remete a um plano quase etéreo (no sentido figurado do termo), que está esperando e ansiando a existência. E esta vem apenas no final, quando a promessa do título começa a se cumprir. Após a civilização chegar a um estágio de morte em vida e isso simbolizar o vazio antes da criação, o clico se reinicia. Tomas passa a escrever e Deus cria o mundo.

Estamos, agora, vivendo Os Belos Dias de Aranjuez. Dois personagens, creditados simplesmente como “Homem” e “Mulher”, conversam livremente num jardim. Antes de aparecerem, há uma sequência de imagens mostrando uma Paris desabitada. Surge, aos olhos do espectador, a realidade física. É só depois de nos afastarmos da cidade que encontramos os dois seres anônimos praticamente enquadrados por um gazebo. Eles são os personagens de uma peça que está sendo escrita. Temos, mais uma vez, a presença física de um escritor, que, buscando finalizar o texto, se depara com a aparente independência de sua criação, como Deus ao dar liberdade ao primeiro casal.

Já o conteúdo da conversa é uma reflexão sobre os papéis masculino e feminino ao longo dos anos e como eles mudaram de acordo com as transformações políticas, sociais e culturais do Ocidente. Nesse Éden, a crise dos gêneros ? que se tornou tão problemática em nossos dias ? é, ao mesmo tempo, consequência e origem, pois está, de certa maneira, contida no diálogo corruptor que leva ao Pecado Original. A conclusão é aterradora: enquanto objeto de compreensão do outro sexo, os homens e as mulheres estão destinados à confusão. O  desarranjo posterior já era um dado incluído na desarmonia entre Adão e Eva, de tal maneira que uma das poucas diferenças é a existência numa região à parte do mundo, a qual, por sua vez, possuía o poder de ditar todo o resto. Não há jeito: o cenário que se posiciona no horizonte é de trevas.

Não à toa, é justamente o mundo que se apresenta completamente em Submersão. Os dois personagens principais, James (James McAvoy) e Danielle (Alicia Vikander), estão imersos na realidade. Ele trabalha como espião para o governo inglês e ela, como oceanógrafa. Há, novamente, o homem e a mulher. Cada um tem uma missão a cumprir e ambos são responsáveis por ações que podem mudar as vidas de muitas pessoas. Do lado do primeiro, existem as misérias ocasionadas pela presença do Estado Islâmico no Oriente. Do lado da segunda, um mergulho capaz de conhecer as formas de vida existentes no fundo do oceano. Contudo, nenhum deles consegue esquecer o tempo que passaram juntos. Eles permanecem fortes apenas porque desejam reencontrar o ser amado.

Mas o caminho que precisam percorrer individualmente é o da via crucis. Seja a solidão de não saber o paradeiro do companheiro, seja a ameaça de morrer como um indigente numa região esquecida do mundo, as situações enfrentadas pelos dois personagens são equivalentes a mergulhos no inferno. Eles desbravam locais onde não há luz e a escuridão impera.  Como o Cristo, precisam carregar a cruz de Pretório até o Calvário e ainda enfrentar as dores da crucificação. A única coisa que os une é o Amor. E é sob esse sustentáculo ? e somente sob ele ? que os dois buscam se ajoelhar e pedir clemência. Pode-se dizer que são os mesmos homem e mulher de Os Belos Dias de Aranjuez, mas reunidos pelo único aspecto que pode salvá-los.

Entretanto, depois desse recuo histórico, tudo leva a acreditar que os momentos de rompimento e crise se repetirão até o ponto em que o ciclo precisará iniciar outra vez. Realmente, enquanto continuarmos sendo governados pelas forças corruptoras, o nosso destino parece ser viver e lamentar as mesmas coisas. Criação, Éden, mundo e destruição num eterno recomeço. É por isso que Submersão termina com um reencontro dos amantes, mas não nesta realidade física e sim num plano espiritual e banhado por luz divina. Somente nesse momento o ciclo se encerra e surge a quebra que acabará com todas as outras.

Coerentemente, é dessa maneira que Wenders, o grande cineasta cristão, decide terminar a sua comovente trilogia. Ao passo que o mundo moderno sofre com as suas mazelas, o cineasta encontra abrigo numa das histórias mais antigas. É como o escritor André Gide dizia: “Tudo já foi dito uma vez, mas como ninguém escuta, é preciso dizer de novo”. Wenders sabe muito bem disso, como a recepção fria dos seus três últimos longas trataram de provar.

Miguel Forlin é crítico de cinema e colabora com diversas publicações da área

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